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Pixinguinha e Copinha são homenageados em shows de choro no Sesc 24 de Maio

20.dez.2025 às 13h00 Diminuir fonte Aumentar fonte Ouvir o texto Kalil de Oliveira Rodrigues Estudou na Universidade Federal de Santa Catarina e na Universidade de

Pixinguinha e Copinha são homenageados em shows de choro no Sesc 24 de Maio
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Kalil de Oliveira Rodrigues

Estudou na Universidade Federal de Santa Catarina e na Universidade de Buenos Aires. Foi trainee em Ciência e Saúde.

[RESUMO] A música revela elementos sobre a identidade nacional brasileira. Sucesso de ritmos —como a polca no começo do século 20 no Rio de Janeiro— indica desejos ocultos de classes sociais. Por trás de gêneros musicais e letras de canções, há sempre algo a ser dito sobre o Brasil.

A música brasileira é sempre um mistério a ser desvelado. Talvez seja esse o fator que confere riqueza ao maior patrimônio cultural do país, o elemento estético mais potente na construção de amálgamas identitárias, ainda que regionalistas. É, aliás, a confluência das múltiplas tradições que formam o Brasil, esse gigante diverso em que um gaúcho não se reflete no espelho manauara. Os ritmos denotam quem somos, quem pretendemos ser.

Nos últimos meses, foram lançados dois projetos audiovisuais que narram o Norte: a série "Pssica" (Netflix) e o filme "O Último Azul". São narrativas diferentes, mas que exaltam a estética do Pará e do Amazonas, respectivamente.

Hermeto Pascoal em 2015
O músico Hermeto Pascoal em 2015 - Mônica Imbuzeiro/Agência O Globo/Divulgação

Sem querer causar conflitos —sei bem que há rivalidade entre os dois estados e que ambos possuem particularidades estéticas—, há pontos em comum na musicalidade nortista. O carimbó, que tem conquistado os brasileiros nos últimos anos, e o brega são estilos importantes da região.

As duas produções são recheadas das mais diversas canções destes gêneros, das mais experimentais à música de zona, para deixar claro de que identidade estão falando. Leia também: Paul McCartney divulga detalhes de novo disco, que inclui dueto com Ringo Starr

Em "Pssica", escuta-se Gaby Amarantos cantando "Ilha do Marajó (Gira a Saia)". A composição de Mestre Verequete é um elogio, primeiro, ao lugar homônimo, e também ao ritmo. "A Ilha do Marajó tem grande população / Aonde nasceu o carimbó no tempo da escravidão", diz um trecho da letra.

É preocupação legítima dos compositores exaltarem suas origens, influências. Da Bahia ao Rio Grande do Sul, ninguém deixa de fazer tais marcações. Para curar as feridas da escravidão, as tradições negras são as mais exaltadas pela arte popular.

Não é para menos. A diáspora trouxe indivíduos de distintos lugares da África, todos ricos em suas culturas. É desnecessário dizer que esse legado casou-se com a cultura indígena e com o mais lindo dos idiomas latinos. Tudo à base da violência, claro.

Mas as influências estão sempre a serem produzidas e, então, reveladas. Em um artigo publicado em 2013, a musicóloga Cristina Magaldi mostra como as populares polcas da belle époque europeia dominaram os salões da burguesia carioca no começo do século 20. Compravam-se as partituras na Europa para reproduzir aqui.

A chegada de imigrantes europeus também impulsionou o sucesso da polca. Depois, compositores brasileiros se animaram a explorar o gênero, como Ernesto Nazareth e Chiquinha Gonzaga, inclusive pela necessidade de suprir a demanda. Mais de entretenimento

Logo entraram instrumentos comuns na música local. É curioso notar que o compasso 2/4, com sequências de semicolcheia, colcheia e semicolcheia, era quase regra nas polcas, assim como é no chorinho. Essa é a gênese do choro.

Magaldi, inclusive, relaciona esse sucesso à urbanização do Rio —o bota-abaixo iniciado em 1903. Música é paisagem. E ao transformar o cenário da cidade, esperava-se que ela adquirisse clima "cosmopolita" que desse conta das ambições políticas: se tornar Europa, branca. A polca, portanto, se tornou a trilha sonora de um projeto estético. Leia também: 'A História do Som' e 'Pela Metade': o que ver na TV e no streaming nesta semana

Mas o negócio se tornou tão popular que gerou instabilidades políticas no Brasil. Em 26 de janeiro de 1914, a então primeira-dama, a musicista Nair de Teffé, esposa de Hermes da Fonseca, interpretou ao violão o "Corta Jaca", de Chiquinha Gonzaga. Era um tradicional sarau no Palácio do Catete, então sede do governo brasileiro.

Estavam presentes autoridades e o corpo diplomático do país. Ao saber da performance, o senador Rui Barbosa se irritou. Afinal, era uma clara violação ao seu projeto estético de país. Em pronunciamento em 7 de novembro de 1914, o parlamentar disse:

"Por que, sr. presidente, quem é o culpado, se os jornais, as caricaturas e os moços acadêmicos aludem ao 'Corta Jaca'? Uma das folhas de ontem estampou em fac-símile o programa da recepção presidencial em que, diante do corpo diplomático, da mais fina sociedade do Rio de Janeiro, aqueles que deviam dar ao país o exemplo das maneiras mais distintas e dos costumes mais reservados elevaram o 'Corta Jaca' à altura de uma instituição social. Mas o 'Corta Jaca' de que eu ouvira falar há muito tempo, que vem a ser ele, sr. presidente? A mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmã gêmea do batuque do cateretê e do samba. Mas nas recepções presidenciais o 'Corta Jaca' é executado com todas as honras de música de Wagner, e não se quer que a consciência deste país se revolte, que as nossas faces se enrubesçam e que a mocidade se ria!"

Coisas do Brasil!

Apesar da revolta de Rui Barbosa, Magaldi aponta o ritmo como algo das elites. Para ela, as classes médias urbanas de diferentes cidades do mundo se conectavam mais entre si do que com as periferias. O pequeno burguês do Rio teria mais afinidades com um semelhante parisiense.

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