Talvez a maior mentira do algoritmo seja chamar de descoberta aquilo que a rua já sabia cantar faz tempo. O gosto, no Brasil, não nasce primeiro na playlist ou na trend do momento. Ele nasce nos paredões, nos chamados "médios graves" pelo Filho do Piseiro, nas festas de bar ou até na JBL do ambulante no ponto de ônibus.
Antes de virar recomendação no Spotify, a música precisa atravessar a vida. A pesquisa "Reset da Mesmice", criada pela BOX1824 e Heineken, sobre o impacto dos algoritmos na socialização brasileira, ajuda a entender o tamanho dessa contradição. O estudo aponta que um a cada quatro brasileiros sente que seus gostos estão ficando genéricos, enquanto 37,7% dizem viver em um "eterno looping", em que nada parece realmente novo, apenas uma variação do mesmo.
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Na música, essa sensação fica ainda mais evidente. A pesquisa mostra que 60,9% veem algoritmos de streaming, como Spotify, YouTube e TikTok, como sua principal fonte de descoberta musical, ao mesmo tempo em que 49,2% dizem sentir confusão entre aquilo de que gostam de verdade e aquilo que foi recomendado pela máquina. Essa confusão aparece quando você ouve um sertanejo, um trap ou um funk e sente que já conhece aquela música, mas, na verdade, ela é apenas muito parecida com outra que ouviu ontem ou anteontem.
A melodia muda pouco, a letra parece reaproveitada e o beat vem com a mesma embalagem. O algoritmo não criou a repetição na música brasileira, mas deu escala industrial a ela em nome de manter atenção e criar mercado. Ao mesmo tempo, a população brasileira está ficando mais velha, e isso também muda a forma como o país escuta.
Segundo o IBGE, a idade mediana no Brasil passou de 29 anos, em 2010, para 35 anos, em 2022, refletindo o envelhecimento da população. Nesse cenário, a nostalgia ganha força não apenas como saudade, mas como refúgio de uma época em que o gosto parecia menos mediado por plataformas. A volta de ritmos como o pagode dos anos 1990, o interesse por um sertanejo diferente daquele plastificado pelo algoritmo, a permanência de figuras como Xuxa e a busca por sons que remetem a bailes, programas de TV, CDs piratas e rádios populares mostram que muita gente quer reencontrar uma memória menos automatizada. Mais de entretenimento
O problema é que o Brasil ainda gosta de tratar como "regional " tudo aquilo que não nasce com sotaque autorizado pelo eixo Rio-São Paulo. A pisadinha precisou atravessar festas, paredões, YouTube, Sua Música e Spotify para provar que o interior também dita tendência, como mostram os Barões da Pisadinha, que viraram fenômeno depois que alguém subiu um disco da dupla no YouTube e a rua fez o resto. Leia também: 'Morro dos Ventos Uivantes' e Olivia Rodrigo: o que ver na TV e no streaming no sábado
Com Gaby Amarantos, essa disputa ganha outra camada —" Rock Doido", lançado no ano passado, não é apenas um disco que "bombou", mas uma resposta sonora de um Pará que o país insiste em olhar só pela lente da crise ambiental, enquanto suas aparelhagens já ensinavam há décadas como se produz presença, tecnologia e futuro. No fim, talvez o "reset da mesmice" não esteja em fugir completamente do algoritmo, mas em lembrar que a vida cultural brasileira sempre foi maior do que ele.
O algoritmo pode até espalhar, mas a novidade, muitas vezes, é só aquilo que o centro demorou demais para escutar. Comentários
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