O antagonismo entre lulistas e bolsonaristas marcou as últimas eleições presidenciais, já pauta a próxima e é a primeira coisa que vem à cabeça diante do título do novo livro do cientista político Jairo Nicolau, " O País Dividido", pela editora Zahar. O autor calcula, entretanto, que a tão falada "polarização" atinge uma parcela pouco expressiva do eleitorado, no máximo 20%.
" O Brasil está polarizado? Está, mas uma parte pequena dele.
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Tem uma grande base da pirâmide que não está nem aí para a política. E que vai decidir o voto, pode cair para um lado ou para o outro", disse Nicolau em entrevista. Professor titular do CPDOC (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil) da FGV (Fundação Getúlio Vargas) e um dos principais estudiosos de partidos e sistemas eleitorais do país, o cientista político analisa, no trabalho, dados das seis eleições para presidente nos últimos 20 anos, de 2002 a 2022.
Seu estudo mostra uma enorme distância entre o eleitorado do início da década e o de agora e como essa reconfiguração afetou o resultado das urnas. À luz das três grandes transformações constatadas no período –um eleitor mais velho, mais escolarizado e participação feminina crescente –, ele projeta que, na eleição de outubro, as mulheres tendem a votar em Lula, sobretudo as mais jovens.
" As moças foram de esquerda em todas as eleições. " Leia também: Comissão da Câmara retira mecanismos de rastreabilidade do programa Celular
Por outro lado, a tendência é que os evangélicos continuem à direita, assim como o eleitor com ensino médio, mas que não vai para universidade –majoritário, no lugar dos pobres de baixa escolaridade da era 2002. " O Brasil passou por uma revolução educacional, e o eleitorado de ensino médio em 2018 e 2022 foi para a direita."
Na entrevista a seguir, feita em sua sala na FGV do Rio, ele aponta a força do PL como uma novidade no quadro partidário brasileiro, explica o conceito de polarização afetiva e comenta o possível efeito do caso Master para a candidatura de Flávio Bolsonaro. O estudo do sr. mostra que os valores morais passaram a ter influência muito maior nas últimas eleições. Por que isso ocorreu?
Essa é a principal explicação para a ascensão da direita e da extrema direita no país? Essa é uma hipótese. Questões morais apareceram desde a redemocratização, mas entre 2002 e 2014 esse tema parece que submergiu na agenda.
Havia um certo pacto, ou a política caminhou para que esse tema não entrasse em pauta. Mas, ao longo da década de 2010, o Brasil começou a mudar. Os temas morais passam a ser centrais na ascensão política de Bolsonaro e em sua eleição em 2018.
Até 2014 os evangélicos votaram majoritariamente nos candidatos do PT, duas vezes em Lula e duas em Dilma. A virada dos evangélicos para a direita aconteceu com a ascensão de Bolsonaro e permaneceu em 22. A minha hipótese, tem que ter mais pesquisa, é que a virada está muito associada ao vínculo entre evangélicos e posições mais conservadoras. Mais de politica
E isso foi amplificado pelas redes sociais… O impacto das redes sociais nas democracias, a sua associação com a ascensão dos populistas, é um tema em aberto. Alguns pesquisadores acham que existe uma associação mais forte, outros acham que as redes sociais só deram espaço a vozes que não apareciam.
Um levantamento muito bem feito do Solon [plataforma de análise de dados da política] mostrou que dos 30 políticos brasileiros agora nas redes sociais, 26 são de direita e só 4 são de esquerda. É inquestionável que a direita, por uma razão que precisa ser melhor estudada, e independente de fake news, domina o território de debate das redes sociais. Até 2018 nunca tínhamos tido um campo religioso [dominante], os católicos nunca foram 70 a 30 para nenhum candidato, que é o tamanho dos evangélicos hoje no país.
Se eles são 27% [da população] como o Censo indicou, qualquer candidato que seja ungido por eles já sai com 20 pontos. Isso o torna extremamente competitivo. Discuto a importância dos evangélicos porque eles praticamente dobraram de tamanho em 20 anos e se unificaram. Leia também: Panorama Político: Lula, Segurança e Inovações
O sr. usa o termo polarização, que é criticado por alguns analistas por criar uma falsa equivalência moral e política. O campo que o sr. define genericamente como direita (porque de 2002 até 2014 tinha como expoente o PSDB e, de 2018 e 2022, Bolsonaro) é hoje dominado pelo bolsonarismo, um polo marcado pelo golpismo. Por que a opção de usar o termo polarização?
No livro eu evito falar em ideologia. Eu preferia trabalhar com ideias de direita e esquerda, mas isso não funcionou porque eu não tinha dados para avaliar a polarização direita-esquerda ao longo do tempo. Polarização é um termo que a gente importou, uma criação da ciência política americana, e hoje é muito usada a ideia da polarização afetiva.
Ela não é ideológica: se você é de esquerda, tem um sistema de crenças sobre o papel do Estado, com valores como igualdade, justiça, e do outro lado mais liberalismo, menos Estado. Não é isso.
E o que é a polarização afetiva? É uma visão pela qual eu sou polarizado se simultaneamente avalio muito bem o meu candidato e avalio muito mal o adversário. Ou seja, eu tenho uma atitude negativa, não só positiva, digamos, apaixonada pelo meu candidato, como também rejeito muito o outro.
Essa rejeição do outro lado começou em 2018, mas em 2022 ela foi maior de todas. Simultaneamente, o eleitorado do Lula passou a odiar, digamos assim, o Bolsonaro e o eleitorado do Bolsonaro, que já odiava o PT, continua odiando. Dois de cada três eleitores brasileiros ficaram nessa polarização afetiva.
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