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Obra-prima de Maryse Condé enfim ganha uma edição brasileira à altura

Gabriel Rocha Gaspar Jornalista, é mestre em literatura pela Sorbonne Nouvelle Paris 3 Segu Preço R$ 149,90 (600 págs.) Autoria Maryse Condé Editora Pinard Tradução

Obra-prima de Maryse Condé enfim ganha uma edição brasileira à altura
Gabriel Rocha Gaspar

Jornalista, é mestre em literatura pela Sorbonne Nouvelle Paris 3

Segu

  • Preço R$ 149,90 (600 págs.)
  • Autoria Maryse Condé
  • Editora Pinard
  • Tradução Dyhorrani Beira

Talvez "Negras Raízes", de Alex Haley, seja o mais ambicioso romance histórico da diáspora estadunidense. Ao reconstruir a trajetória de sua própria família desde o século 18, quando o ancestral mandinga Kunta Kinté é arrancado de sua Gâmbia natal e levado de navio negreiro até a Virgínia para viver e morrer escravizado, Haley junta peças da coleção de rupturas que define toda experiência diaspórica negra.

Leia no AINotícia: Entretenimento: Resumo das Novidades da Semana

Geração após geração, as vidas no livro são interrompidas pela exploração capitalista e pela opressão supremacista branca. Acompanhando a experiência negra deste lado do oceano, da senzala à segregação, "Negras Raízes" impõe as dores de sucessivos desaparecimentos. É um efeito parecido com "Um Defeito de Cor", de Ana Maria Gonçalves, nosso "Negras Raízes". É ruptura.

Mas quais foram as dores da permanência?

Ilustração em estilo expressionista com rosto humano central em preto e branco, cercado por formas abstratas em azul, preto e marrom. À esquerda, figura que lembra um animal com chifres, e ao fundo formas geométricas que sugerem edifícios e um sol estilizado no canto superior esquerdo.
Ilustração de Ivan di Simoni para a capa de 'Segu', livro de Maryse Condé - Ivan di Simoni/Divulgação

"Segu", da guadalupense Maryse Condé —ambientado praticamente na mesma quadra histórica do clássico dos Estados Unidos— pode ser a melhor resposta literária a essa pergunta. Leia também: Entretenimento: O que rolou na semana

Rigoroso do ponto de vista historiográfico, mas de prosa acessível e direta, o texto remonta, em quatro gerações de uma família nobre, o ápice e o ocaso da cidade de Segu, capital do império bambara, que dominou o Mali de 1712 a 1861.

Ao escapar da tentação diaspórica de embarcar a narrativa no navio, condenando o continente africano ao passado, Condé logra construir uma história negra do período escravagista na qual a escravidão e supremacismo branco subsistem, mas nunca tomam o centro do palco.

E porque não deixa a África para trás, "Segu" também não a idealiza. Os lugares e personagens de Condé têm cheiro, sabor, materialidade e contradições de verdade.

Por exemplo, pela presença dos griôs e de sua poesia não apenas na vida cotidiana, mas na sustentação da ordem política; pela influência dos ancestrais e dos objetos mágicos por meio dos quais eles se manifestam em terra; pela crescente penetração cultural do Islã e a maneira como o monoteísmo aspira sorrateiramente à hegemonia.

Sem o devido cuidado na escrita, tudo isso pode fascinar o olhar ocidental ao ponto do exotismo. Não é o caso aqui: eles são tão naturalmente integrados à economia do romance que só fazem sentido. Mais de entretenimento

A escritora guadalupense Maryse Condé, autora de 'Segu' - Adrian Dennis/AFP

Na sociedade bambara patriarcal, poligâmica e escravagista, há incontáveis estupros, que a autora não faz questão de tratar com indignação, mas como um dado do cotidiano.

Será que estupro era banal na sociedade bambara, como na nossa? Afinal, do ponto de vista institucional, raramente encaramos o estupro e a cultura que o sustenta como chocantes, ainda que socialmente seja de bom tom performar o choque. Condé não performa o choque —e com sua naturalidade, choca olhares contemporâneos.

Essa naturalidade no trato de uma cultura estrangeira, tanto no espaço quanto no tempo, reflete a trajetória da própria autora. Leia também: Missa de 7º dia de Laura: o detalhe que mais repercutiu

Nascida em Guadalupe —"território ultramarino", como os franceses chamam suas colônias que, vergonhosamente, perduram—, a autora estudou em Paris. Lá, como o também caribenho Frantz Fanon, entendeu-se negra. Tal qual Fanon, emigrou para a África, onde viveu por 11 anos entre Costa do Marfim, Guiné, Gana e Senegal. E lá, como Fanon, entendeu-se estrangeira.

Do escrutínio do eterno estrangeirismo afrodiaspórico, Condé produziu essa obra-prima, que a editora Pinard finalmente traz às bibliotecas brasileiras.

Demorou 43 anos para chegar ao nosso idioma, mas veio com tratamento à altura: além da capa dura, das lindas ilustrações internas e da menção militante que orgulharia a autora ("impresso em janeiro de 2026, momento em que o Caribe se encontra em estado de alerta após a invasão dos Estados Unidos à Venezuela"), o livro conta com uma tradução digna de prêmio de Dyhorrani Beira.

Se você for escolher uma única leitura para 2026, escolha "Segu".

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