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O vício da vez: como as bets ameaçam o bolso e a saúde dos brasileiros

O vício da vez: como as bets ameaçam o bolso e a saúde dos brasileiros Os jogos de apostas virtuais se popularizaram entre os brasileiros, mas, ao invés do tão sonhado

O vício da vez: como as bets ameaçam o bolso e a saúde dos brasileiros

O vício da vez: como as bets ameaçam o bolso e a saúde dos brasileiros Os jogos de apostas virtuais se popularizaram entre os brasileiros, mas, ao invés do tão sonhado lucro, podem render uma crise de saúde mental

No rolar das telas, nos estádios e nas camisas de futebol, em outdoors nas estradas… Com estratégias agressivas de, as empresas de apostas digitais têm se tornado onipresentes na vida dos brasileiros, especialmente após a Copa do Mundo. É uma tática bilionária para atrair cada vez mais jogadores— e que tem prejudicado o estado emocional e financeiro de milhões de pessoas.

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Segundo a terceira edição do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, que no último ano ganhou uma versão especial sobre jogos de azar, 7,3% da população pode ter uma relação problemática com as apostas. Isso equivale a 11 milhões de pessoas que, a partir dos 14 anos de idade, estão expostas ao risco de ter uma relação patológica com as plataformas— que já tem endividado e comprometido a renda de famílias Brasil afora. De acordo com o mapeamento, 1,4 milhão desses cidadãos poderiam receber o diagnóstico de transtorno de jogo, condição reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

“Nesse estágio, a pessoa tem comportamentos como a falta de controle sobre o tempo e o dinheiro gastos nas apostas, está a todo tempo pensando em tentar a sorte, insiste em jogar para recuperar o que perdeu e pode mentir sobre sua real situação”, descreve a psicóloga Mirella Mariani, do Programa de Transtornos do Impulso do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Não raro, o distúrbio está associado a outros quadros, como a depressão e a ansiedade. Além disso, o risco de suicídio é especialmente preocupante.

Tragédias familiares Segundo um estudo norueguês publicado no periódico The Lancet Regional Health Europe, o atentado contra a própria vida é a principal causa de morte nesse público. A “desinfluenciadora” de jogos de azar Jessica Lobo tem trabalhado nos últimos anos para evitar que esse desfecho se dissemine. Leia também: Frio piora dor nas articulações? Saiba o que diz a ciência e como aliviar

Ela gere mais de 20 grupos para quem tem perdido o sono e a sanidade por causa das apostas. “Todos os dias tenho contato com famílias pedindo ajuda para lidar com a adicção. Lutamos para que elas tenham condições de se reerguer”, explica a ativista de Missão Velha, no interior do Ceará.

Lobo passou a apoiar a causa após uma tragédia familiar. Sua irmã Ângela Maria, autônoma e mãe de três filhos, cometeu suicídio aos 38 anos após contrair R$ 1 milhão em dívidas. “

Há um estigma muito grande sobre esse transtorno, e é importante que o indivíduo não seja culpabilizado por um problema que é coletivo”, defende Ivani Oliveira, presidente do Conselho Federal de Psicologia (CFP). + Arquitetura do vício

Não é de admirar que milhões de brasileiros estão tentando a sorte em jogos de azar. De acordo com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o salário mínimo no país é quase cinco vezes menor do que o ideal— o piso é de R$ 1 640, quando deveria ser de R$ 7 892,55. Não à toa, quatro a cada cinco famílias têm algum tipo de dívida, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

Ver a conta fechando no fim do mês, sem sufoco, é o principal desejo de quem procura as bets. E o nosso cérebro tende a nos sabotar nessa busca. “Na economia comportamental, temos um conceito chamado desconto hiperbólico. Mais de saude

É o fenômeno de preferir recompensas imediatas, mesmo que menores, a recompensas maiores, mas que vão demorar mais tempo para se realizar”, expõe o economista Ahmed Sameer El Khatib, professor da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). As apostas fazem justamente isso: prometem ganhos fáceis e milagrosos em plataformas que prendem a nossa atenção e reforçam o hábito— e assim o cérebro vai liberando doses constantes de dopamina a cada rodada, levando a um círculo vicioso. “

O transtorno de jogo compartilha mecanismos neurobiológicos semelhantes aos observados nas dependências de substâncias, envolvendo principalmente os circuitos cerebrais de recompensa, motivação e controle dos impulsos”, detalha o psiquiatra Antônio Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Para o especialista, o risco é ainda potencializado pelo fato de que, hoje, as pessoas têm acesso às apostas na palma da mão. Por trás da adicção, existe uma estratégia multimilionária para manter o foco nas telas— e ela começa pela.

Um levantamento realizado pelo Itaú Unibanco estima que o setor tenha investido até R$ 8,8 bilhões em marketing em 2024. Em algumas empresas, o valor destinado às propagandas pode representar até 75% da receita— algo impensável em outros segmentos. Mas o gasto compensa para as casas. Leia também: Anvisa proíbe marcas de azeite e doces por irregularidades; veja quais

Calcula-se que cada pessoa atraída para o mundo das apostas possa render até sete vezes mais do que foi gasto para fisgá-la. Por isso, as empresas capricham nas promessas. Publicidades encenam situações com influenciadores ou personagens criados por inteligência artificial que passam a vencer na vida por meio das apostas— superam traições, curtem festas, enriquecem.

Tudo muito longe da realidade adoecedora que cada vez mais brasileiros vivem desde que caíram no bilionário conto do vigário. + Respostas à altura As bets podem estar causando um rombo no sistema público nacional.

Segundo estimativa do relatório A Saúde dos Brasileiros em Jogo, realizado pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), o prejuízo à população causado pelos jogos de aposta pode ser seis vezes maior do que os impostos coletados dessas empresas. O documento indica que o uso doentio gera um custo social de R$ 38,8 bilhões ao ano.

“Desse montante, 80% dizem respeito a danos à saúde do usuário: são R$ 17 bilhões por mortes adicionais por suicídio, R$ 10,4 bilhões por perda de qualidade de vida decorrente de depressão, R$ 3 bilhões em tratamentos médicos para o transtorno depressivo”, detalha Rebeca Freitas, diretora de relações institucionais do IEPS. Além disso, apenas 1% da arrecadação sobre a receita bruta desse mercado é destinada ao Ministério da Saúde— e não há um vínculo específico com o financiamento da Rede de Apoio Psicossocial, que gere as unidades de atendimento psiquiátrico no país.

Para ter uma ideia, no Reino Unido, 50% dos tributos são voltados ao bem-estar da população. “Temos dois estudos epidemiológicos em curso para entendermos o real impacto das bets no estado mental do brasileiro e aprimorarmos as políticas públicas”, afirma o psiquiatra Marcelo Kimati, diretor do Departamento de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas do Ministério da Saúde, que pretende estrear uma campanha de conscientização sobre o tema. Como evitar prejuízos à saúde e ao bolso Para proteger a sanidade e o patrimônio da população, o governo federal tem implementado algumas ferramentas de prevenção e tratamento do vício em bets.

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