Idade de Neymar e outros em 2030: quando um jogador fica “velho demais”
Ler matéria →O telefone sem fio entre intestino e cérebro que atrapalha o emagrecimento Estudo mostra como a interação entre os órgãos e o tecido adiposo influencia a fome, a saciedade e o risco de ganho de peso Por muito tempo, o ganho de peso foi encarado pela sabedoria popular como uma simples equação matemática entre calorias ingeridas e calorias gastas, ou mesmo como uma questão de força de vontade. No entanto, a ciência vem demonstrando que o controle da fome e o acúmulo de gordura corporal dependem de uma engenharia biológica muito mais complexa e integrada. Um novo estudo de revisão, publicado no periódico científico Reviews in Endocrine and Metabolic Disorders, detalha que o nosso organismo opera por meio de uma espécie de “linha direta” que conecta três sistemas:
o intestino (e os trilhões de bactérias que vivem nele), o tecido adiposo (as células de gordura) e o hipotálamo (a região do cérebro responsável pelo controle da fome e do gasto energético). Ao observar essa relação, o pulo do gato da pesquisa foi mapear o passo a passo biológico de como uma dieta inadequada, rica em açúcares refinados e gordura saturada, provoca uma quebra no equilíbrio entre esses sistema. O circuito biológico e o sinal de saciedade
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O processo começa no sistema digestivo. Uma alimentação de baixa qualidade altera o perfil das bactérias presentes no intestino, causando um desequilíbrio que prejudica a barreira de proteção do intestino, tornando a sua parede mais permeável. Como consequência, fragmentos de bactérias e suas toxinas conseguem atravessar o intestino e entrar na corrente sanguínea, um fenômeno conhecido na ciência como endotoxemia metabólica. Leia também: Torcedor morre em jogo do Brasil; infartos aumentam 16%
Uma vez na corrente sanguínea, essas substâncias disparam uma resposta inflamatória leve, mas contínua. Essa inflamação afeta primeiramente o tecido adiposo e, gradativamente, viaja pelo corpo até atingir o sistema nervoso central. Ao se instalar no hipotálamo, a inflamação gera uma perda de sensibilidade nos sensores de saciedade.
O cérebro deixa de responder adequadamente à leptina, um hormônio produzido pelo tecido adiposo para avisar que o corpo possui energia suficiente, reduzindo o apetite. Sem conseguir processar o sinal da leptina, o cérebro interpreta que o corpo ainda precisa de alimento, mesmo que haja energia de sobra estocada. Eis que o panorama detalhado dessa comunicação entre os sistemas do corpo foi mapeado por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
O trabalho de revisão científica foi conduzido por mim, Helena Queiroz, e por Breno Picin, sob a supervisão das professoras Débora Estadella e Luciana Pisani, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). A reunião destas evidências pelos pesquisadores brasileiros ajuda a consolidar o entendimento da obesidade como uma disfunção metabólica e inflamação crônica, e não como uma falha comportamental. O impacto no tratamento e no prato Mais de saude
A revisão destaca que medicamentos, como a semaglutida e a tirzepatida, fazem muito mais do que mimetizar os hormônios da saciedade no cérebro: eles são capazes de remodelar o ambiente intestinal, estimulando bactérias aliadas típicas de organismos magros. Essas bactérias passam a produzir compostos (como o acetato) que viajam pelo sangue até o sistema nervoso, onde ajudam a desligar a inflamação cerebral e a reativar os sensores que controlam a fome.
A importância desse circuito é tão vital que, em testes de laboratório, o uso de antibióticos potentes que destruíram a microbiota intestinal reduziu drasticamente a eficácia desses remédios. O grande desafio, contudo, surge quando o tratamento é interrompido. Dados clínicos recentes revelam que a suspensão do medicamento provoca uma reversão rápida, onde as bactérias benéficas perdem espaço e os neurônios que estimulam a fome voltam a ser ativados intensamente, explicando o rápido ganho de peso relatado por pacientes. Leia também: Hotel investigado após surto de doença atingir dezenas de hóspedes
Por outro lado, o estudo também reforça que a base da prevenção e do equilíbrio metabólico continua passando pelo que colocamos no prato. Se a desregulação do sistema começa com a alteração das bactérias intestinais, a proteção desse eixo também se inicia ali. Uma dieta rica em fibras, oriundas de frutas, vegetais, grãos e leguminosas, estimula a produção de compostos protetores pelas bactérias benéficas, ajudando a blindar o cérebro contra a inflamação e mantendo os sinais naturais da fome funcionando perfeitamente.
*Helena Queiroz é professora afiliada da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e pesquisadora de pós-doutorado com bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).
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