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Ler matéria →O sofrimento silencioso das crianças de Gaza que perderam capacidade de falar- Author, Alejandra Martins- Role, Da BBC News Mundo- Published- Tempo de leitura: 16 min Adam era um menino alegre e falante, mas aos 5 anos e de forma repentina, deixou de interagir com o mundo. Seu caso não é uma exceção.
Diante da violência, destruição e morte em Gaza, a resposta de algumas crianças ao sofrimento avassalador tem sido calar-se. " Não há nenhuma criança em Gaza que não esteja traumatizada", disse à BBC News Mundo (serviço de notícias em espanhol da BBC) Katrin Glatz Brubakk.
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" Há mais de um milhão de crianças que sofreram traumas graves. "
A psicoterapeuta infantil da Noruega realizou duas missões a Gaza em 2024 e 2025 com a organização sem fins lucrativos Médicos Sem Fronteiras (MSF) para trabalhar com crianças que perderam a capacidade de falar. Não se sabe com certeza quantas crianças em Gaza deixaram de se comunicar, mas Brubakk relata que encontrou dezenas de casos. E médicos locais disseram à rede Al Jazeera que se trata de um "número crescente".
Mais de seis meses após o anúncio do cessar-fogo em Gaza, a violência continua e "os ataques israelenses seguem de forma rotineira", declarou em abril o Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk. Pelo menos 846 pessoas— entre elas muitas mulheres e crianças— morreram em Gaza em ataques israelenses desde o início do cessar-fogo, segundo o ministério da Saúde local. Israel, que justifica seus ataques pela necessidade de defender suas tropas e enfrentar a ameaça dos militantes do Hamas, afirma que cinco de seus soldados morreram no mesmo período. Leia também: 'Mundo paralelo' ganha destaque após novo desdobramento em 'mundo
Hamas e Israel se acusaram mutuamente de violar o acordo de cessar-fogo. Desde outubro de 2023— após os ataques de militantes palestinos em território israelense nos quais morreram cerca de 1,2 mil pessoas e mais de 200 foram feitas reféns, segundo autoridades israelenses— as forças de Israel mataram mais de 20 mil crianças em Gaza e deixaram mais de 41 mil feridas, segundo a Unicef. No total, os ataques israelenses mataram mais de 72 mil pessoas, a maioria civis, e feriram mais de 172 mil, de acordo com o ministério da Saúde de Gaza.
A BBC News Mundo conversou com Katrin Glatz Brubakk sobre o trauma que está levando as crianças de Gaza a perder a fala, as consequências em seus cérebros e por que o caminho para a recuperação às vezes começa com um primeiro passo: soprar bolhas de sabão. BBC News Mundo- Por que há crianças em Gaza que deixaram de falar? Katrin Glatz Brubakk- Quando uma criança sofre um trauma grave e vive em condições de grande incerteza por muito tempo, como acontece com as crianças de Gaza, ela teme por sua própria vida, pela de sua família, amigos e conhecidos.
E em Gaza as crianças vivem assim há dois anos e meio. O nível de estresse e o impacto em seu sistema nervoso são tremendos. A reação de cada criança é diferente.
Algumas ficam muito agitadas ou têm problemas para dormir, se irritam, gritam; é fácil detectar esse sofrimento. Outras, por outro lado, se bloqueiam completamente.
É como se seu sistema nervoso dissesse: " Não aguento mais". Mais de mundo
E a forma de se proteger é retraindo-se. A linguagem faz parte disso. Para essas crianças, é uma forma de não interagir com esse mundo que não deixa de fazê-las sofrer e de lhes infligir dor.
Assim, não é uma escolha consciente, mas uma resposta neurológica ao estresse e ao trauma extremos. BBC News Mundo- É difícil para muitos compreender a magnitude do que viveram e vivem as crianças em Gaza. Você poderia nos dar uma ideia do trauma extremo que sofrem?
Brubakk- Não há nenhuma criança em Gaza que não esteja traumatizada. Há mais de um milhão de crianças que sofreram traumas graves. Claro que há diferenças, mas elas tiveram que fugir, perderam suas casas, todas enfrentaram a impossibilidade de ir à escola porque as escolas estão bombardeadas. Leia também: 'Mundo paralelo' ganha destaque após novo desdobramento em 'mundo
Todas perderam alguém, como familiares, amigos da escola, professores, um vizinho. Muitas viram corpos mutilados e sentiram o cheiro do sangue derramado. Algumas crianças me contaram que ajudaram a recolher restos humanos ou partes de cérebro na rua.
São traumas extremos. E isso não ocorreu apenas uma vez, mas muitas vezes para a maioria. Mas, além disso, elas perderam toda sensação de segurança.
Para ter um bom desenvolvimento, as crianças precisam ter certa confiança no mundo: a crença de que o mundo pode ser bom, que as pessoas não querem fazer mal a você. Essa sensação de segurança desapareceu completamente devido à magnitude da destruição, que afeta absolutamente tudo em Gaza.
Nenhuma criança em Gaza pode deitar com a certeza de que vai acordar no dia seguinte. Não têm um quarto ao qual possam entrar, fechar a porta e saber que ninguém pode alcançá-las. Portanto, essa guerra não apenas causa trauma, mas afeta toda a sua visão de mundo.
BBC News Mundo- Você poderia nos contar sobre algumas das crianças que tratou em Gaza? Brubakk- Gostaria de falar de Adam, um menino de 5 anos. Era uma criança muito vivaz, alegre, falante e ativa.
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