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O que pesquisador descobriu pedalando como entregador de apps por 6 meses: 'É terra de ninguém, risco de vida o tempo todo'

O que pesquisador descobriu pedalando como entregador de apps por 6 meses: 'É terra de ninguém, risco de vida o tempo todo' Crédito, Victor Moriyama/Bloomberg via Getty

O que pesquisador descobriu pedalando como entregador de apps por 6 meses: 'É terra de ninguém, risco de vida o tempo todo'
O que pesquisador descobriu pedalando como entregador de apps por 6 meses: 'É terra de ninguém, risco de vida o tempo todo'
Um entregador anda de bicicleta enquanto faz uma entrega na Avenida Paulista, em São Paulo. Ele atravessa a faixa de pedestre e tem uma mochila vermelha com a marca iFood

Crédito, Victor Moriyama/Bloomberg via Getty Images

Legenda da foto, Procurado pela reportagem, o iFood afirmou que não incentiva comportamentos de risco e que adota medidas para aumentar a segurança dos entregadores.
Article Information
    • Author, Rute Pina
    • Role, Da BBC News Brasil em São Paulo
  • Há 2 horas
  • Tempo de leitura: 9 min

A notificação do celular anuncia mais uma corrida. Na tela, o mapa mostra a distância a ser percorrida em 12 minutos para que Douglas Alexandre Santos pedale até um McDonald's na cidade de São Paulo.

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Para fugir do trânsito, ele decide subir na calçada com a bicicleta alugada. A corrente estoura, e ele quase sofre uma queda. Mas, enquanto tenta solucionar o problema, ele perde a entrega. O pedido é repassado a outro entregador.

Santos, na verdade, é um sociólogo que trabalhou como cicloentregador no iFood por seis meses entre 2023 e 2024, como parte da sua pesquisa de mestrado na Universidade de São Paulo (USP). O trabalho foi premiado como melhor dissertação de 2025 do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da instituição.

A experiência etnográfica revelou, segundo o pesquisador, um sistema de trabalho em que o algoritmo não perdoa a prudência. Pelo contrário, ele diz que os prazos curtos do aplicativo forçam os entregadores a cometerem infrações e arriscarem a própria vida no trânsito, se quiserem garantir a entrega. Leia também: Panorama Mundial: Tensões, Direitos Humanos e Segurança Global em Destaque

"É um trabalho muito perigoso. E as plataformas não têm nenhum tipo de concernimento sobre a segurança do trabalho, sobre a integridade das pessoas e dos jovens negros que exercem essas ocupações", afirma.

"Eles não usam capacetes, não usam EPI [Equipamento de Proteção Individual]. Eles não têm nenhum tipo de conscientização que parte das plataformas para preservar a própria vida e a própria integridade física."

Procurado pela reportagem, o iFood afirmou que não incentiva comportamentos de risco e que adota medidas para aumentar a segurança dos entregadores, incluindo ciclistas.

Segundo a empresa, os tempos de deslocamento definidos pelo aplicativo levam em conta dados de navegação e incluem uma margem adicional (leia mais sobre o posicionamento da empresa abaixo).

Douglas Alexandre Santos

Crédito, Douglas Alexandre Santos Mais de mundo

Como pesquisador, Santos estabeleceu um limite para a sua segurança: ele não atravessaria sinais vermelhos e não se arriscaria no trânsito perigoso. Ele preferia ir pelas calçadas quando o fluxo de carros era grande e só cruzava a rua quando o sinal estava verde para pedestres.

A postura cautelosa teve um preço: respeitar as leis de trânsito significou mais perdas de entregas. "O tempo estipulado pela plataforma para as entregas simplesmente ignora engarrafamentos, semáforos fechados ou acidentes."

"Esse é o tempo que você tem e você faz o que for necessário para cumprir. Pedalar entre os carros, subir nas calçadas, atravessar cruzamentos, atravessar sinais vermelhos, colocar a própria vida em risco o tempo todo", diz. Leia também: Tensão no Golfo: Irã afirma ataque a navio dos EUA; Washington nega

No caso da entrega perdida do McDonald's, ele relata que acessou o aplicativo para informar o imprevisto, esperando ganhar alguns minutos para trocar a bicicleta alugada em uma estação próxima.

Segundo Santos, a resposta da inteligência artificial foi automática: além da perda da entrega, a plataforma aplicou um bloqueio temporário de 15 minutos, sem possibilidade de receber novos pedidos.

"Fica evidente que o trabalhador arca com todos os custos e riscos da infraestrutura, enquanto a plataforma pune qualquer desvio de produtividade. Seja usando uma bicicleta própria ou alugada, o desgaste físico e material é totalmente transferido para o ciclista."

Com seis meses de pesquisa de campo, o pesquisador avaliou que já havia coletado informações suficientes. Mas também decidiu parar para não se arriscar mais. "A sensação de ter a vida em risco no trânsito de São Paulo era constante."

App como libertação

O trabalho por aplicativos segue em expansão no Brasil. Em 2024, eram 1,7 milhão de pessoas nessa modalidade, segundo o IBGE, o equivalente a 1,9% dos ocupados no setor privado. Em dois anos, houve um crescimento de 25,4%, com a entrada de mais 335 mil trabalhadores.

Virilidade como sobrevivência

Mochilas térmicas Rappi perto de bicicletas em São Paulo
Legenda da foto, Empresas do setor afirmam que não incentivam comportamentos de risco e que adotam medidas para aumentar a segurança dos entregadores

O que dizem as plataformas

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