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O que acontece com a mente quando a caneta emagrecedora “apaga” a fome?

O que acontece com a mente ganha peso no noticiário por causa dos desdobramentos mais recentes.

O que acontece com a mente quando a caneta emagrecedora “apaga” a fome?

O que acontece com a mente quando a caneta emagrecedora “apaga” a fome? Entenda a agonorexia, a ausência prolongada de fome causada por agonistas GLP-1, e como isso afeta a saúde mental A fome é um dos idiomas mais antigos do corpo.

Ela sinaliza a necessidade de energia, organiza a busca por alimento e participa de uma relação que também envolve prazer, memória, rotina e convivência. Por isso, seu desaparecimento prolongado durante um tratamento merece ser observado com mais cuidado do que euforia. Os medicamentos agonistas do GLP-1 ampliaram as possibilidades de cuidado da obesidade e do diabetes tipo 2.

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A redução do apetite faz parte de sua ação e pode contribuir para o controle do peso e da glicemia. Na prática clínica, porém, tenho acompanhado uma questão que não cabe apenas na balança: pessoas que atravessam longos períodos sem qualquer sinal de fome e passam a interpretar esse silêncio como prova de que o tratamento está funcionando. Esse fenômeno é conhecido como agonorexia, palavra que une a ação dos agonistas do GLP-1 à supressão excessiva do apetite.

O termo funciona como uma lente clínica, não como um novo transtorno alimentar ou diagnóstico médico. Ele ajuda a perceber quando a saciedade terapêutica dá lugar a uma desconexão persistente dos sinais do corpo. Quando não sentir fome vira uma conquista Leia também: É isso que acontece com o seu cérebro quando você ouve música

Em uma cultura que celebra o emagrecimento rápido, deixar de sentir fome pode parecer uma vitória. A experiência, no entanto, também pode produzir medo de que o apetite retorne, ansiedade diante de pequenas oscilações do peso e uma vigilância cada vez maior sobre o que se come. A fome, que é um sinal fisiológico, passa a ser lida como ameaça ou falha pessoal.

Há ainda um efeito mais silencioso: a perda de referência interna. Quando o corpo deixa de pedir alimento, comer pode se transformar em tarefa, cálculo ou obrigação. A pessoa precisa recorrer apenas ao relógio e às orientações externas como guias para decidir quando e quanto ingerir.

Essa mudança pode enfraquecer a percepção dos próprios sinais e alterar a relação com a comida, inclusive em seus aspectos afetivos e sociais. Por outro lado, a ausência persistente do apetite pode levar a uma ingestão insuficiente de proteínas e outros nutrientes. Nesse cenário, a perda de peso pode vir acompanhada de redução de massa muscular, força e disposição, com possíveis repercussões metabólicas.

O número mostrado pela balança não revela, sozinho, o que o corpo perdeu. Cansaço, fraqueza, flacidez, halitose, perda de cabelo, dificuldade para cumprir as necessidades nutricionaise desinteresse contínuo pela alimentação não deveriam ser tratados como preço inevitável do emagrecimento. São informações clínicas. Mais de saude

Também é preciso ter atenção às mudanças de humor e o receio excessivo de voltar a sentir fome, sobretudo quando começam a organizar a rotina e as escolhas da pessoa. + Preservar a escuta durante o tratamento

O acompanhamento precisa ir além dos quilos eliminados. Alimentação, composição corporal, força, funcionalidade, estado emocional e resposta individual ao medicamento fazem parte da mesma avaliação. Dependendo do caso, entram nesse cuidado o ajuste da dose pelo médico responsável, a orientação nutricional e o apoio psicológico. Leia também: Como o brasileiro percebe os principais tratamentos para emagrecer?

Ao propor um olhar para a agonorexia, procuro abrir espaço para uma pergunta que costuma ficar escondida pelo resultado rápido: como essa pessoa está emagrecendo? Os agonistas do GLP-1 são recursos importantes e não devem ser reduzidos a uma narrativa de medo. O cuidado está em preservar, durante o tratamento, a capacidade de nutrir o organismo e continuar em diálogo com ele.

Saciedade pode ser terapêutica; silêncio absoluto pede escuta. *

Maria Klien é psicóloga e criadora do projeto Psicologia da Moda, iniciativa que articula comportamento, identidade e expressão a partir da relação entre vestuário e subjetividade.

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