
Crédito, Getty Images
- Author, Camilla Veras Mota
- Role, Da BBC News Brasil em São Paulo
- Published Há 3 horas
- Tempo de leitura: 10 min
Um homem e um adolescente foram mortos a tiros dentro do carro na Estrada de Camburi, na cidade de Ubatuba, no litoral norte paulista, em 10 de dezembro do ano passado.
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Foi um dos 24 homicídios dolosos registrados no município em 2025, quase o dobro do ano anterior, 13, de acordo com as estatísticas da Secretaria de Segurança Pública.
Seria algo talvez corriqueiro em qualquer outro Estado. O confronto entre as duas facções rivais já deixou centenas de mortos pelo país na última década. É incomum, contudo, ouvir sobre ocorrências desse tipo em São Paulo, onde há anos o PCC é considerado a força hegemônica do crime.
Esse cenário, no entanto, pode estar mudando. Investigadores e pesquisadores ouvidos pela BBC News Brasil apontam que a facção carioca vem fazendo incursões em território paulista. Leia também: O recado do papa Leão 14 sobre a inteligência artificial em seu primeiro
A presença do grupo se divide entre duas áreas principais: próximo à fronteira com o Rio de Janeiro, como é o caso de Ubatuba, e na região de Piracicaba.
O movimento se explica, em uma ponta, pelo próprio processo de expansão nacional do CV.
Do outro lado, o PCC, que enriqueceu e diversificou os negócios, passou a priorizar menos o varejo de drogas, abrindo espaço para a concorrência.
Essa dinâmica se combina ainda com um terceiro fator destacado pelas fontes ouvidas pela reportagem: a entrada para o crime de uma geração de jovens que muitas vezes não se identificam com a ideologia do PCC e suas regras e códigos de conduta — e estão mais suscetíveis, por exemplo, a formar alianças com rivais da facção paulista.
A BBC News Brasil pediu entrevista à Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, mas não teve retorno. Mais de mundo
O mapa do CV em São Paulo
Fim do Promoção Agregador de pesquisas
O enriquecimento do PCC é central, de acordo com as fontes ouvidas pela reportagem, para entender o momento atual. Leia também: Classe executiva, steak de carne, fotos e sorvete: a ida de Flávio Bolsonaro
Em 30 anos, o grupo que surgiu como uma associação de detentos em um presídio em Taubaté dominou o varejo de drogas em São Paulo, se expandiu para outros Estados e passou a operar no tráfico internacional e em segmentos da economia legal.
Hoje tem presença no ramo de combustíveis e até no setor financeiro, como mostrou a Operação Carbono Oculto, e embolsa uma fatia considerável dos estimados R$ 350 bilhões que o crime organizado faturou nos últimos três anos no país, número que consta em um estudo recente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
Essa diversificação de atividades, e especialmente a entrada no tráfico internacional de drogas, tem tirado em certa medida o foco da facção do tráfico interno, afirma o promotor do Ministério Público de São Paulo (MPSP) Lincoln Gakiya, integrante do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco).
"O que os criminosos falam é que [o tráfico interno] dá mais trabalho pra eles e menos dinheiro. O risco de prisão é maior e, quando prende, eles têm que manter a família, têm que pagar advogado", ilustra Gakiya.
"No tráfico internacional, por sua vez, normalmente o risco é só apreensão da droga, o que já é um risco do negócio mesmo, já está embutido no 'lucro'. E a lucratividade é infinitamente maior, né? A gente está falando de US$ 1.000 (R$ 5 mil) o quilo [de cocaína], pra vender isso lá fora a no mínimo a 35 mil euros (R$ 205 mil), podendo chegar a US$ 150 mil (R$ 750 mil) na Ásia e na Oceania", completa o promotor.

O passado da facção carioca em São Paulo

'Jovens querem ganhar dinheiro; não estão ligando muito pro PCC'
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