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'O massacre dos idosos': como doença do filho de chefe de facção no Haiti levou à maior chacina do século nas Américas

Crédito, CLARENS SIFFROY Legenda da foto, Mulheres choram no enterro coletivo de oito vítimas de um ataque com drone

'O massacre dos idosos': como doença do filho de chefe de facção no Haiti levou à maior chacina do século nas Américas
Mulheres choram sobre um caixão durante o enterro coletivo de oito pessoas mortas em um ataque com drones em Porto Príncipe, no Haiti, em 4 de outubro de 2025. O alvo dos drones era o suposto líder de uma gangue criminosa em um bairro de Porto Príncipe e acabou matando 11 civis no dia 20 de setembro daquele ano

Crédito, CLARENS SIFFROY

Legenda da foto, Mulheres choram no enterro coletivo de oito vítimas de um ataque com drone. O alvo era um suposto chefe de quadrilha de Porto Príncipe, no Haiti, mas o ataque tirou a vida de 11 civis no dia 20 de setembro de 2025
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    • Author, Juan Martínez d’Aubuisson
    • Role, De Porto Príncipe (Haiti) para a BBC News Mundo
  • 27 abril 2026, 18:14 -03
    Atualizado Há 31 minutos
  • Tempo de leitura: 23 min

Esta reportagem faz parte do projeto "A Queda de Porto Príncipe", da produtora Dromómanos e da organização Global Initiative.

Leia no AINotícia: Panorama Internacional: Ataque em Gala e Repercussão

Importante: esta reportagem traz descrições de sequestros e assassinatos que podem ser perturbadoras para alguns leitores.

O pequeno príncipe Benson está doente.

Seu pai é o rei Micanor, autoproclamado último monarca do Caribe. Ele é o senhor dos cais de Porto Príncipe, "senhor da guerra" do bairro de Wharf Jérémie e da Viv Ansanm, a confederação de facções criminosas que controla a capital do Haiti. Leia também: A adolescente que criou dispositivo para barrar golpe 'boa noite, Cinderela'

Ele está certo de ter descoberto o motivo. Existem na área homens-lobos, uma espécie de feiticeiros anciãos. Eles têm o poder de se transfigurar em animais para atacar à noite e uma capacidade especial de fazer adoecer e matar crianças.

O rei decide, então, que, para salvar seu filho, suas hostes precisam sair à caça desses feiticeiros.

Sébastien é um homem forte e rústico de 32 anos. Em uma das casas, ele está debaixo da cama da sua mãe e observa dois homens a levarem embora.

Em outra, a avó de Evelyn diz: "Que ninguém fale nada. Escondam-se, todos." A anciã abre a porta e é raptada.

O avô de Sheila também é levado embora. Quando ela sai para averiguar sobre seu paradeiro, o ancião já está morto. Mais de mundo

Manú também procura seus pais, que não atendem o telefone. No dia seguinte, ele descobre que seu pai foi desmembrado a golpes de facão.

Os bandidos de Micanor matam ainda o tio e o primo de Dustin. Ele conta a história com dois buracos de bala no corpo.

Durante seis dias, seu pai tira a vida de 207 pessoas. A maioria tinha mais de 60 anos. Ele os corta com facão, faz os corpos desaparecerem com fogo ou os joga no fundo do mar. Leia também: Como atirador conseguiu chegar tão perto de Trump e outras perguntas sobre ataque em Washington

No final de fevereiro de 2025, três meses depois do massacre em Porto Príncipe, consigo agendar uma reunião com a advogada Rosie Auguste Ducéna, chefe da Rede Nacional de Defesa dos Direitos Humanos (RNDDH, na sigla em francês). Mas chegar até lá é complicado.

A capital haitiana é a cidade mais violenta do país mais pobre e violento do continente americano. E 90% de Porto Príncipe está, há mais de um ano, sob o controle da Viv Ansanm, a maior confederação de gangues criminosas já vista na região.

Desde , os bandidos tomaram posse de um bairro atrás do outro, queimando delegacias de polícia, estações de rádio locais, escolas, edifícios governamentais, cemitérios, estradas... Eles devastaram a cidade.

Os 10% que resistem à ofensiva são defendidos pelo pouco que resta do Estado haitiano, uma missão internacional comandada pelo Quênia, civis e pelos homens comandados por pessoas como o ex-policial Samuel Joasil, o mais conhecido de todos.

Estas brigadas montam barricadas quase todos os dias, colocam carros queimados, portões improvisados, cercas de arame farpado ou fogo em pneus para impedir a entrada dos bandidos e fazer com que eles, se conseguirem entrar, se movimentem com lentidão.

Homem com camisa azul passa empurrando um carrinho ao lado de muito lixo e uma vala, onde se vê o torso nu de uma pessoa morta em Porto Príncipe, no Haiti, em 19 de outubro de 2025
Ronalda Alcime chora depois que gangues armadas executaram eu marido em Poste Marchands (Porto Príncipe, Haiti), no dia 9 de dezembro de 2024. Quase 200 pessoas morreram no Haiti, em brutal violência supostamente orquestrada contra praticantes do vodu, condenada pelo governo como um massacre de 'crueldade insuportável'.

O rei assassino e a maldição dos anciãos

Homem observa de pé, no telhado de uma casa destruída no bairro de Solino, em Porto Príncipe (Haiti), no dia 17 de fevereiro de 2026

A morte do príncipe e as torturas do rei

Os reis e o vodu

Cadáver arde sob pneus em uma rua do centro de Porto Príncipe, no dia 9 de fevereiro de 2026, com pessoas desfocadas ao fundo
Homem caminha ao lado de casa em ruínas e escombros no bairro de Solino, em Porto Príncipe (Haiti), no dia 17 de fevereiro de 2026. Gangues atacaram a região no final de 2024.
Legenda da foto, O bairro de Solino, em Porto Príncipe, foi alvo de ataques das gangues em dezembro de 2024

A paranoia do rei e os 'homens-lobos'

Pessoas carregam mochilas e bolsas com seus pertences enquanto fogem da violência no distrito Kenskof, em Porto Príncipe (Haiti), na parte de trás de uma pick-up, no dia 29 de janeiro de 2025
O líder da Viv Ansanm Jimmy Chérizier, conhecido como Barbecue, de camisa, calça e chapéu bege, ao lado de uma anciã vestida de azul, em um bairro de Porto Príncipe, no Haiti, em 6 de julho de 2026

'Você mata os meus, eu mato os seus'

Um jovem membro de gangue de 14 anos com um fuzil AK-47 nos ombros e um medalhão dourado no pescoço patrulha as ruas do bairro Mariani, de Porto Príncipe (Haiti), em 6 de outubro de 2025, perto da Route Nationale 2, parcialmente tomada pelas gangues

O rei louco e os sonhos

Pessoas fazem busca entre o que ficou para trás no incêndio em um campo de deslocados em Porto Príncipe, no Haiti, em 21 de dezembro de 2025

O falso rei e a impunidade

Veículo armado da polícia patrulha Bas Delmas, em Porto Príncipe, no Haiti, em 12 de fevereiro de 2026

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