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Ler matéria →O lado oculto dos games AAA: por que quem faz o jogo não ganha o crédito? Por Gabriel Cavalheiro • Editado por Jones Oliveira | Em fevereiro de 2026, dados da pesquisa
State of Video Gaming 2026 indicaram que o investimento em terceirização do desenvolvimento de jogos representou 35,5% do investimento total em conteúdo dos desenvolvedores no ano passado. A estatística tem crescido desde a pandemia. Estúdios de suporte ou external development acabam trabalhando em grandes produções AAA, seja pelo custo de mão de obra mais baixo ou otimização do tempo de desenvolvimento.
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- Terceirização em games: como funciona e por que quase todo estúdio usa- Mais de 50% dos estúdios de jogos admitem usar IA generativa A terceirização ou outsourcing é uma prática muito comum na indústria de games. Peguemos o exemplo do RPG de ficção científica da CD Projekt RED, Cyberpunk 2077.
O título protagonizado por V passou por muitos problemas relacionados a crunch e à qualidade geral do produto quando chegou às prateleiras em 2020. O que muitos não sabem é que Cyberpunk 2077 não é um jogo inteiramente feito pela CD Projekt RED. Mais de sete estúdios estiveram envolvidos na produção do RPG, vindo de, ao todo, seis países diferentes.
Várias outras produções AAA também contam com o chamado outsourcing, como The Last of Us Part II, Final Fantasy VII Rebirth e até mesmo o vindouro Halo: Campaign Evolved. Apesar da prática da terceirização não ser um problema por si só, o motivo de usá-la pode se tornar uma verdadeira pedra no sapato para aqueles que desejam uma indústria mais saudável. Um exemplo disso é quando o outsourcing é utilizado apenas como corte de custo, sem nenhuma ambição criativa, focando em mercados com mão de obra barata. Leia também: Espanha x Cabo Verde: onde assistir, horário e escalações do jogo da Copa
Isso acaba virando uma grande bola de neve, em especial em estúdios de países emergentes e subdesenvolvidos, como os do Sudeste Asiático. Esses problemas vão desde o crunch, horas extras sem pagamento e prazos apertadíssimos para competir com concorrentes até condições de trabalho e custos de mão de obra precários. Essas questões são vistas em toda a indústria, desde estúdios gigantescos e aclamados globalmente até alguns casos de produtoras indie.
No entanto, a baixa visibilidade desses estúdios de terceirização contribui ainda mais para que esse tipo de caso aconteça longe dos holofotes. No documentário How Game Publishers Buy Crunch Overseas (2021), produzido pelo canal People Make Games, o apresentador e escritor Chris Bratt expõe a situação dos estúdios Lemon Sky (Malásia) e Brandoville (Indonésia). Ambas as desenvolvedoras trabalham com external development e possuem uma carteira recheada de clientes, entre eles Activision Blizzard, Bandai Namco e Capcom.
Ao conversar com desenvolvedores e ex-funcionários dessas empresas, Bratt revelou muitos problemas envolvendo questões trabalhistas e mão de obra mal remunerada. As histórias vão desde o trabalho diário até a madrugada ao impacto na saúde mental e salários que ficavam em torno de US$ 300 por mês, mesmo com as dezenas de horas de trabalho extra. Obviamente, muitos desses problemas podem acontecer dependendo da legislação trabalhista de cada país, mas isso não impede que grandes produtoras continuem procurando empresas nesse cenário.
Felizmente, no Brasil, o desenvolvimento de jogos por outsourcing tem um rumo bem diferente. Especialistas ouvidos pelo Canaltech rebatem essa percepção e apontam para uma realidade distinta. Outsourcing de jogos no Brasil
Apesar de não parecer, a indústria de jogos brasileira tem um polo de external development muito forte, em especial na região Nordeste. Estamos falando de estúdios que trabalharam em Call of Duty, Battlefield 6, Horizon Forbidden West, Returnal e até o recém-lançado Saros. Mais de tecnologia
E a lista não para por aí. Por aqui, o outsourcing funciona como uma forma dos estúdios arrecadarem fundos para produções próprias ou investirem exclusivamente no desenvolvimento para terceiros. O presidente da Abragames, Rodrigo Terra, explicou à reportagem do Canaltech como, em meio a demissões globais, o Brasil virou uma "grande fábrica" de jogos AAA.
A mão de obra barata, muito explorada em países como os já citados Malásia e Indonésia, virou uma questão de custo-benefício no Brasil. " Agora, o nosso custo-benefício é que a gente tem uma disparidade do dólar-real que favorece.
Você consegue fazer uma empresa muito competitiva, sem precisar baixar seu preço", afirmou Terra. Além da qualidade dos projetos de estúdios brasileiros, vantagens geográficas, o fuso horário, bem como a cultura do país ajudam o Brasil a se destacar em meio à concorrência do outsourcing global. O CEO do estúdio de external development pernambucano Diorama Digital, Rodrigo "Mágiko" Carneiro, explica que empresas de fora têm prazer em falar e trabalhar com estúdios brasileiros. Leia também: EUA barram modelos da Anthropic por segurança nacional
" Eles entendem que nos importamos muito", afirmou Carneiro sobre a parceria com estúdios globais, ressaltando o "calor humano" do brasileiro. A própria Diorama Digital é um excelente exemplo de como o outsourcing cresceu no Brasil.
O estúdio, localizado em Recife, em Pernambuco, foi fundado em 2015 por ex-desenvolvedores da Playlore Game Works, uma das pioneiras da terceirização no Brasil. O estúdio pernambucano já nasceu pensando no external development, o que mostra que a prática hoje não se limita apenas a "pagar boletos" para desenvolver conteúdo próprio. Hoje, a Diorama está em uma fase de crescimento agressivo e solidificação no mercado internacional, e passou a patrocinar a External Development Summit (XDS), principal evento do nicho que acontece em Vancouver, no Canadá.
Terceirização de games no Brasil ainda tem desafios Embora o mercado de games outsourcing no Brasil já tenha se afastado de problemas relacionados à mão de obra barata, ainda há muitos desafios. Estúdios como a Diorama, Kokku Games, Webcore Games e muitos outros envolvidos em external development funcionam como uma porta de entrada para inserir desenvolvedores e artistas no mercado de games.
Esses estúdios estão envolvidos em grandes produções de diferentes escopos, o que é uma excelente maneira de treinar devs brasileiros que estão começando na carreira. O grande problema é que já existe um gargalo de profissionais de nível sênior no Brasil. O COO e cofundador da Diorama Digital, Alex Rodrigues, explica que, quando um cliente AAA demanda a alocação de um time de 30 artistas de personagens ou veículos, os estúdios locais frequentemente esbarram na falta desses profissionais especializados prontos no mercado.
" O maior desafio da gente com relação a projetos não é a parte técnica", explica Rodrigues. "
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