
Crédito, Eugênio Silva/Acervo do Museu Casa Guimarães Rosa
- Author, André Bernardo
- Role, Do Rio de Janeiro para a BBC News Brasil
- Published Há 7 minutos
- Tempo de leitura: 9 min
Numa madrugada de 1941, Guimarães Rosa acordou com vontade de fumar. Como não havia cigarro em casa, o cônsul-adjunto do Brasil em Hamburgo vestiu um sobretudo por cima do pijama e saiu para comprar um maço.
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Em um café da vizinhança, ouviu uma sirene e correu para o abrigo mais próximo. Pela manhã, ao voltar para casa, o prédio onde morava havia sido reduzido a escombros. "Dizem que o cigarro mata. Mas aquele salvou minha vida", ironizou.
Ainda na Alemanha, outro susto: um ataque aéreo havia destruído, parcialmente, o consulado onde Rosa trabalhava. Como o risco de desabamento era iminente, as autoridades alemãs proibiram a entrada de qualquer funcionário da representação na parte do imóvel que continuava de pé.
Rosa, porém, burlou a segurança, entrou no imóvel e retirou do cofre uma papelada confidencial. Ao sair de lá, o restante do prédio veio abaixo. Leia também: Tiros no Senado das Filipinas: Tensão em tentativa de prender senador
"Deus me reservava uma missão. Por isso, salvou-me da morte duas vezes", segredou Rosa a Vilma, sua primogênita, que registrou a confidência do pai no livro de memórias Relembramentos (1983). "Duas vezes?", espanta-se o jornalista Leonêncio Nossa, autor do recém-lançado João Guimarães Rosa – Biografia (Nova Fronteira e Topbooks).
"Rosa escapou da morte incontáveis vezes. Uma delas foi em 1958 quando sobreviveu a um infarto, aos 50 anos".
João Guimarães Rosa – Biografia, de 736 páginas, é o primeiro livro do gênero dedicado ao autor de Grande Sertão: Veredas (1956).
Em 2007, Alaor Barbosa chegou a publicar Sinfonia de Minas Gerais – A Vida e a Literatura de Guimarães Rosa, mas o livro, por uma decisão da Justiça, foi recolhido um ano depois. A família de Rosa alegou que não tinha sido consultada e retirou a biografia de circulação. Desde então, a obra não foi mais relançada.
Leonêncio Nossa dividiu a biografia de Rosa em três partes: o médico (1908-1938), o diplomata rebelde (1938-1951) e o soldado (1951-1967). Mais de mundo
A sugestão foi dada pelo próprio biografado em uma entrevista ao jornalista austríaco Günter Lorenz em 1965: "Como médico, conheci o valor místico do sofrimento; como rebelde, o valor da consciência; como soldado, o valor da proximidade da morte". Há, entre outros anexos, uma linha do tempo e uma árvore genealógica.
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Supersticioso, o escritor adiou por quatro anos, três meses e oito dias sua entrada na Academia Brasileira de Letras. Acreditava que morreria no dia da posse. Eleito em , Rosa só vestiu o fardão da ABL no dia . Morreu três dias depois, em .
A semana que antecedeu a posse na ABL foi de despedida. Rosa pediu a Vilma que, caso a premonição se realizasse, enviasse os originais de Estas Estórias e Ave, Palavra para o editor José Olympio. Em seguida, agendou um encontro com Agnes para depois da escola da neta. "Não se esqueça de mim", pediu à pequena Maria de Lourdes, a Busi, de cinco anos. Vilma e Agnes eram filhas de Lygia Cabral Penna. Com Aracy Moebius de Carvalho, não teve filhos.
Por último, Rosa combinou um sinal com Austregésilo de Athayde, então presidente da ABL: se, durante o discurso, o imortal levasse a mão à testa, era para ele suspender imediatamente a sessão. "Você sabe, talvez seja bobagem, mas o mau pressentimento não me abandona", comentou. "Rosa escolheu três acadêmicos para entrar com ele no salão principal. Nenhum tinha afinidade literária com o imortal. O critério de seleção? Os três eram médicos", relata Nossa.
No dia da posse, já vestido com o fardão, Rosa relutou em sair de casa. "Não vou", desabafou ao amigo Geraldo França de Lima. "Vou morrer". No trajeto até a ABL, rezava o terço que a caçula deu de presente. Quando o carro chegou ao número 203 da Presidente Wilson, no Centro do Rio, Rosa, aflito, pediu ao motorista, Ubirajara, para dar voltas no quarteirão. "Para você, não tenho segredos", voltou a dizer para França de Lima. "Não chego a dezembro".

Crédito, Acervo da Família
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