O comprimido que pode revolucionar tratamento do câncer de pâncreas e foi ovacionado em congresso médico Fármaco daraxonrasibe dobrou a sobrevida de pacientes com metástase. Medicamento busca inibir ação de proteínas que tornam tumor agressivo Chega ao fim nesta terça-feira (2) a reunião anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO, na sigla em inglês), realizada em Chicago, e a notícia mais promissora do evento veio justamente no enfrentamento a um dos tumores mais desafiadores da atualidade:
o câncer de pâncreas . No evento, pesquisadores anunciaram os resultados de um estudo de fase 3 envolvendo uma pílula de uso diário que pode revolucionar o tratamento desse tipo de câncer.
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Publicado concomitantemente no New England Journal of Medicine, o ensaio clínico acompanhou 500 pessoas para avaliar os efeitos da droga daraxonrasibe, com resultados impressionantes: o medicamento quase dobrou a sobrevida de pacientes com um quadro avançado da doença. O câncer de pâncreas é considerado um dos mais perigosos devido à dificuldade de detectá-lo cedo o bastante para realizar um tratamento efetivo.
Em geral, quando os sintomas aparecem, o tumor já avançou muito, com uma expectativa de vida bastante limitada. A possibilidade de um medicamento de uso fácil que ajude a melhorar os prognósticos em quadros já avançados animou tanto os pesquisadores que os achados foram ovacionados em pé por quase um minuto pelos médicos presentes no congresso, durante apresentação realizada domingo (31). Veja o que já se sabe sobre a droga e as perspectivas até ela se tornar viável para uso mais amplo. Leia também: Panorama da Saúde: Ebola, Parto Normal e Regulamentação Médica
Resultados do remédio O daraxonrasibe foi testado em pacientes com adenocarcinoma ductal pancreático (conhecido pela sigla em inglês PDAC) metastático que já haviam sido submetidos a tratamento anteriormente. O PDAC responde por 95% dos diagnósticos de câncer de pâncreas nos Estados Unidos e, quando está em metástase, tem uma sobrevida de apenas 3% após cinco anos do diagnóstico.
O medicamento em teste tem como foco inibir mutações em uma família de genes conhecidas como RAS, associadas à agressividade do tumor, com destaque para a mais comum delas, a KRAS. Encontrar uma maneira de bloquear a ação dessa mutação é chave para mudar os rumos do tratamento, pois ela está presente em mais de nove a cada dez pacientes com câncer pancreático. No estudo, intitulado RASolute 302, os 500 participantes – de países da América do Norte, Ásia e Europa – foram divididos em dois grupos: um recebeu o tratamento padrão, com quimioterapia, e o outro ganhou o remédio experimental.
A comparação mostrou ganhos significativos naqueles que utilizaram o daraxonrasibe após um acompanhamento de 8 meses e meio: - A sobrevida global dos pacientes com mutação RAS foi de 6,7 meses para pacientes que fizeram quimioterapia, elevando-se para 13,2 meses no caso daqueles que receberam o daraxonrasibe; - Em relação à sobrevida livre de progressão da doença (quando o câncer segue presente, mas não cresce nem se espalha), o grupo tratado apenas com quimioterapia registrou 3,6 meses nessa condição; já os tratados com daraxonrasibe também duplicaram esse período, chegando a 7,2 meses.
- Pacientes com a pílula de uso diário tiveram menos efeitos colaterais severos do que aqueles tratados com quimioterapia (43,6% contra 57,5%), o que também levou a uma menor taxa de abandono do tratamento: 11,2% precisaram interromper a quimioterapia, contra apenas 1,2% do grupo que usou daraxonrasibe. O que o medicamento traz de novo Mais de saude
Em geral, medicamentos que buscam enfrentar as mutações RAS, como o daraxonrasibe, atuam para bloquear a ação dessas proteínas, que fazem o tumor crescer de forma agressiva, proliferando rapidamente as células cancerígenas. Chamados “inibidores de RAS”, eles têm uma grande limitação: só são direcionados a uma versão específica da proteína, o que os torna efetivos apenas em alguns casos. O novo medicamento tem uma ação mais ampla: ele é definido como um inibidor “multisseletivo”, capaz de bloquear as proteínas KRAS em diferentes cenários.
Seu sucesso não depende de haver uma variante KRAS, nem de qual variante está envolvida no avanço do tumor. Quanto falta até se tornar uma realidade Apesar dos resultados promissores, o daraxonrasibe ainda não está aprovado para uso amplo em nenhum lugar do mundo. Leia também: Brasil terá 781 mil casos de câncer por ano, mas exercícios podem freá-los
Por enquanto, a droga só é disponibilizada em contextos de estudos científicos. Mas o trabalho recém-apresentado, de fase 3, abre caminho para que os fabricantes solicitem a aprovação à FDA (a “Anvisa norte-americana”) para que ele seja empregado comercialmente nos Estados Unidos. Por enquanto, o estudo rendeu subsídios para que o fármaco seja empregado como um tratamento de “segunda linha”, depois que o paciente já foi submetido às terapias existentes hoje.
Mas também há ensaios clínicos em andamento buscando avaliar sua viabilidade como um remédio de primeira linha contra o câncer de pâncreas. Ou seja, assim que o diagnóstico é feito. Uma vez liberado nos Estados Unidos, o daraxonrasibe também deve ser avaliado por autoridades sanitárias de outros países, inclusive no Brasil.
Uma futura incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS), porém, dependeria ainda de uma avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec). Ela leva em conta não só a eficácia do remédio, mas também a chamada custo-efetividade, analisando se os investimentos públicos para adquirir o fármaco seriam compensados pelo que se economizaria em outros tratamentos para esses mesmos pacientes. Ainda não há uma linha do tempo definida para os próximos passos rumo à aprovação do daraxonrasibe, mas a expectativa é que sua liberação para o mercado norte-americano só ocorra a partir de 2027.
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