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'Nunca cogitamos não lançar': o relato de cientista que ajudou a fabricar

'Nunca cogitamos não lançar': o relato de cientista que ajudou a fabricar a bomba atômica que devastou Nagasaki Crédito, Getty Images Legenda da foto, Após visitar as

'Nunca cogitamos não lançar': o relato de cientista que ajudou a fabricar a
'Nunca cogitamos não lançar': o relato de cientista que ajudou a fabricar a bomba atômica que devastou Nagasaki
Fotografia em preto e branco do físico Philip Morrison com uma expressão enfática ao falar, com as mãos abertas, separadas e erguidas na altura do peito. Ele é jovem, loiro, está sentado e veste terno cinza, camisa e gravata listrada. Ao fundo, vê-se uma das pessoas presentes na audiência, fazendo anotações.

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Após visitar as cidades japonesas devastadas, o físico nuclear Philip Morrison prestou depoimento em uma audiência especial e descreveu a morte e a destruição causadas pela bomba
Article Information
    • Author, Fiona Macdonald
    • Role, BBC Culture
  • Published Há 44 minutos
  • Tempo de leitura: 7 min

Trinta anos depois de participar do bombardeio atômico de Nagasaki, em, o físico americano Philip Morrison falou abertamente à BBC sobre as decisões tomadas nos dias e semanas que antecederam a explosão nuclear sem precedentes.

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Morrison teve um papel fundamental no Projeto Manhattan, o programa ultrassecreto dos Aliados para desenvolver as primeiras armas nucleares, trabalhando no laboratório de Los Alamos. O laboratório era dirigido por seu antigo professor, J. Robert Oppenheimer.

Presente no teste Trinity, da primeira bomba atômica, em, Morrison transportou o núcleo de plutônio no colo, dentro de um carro, até o Novo México. Depois, viajou para a pequena ilha de Tinian, ao sul de Saipan, um território dos Estados Unidos no Oceano Pacífico, para ajudar a montar a bomba de plutônio "Fat Man", usada em Nagasaki. Ele supervisionou o carregamento da bomba em um avião B-29 em 9 de agosto, apenas três dias depois do bombardeio de Hiroshima.

Foi em Tinian que as forças americanas construíram o que Morrison descreveu como "o maior aeroporto do mundo". "Uma grande elevação de coral foi parcialmente nivelada para preencher uma planície irregular e construir seis pistas de pouso, cada uma com quase três quilômetros de extensão", afirmou em um depoimento a um comitê do Senado dos Estados Unidos em dezembro de 1945. Leia também: Augusto Cury na Globo: o que disse o candidato à Presidência na entrevista

A escala da destruição

Vista da base aérea de North Field, em Tinian, nas Ilhas Marianas do Norte, de onde decolaram os aviões que bombardearam Hiroshima e Nagasaki

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, As forças americanas construíram um enorme aeroporto em Tinian, um território dos Estados Unidos no Oceano Pacífico, de onde partiram os ataques contra Hiroshima e Nagasaki

Morrison também revelou, em seu depoimento, a dimensão dos preparativos para os bombardeios das cidades japonesas. "No porto, todos os dias chegavam navios-tanque carregados com milhares de toneladas de gasolina para os aviões. Pelas grandes pistas, corriam enormes aviões. A cada 15 segundos, um [avião] B-29 decolava. Isso seguiu assim por uma hora e meia. Mil aeronaves B-29, repetidamente, incendiavam muitos quilômetros quadrados de uma cidade em um único ataque."

Em contraste, relatou ele, "a bomba atômica era outra coisa".

"Não havia navios carregados com bombas incendiárias. Em vez de vários especialistas em armamentos e depósitos de bombas, havia cerca de 25 pessoas de Los Alamos, algumas cabanas Quonset [estruturas pré-fabricadas de aço] transformadas em laboratórios de testes e um prédio cercado por barricadas. O ataque decolou depois da meia-noite. O campo estava deserto. e um avião percorreu a pista rugindo, decolou e tomou o rumo das cidades inimigas", disse.

A bomba, vista quase de frente, ovalada e larga, branca, com uma linha circular vermelha próxima à ponta, e três homens trabalhando nela

Crédito, Getty Images Mais de mundo

Legenda da foto, A bomba atômica "Fat Man", que mais tarde seria lançada em Nagasaki, no Japão, em 1945

Embora as estimativas variem, acredita-se que 40 mil pessoas tenham morrido na explosão inicial em Nagasaki, enquanto mais de 100 mil mortes foram diretamente atribuídas ao bombardeio nos cinco anos seguintes. Em Hiroshima, pelo menos 80 mil pessoas morreram instantaneamente, e o número acumulado de mortos chegou a aproximadamente 140 mil em decorrência de queimaduras graves, ferimentos e doença aguda causada pela radiação. Leia também: O que faz Cuba depender do exterior para alimentar sua população

Mais tarde, Morrison avaliou a devastação catastrófica nas duas cidades japonesas como parte da equipe científica oficial responsável por avaliar os danos, e se lembrou de um momento específico em Hiroshima. "Um funcionário japonês estava de pé nos escombros e nos disse: 'Tudo isso causado por uma única bomba; é insuportável'", contou. "Um avião, com uma única bomba, havia destruído muitos quilômetros quadrados de uma cidade, destruindo-os de forma ainda mais completa e com ainda menos possibilidade de resistência ou fuga do que o ataque de mil aviões."

Ainda assim, Morrison esperava que a bomba atômica não precisasse ser usada em combate. Ele liderou um grupo de jovens físicos de Los Alamos que defendia uma demonstração pública da bomba antes de qualquer uso contra o Japão. Morrison, que tinha 30 anos quando supervisionou a montagem da "Fat Man" em Tinian, queria "convidar uma delegação internacional para o deserto", contou à BBC, em 1975, ao jornalista Melvyn Bragg. "Mas, nas circunstâncias de uma guerra, isso era uma ilusão."

Um impulso imparável

À esquerda, uma densa coluna de fumaça, coroada por uma nuvem em forma de cogumelo, eleva-se a cerca de 18 mil metros de altura sobre o porto japonês de Nagasaki após a explosão da bomba atômica “Fat Man”. À dir., uma estátua situada sob um arco da Catedral Católica de Urakami parece contemplar a devastação na direção da Escola da Missão Chinzei, ao longe, após o bombardeio atômico.

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, O momento da explosão visto do céu (à esquerda), e a devastação, vista a partir de um arco da Catedral Católica de Urakami

O físico descreveu a sensação de que aquele era um impulso impossível de deter. Mesmo quando ficou claro que os nazistas seriam derrotados, ele diz, "a guerra ainda estava acontecendo. Estávamos avançando rumo a uma batalha gigantesca no Pacífico. Teria sido impossível parar."

Na visão de Morrison, o único fator que poderia ter mudado isso era o presidente americano Franklin D. Roosevelt, que morreu em abril de 1945. "A única chance de modificar fortemente a posição americana, eu diria, teria sido a sobrevivência de Roosevelt [.], que morreu em meio ao desenvolvimento da bomba, antes de sabermos se elas funcionariam, e antes de ser decidido como usá-las", afirmou Morrison.

O fim do mundo

Grupo de cientistas americanos que eram chefes de equipes responsáveis pela montagem, pesquisa e inspeção das bombas atômicas em uma base nas Ilhas Marianas. Da esquerda para a direita: Norman Ramse, Roger S. Warner, Edward B. Doll, Harold Agnew, Luis W. Alvarez, Lawrence Johnston, Philip Morrison, Robert Serber e Bernard Waldman.
Legenda da foto, Vários cientistas americanos viajaram para as Ilhas Marianas para supervisionar a montagem das bombas atômicas. Da direita para a esquerda, Philip Morrison é o terceiro
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