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Ler matéria →Há biografias que cabem em momentos históricos, fatos e datas de nascimento. E há obras que pedem algo de outra natureza: sopro, delírio, movimento. Ao celebrar os 80 anos de Alceu Valença, o musical "Anunciação", em cartaz no Teatro Carlos Gomes, no Rio, escolhe o caminho mais bonito e desafiador.
Em vez de entregar a velha fórmula de contar a vida do artista do começo ao fim, o espetáculo prefere transformar a obra do compositor pernambucano em uma grande festa cênica, onde a memória e o afeto falam mais alto do que qualquer linha do tempo. Esqueça a ideia de ver um ator no palco tentando imitar o jeito, a voz ou os trejeitos de Alceu. A dramaturgia de Luiza Loroza e Duda Rios preferiu multiplicar o poeta: a alma do homenageado é dividida entre os oito atores do elenco.
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Todos são Alceu e nenhum é só ele. É uma escolha que bebe direto na fonte da muganga— essa brincadeira irreverente, ritmada e meio debochada tão própria do Carnaval de Pernambuco. As músicas não entram ali só para fazer uma pausa no texto; elas são a própria conversa.
Letra e fala se misturam de um jeito tão fluido que o Agreste, Olinda, o Recife e a noite carioca parecem dividir o mesmo pedaço de chão. Essa atmosfera cheia de vida não nasceu do nada. O ponto de partida visual do projeto vem de um tesouro: um acervo de mais de 40 mil fotos tiradas por Carlos da Silva Assunção Filho (Cafi), o olhar por trás de capas antológicas de discos da nossa música.
Foi desse olhar afetuoso que o diretor Miguel Colker— filho de Cafi e da coreógrafa Deborah Colker— tirou a inspiração para o espetáculo. No palco, sob a direção de Duda Maia, a cena vira um organismo vivo. O cenário de Anderson Dias não tenta copiar cenários reais; prefere sugerir quintais do interior, varais ao vento e as ladeiras de Olinda. Leia também: esquema de fraudes no inss: o detalhe que mais repercutiu
A luz de Renato Machado passeia do sol estalado do Sertão às místicas penumbras da noite, enquanto os figurinos de Karen Brusttolin juntam o artesanato do Agreste com o espírito meio psicodélico do rock dos anos 1970. A grande beleza do espetáculo está justamente na recusa de ser um show convencional. Os próprios atores seguram os instrumentos e fazem a música acontecer no meio da cena.
Sob o comando de Ricco Viana e com os arranjos vocais de Beto Lemos, quase 35 canções ganham uma vida nova, cheia de vozes se entrelaçando, sem perder aquela batida característica que junta o frevo, o maracatu, o baião e a guitarra elétrica. A música que dá nome ao espetáculo, "Anunciação", vira o grande fio condutor dessa experiência. Aquela melodia que todo mundo guarda na memória ganha a força de um canto coletivo, um abraço que arrepia a plateia.
Clássicos que a gente cansou de cantar no rádio— como "Tropicana", "La Belle de Jour" e "Coração Bobo"— deixam de ser apenas sucessos para virar a própria história acontecendo no palco. No fim das contas, a força da montagem tá na entrega desse grupo de artistas— Duda Rios, Luiza Loroza, Maria Pérola, Juzé, Jef Lyrio, Natascha Falcão, Beto Lemos e Rafael Lorga. Sem cair na armadilha do sotaque caricato ou do clichê regional, eles cantam, dançam e tocam juntos com uma cumplicidade bonita de ver.
" Anunciação" mostra que homenagear um poeta de 80 anos não é olhar para trás com saudosismo, mas sim trazer a poesia dele para o presente e deixar que ela incendeie o palco de novo. Três perguntas para…
… Duda Rios Como vocês trabalharam a transição entre o texto falado e a matéria poética das canções para que a narrativa não parecesse uma colagem de falas e músicas? Mais de entretenimento
Tivemos que encontrar motes para as cenas e os textos. Não queríamos uma narrativa cartesiana, mas também não queríamos uma ausência narrativa. A música do Alceu é muito poética e imagética, então escrever textos puramente poéticos e soltos poderia, de fato, saturar o espectador.
Eu queria dar continuidade à produção de uma dramaturgia em rede, com múltiplas perspectivas sobre o tema ou o homenageado, como fiz em "Jacksons" e "Azira’i". Nesse caso, cada texto precisa de um mote, de uma situação ou perspectiva inusitada, que surpreenda o espectador. Aos poucos, elas foram surgindo: o que a Lua diria sobre as palavras de um poeta aluado, um diálogo entre o Doidinho e o Sucesso, a trajetória da cor azul até chegar nos olhos da "Belle de Jour", a história de amor entre Recife e Olinda, uma história de amor entre duas pessoas comuns, entre outros.
Esses motes dão fundamento e sentido ao texto. Tudo era muito conversado entre eu (Duda Rios, autor), Luiza Loroza (co-autora), e Duda Maia (diretora). Nessas reuniões de roteiro, que aconteciam durante o período de ensaios, íamos entendendo como as ideias de texto, encenação e música iam ganhando sentido. Leia também: Thiago Lacerda volta ao noticiário após novo desdobramento
A linguagem corporal de espetáculos com forte acento de teatro físico exige muito do elenco. De que forma o movimento influenciou a maneira como vocês dizem o texto? A palavra passa a acontecer mais no corpo do que na mente.
Ela vira sensação corporal. O movimento trabalhado por Duda Maia– que além de diretora, faz a preparação de corpo– é uma conscientização sobre a nossa estrutura óssea, muscular e articular. Colocar essa atenção no corpo traz presença.
E quando a palavra entra ela passa a acontecer nesse corpo presente. Ela fica concreta, aterrada, corporificada, enraizada. Quando falo a palavra "coração
" eu não imagino um coração, mas eu sinto a palavra coração no meu corpo. É tudo muito físico.
Acho que isso traz uma qualidade diferente à palavra falada do que a que encontramos no dia a dia, onde tudo é muito mental. Sinto que a palavra fica mais viva. Lembro que nos ensaios
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