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Na Rio Fashion Week, algumas criações foram além da coincidência

Joana Contino Autora do livro 'A Indústria da Moda no Capitalismo Tardio: Design, Ideologia e Relações de Trabalho' (Rio Books, 2025) Carolina Casarin Professora de

Na Rio Fashion Week, algumas criações foram além da coincidência
Joana Contino

Autora do livro 'A Indústria da Moda no Capitalismo Tardio: Design, Ideologia e Relações de Trabalho' (Rio Books, 2025)

Carolina Casarin

Professora de história da moda, figurinista, autora do livro "O guarda-roupa modernista: o casal Tarsila e Oswald e a moda" (Companhia das Letras, 2022)

Leia no AINotícia: Panorama do Entretenimento: Moda, Games e o Show de Shakira

Em meio à celebração por conta do acordo comercial firmado entre Mercosul e União Europeia, negociação que durou mais de duas décadas para ser concluída, causou estranhamento a visão de diretores de importantes órgãos do setor têxtil brasileiro, que afirmam, em matéria publicada na Folha, na última quinta-feira (29), não existir design no Brasil.

Certas colocações dos executivos demonstram desconhecimento sobre as bases históricas que forjaram a moda europeia. Fica a impressão de que esses diretores-executivos enxergam o Brasil somente pela lente do agronegócio, da ponta inicial da cadeia da moda, como se o país fosse apenas um produtor de commodity. Essa perspectiva, evidentemente, é perigosa e redutora.

Como se sabe, a cadeia produtiva da moda é extensa, composta por muitos elos. Começa na produção de fibras —naturais, artificiais e sintéticas, como o algodão, a viscose e o poliéster—, passa pela produção e beneficiamento de tecidos, pela confecção de roupas e acessórios e termina no varejo. Leia também: Panorama do Entretenimento: Moda, Games e o Show de Shakira

Isso sem falar nos investimentos simbólicos e culturais que também participam da cadeia de produção da moda, como desfiles, editoriais em revistas, exposições em museus, a criação de acervos de indumentária e moda. E vale lembrar que o Brasil tem a última cadeia têxtil completa do Ocidente.

Certamente, não é fácil entrar no mercado europeu. A questão é que isso não se relaciona com falta de qualidade ou design do produto brasileiro, mas, sim, com fortes políticas protecionistas e impositivas relações de poder econômico e simbólico.

Vestidos de cores fortes, rosa, verde, amarelo, laranja, em estande com paredes verdes e o nome farm rio
Espaço Farm na loja de departamentos Le Bon Marché, em Paris - Divulgação/Divulgação

Mesmo assim, como atesta matéria publicada também na Folha, em abril de 2024, há importantes marcas brasileiras quebrando essa barreira. Osklen, Farm, Água de Coco, Lenny Niemeyer são algumas delas. A Farm, inclusive, tem um espaço de venda na loja de departamentos Le Bon Marché, uma das mais antigas de Paris, criada em 1852. Curiosamente, não são marcas que falam a mesma língua dos europeus. É justamente o oposto, são marcas que vendem "tropicalismo" e brasilidade.

E mesmo designers e estilistas brasileiros que criam uma moda mais estruturada e iconoclasta, como Alexandre Herchcovitch, obtiveram sucesso com o público internacional, com lojas em Nova York e em Tóquio. Mais de entretenimento

Logo, a partir da abertura que o acordo Mercosul-UE pode representar, o segredo para conquistar mercados europeus não parece estar na adequação ou na cópia, mas sim no investimento em identidade e soft power.

Todo estudante de design de moda no Brasil, seja de curso técnico ou graduação, sabe que, desde seus primórdios, a moda europeia se fez a partir de trocas culturais e comerciais. Lá atrás, no século 12, no contexto das Cruzadas, guerras de expansão territorial e religiosa que os cristãos empreenderam contra os mouros, os europeus levaram para casa joias, tecidos luxuosos que não circulavam na Europa, roupas e, o mais importante, uma técnica de corte de tecido inovadora.

Foi a partir dessa técnica de corte oriental, base da alfaiataria, que foi possível desenvolver os princípios mais elementares disso que hoje chamamos de moda europeia —as roupas costuradas, modeladas e ajustadas ao corpos; a distinção entre os gêneros expressa na indumentária; os trajes curtos e bifurcados para os homens. Leia também: Entretenimento em Destaque: Shakira, Boninho, Arte e Livros

Alguns séculos depois, com a expansão do comércio ultramarino e a invasão de territórios em África, na Ásia, na Oceania, na América, foram incorporadas à moda europeia matérias-primas, técnicas, estéticas consideradas "exóticas" aos olhos dos colonizadores, mas que estão na origem do vestuário de luxo de reis e rainhas, e que desembocou na alta-costura, criada na França em meados do século 19. Aqui, estamos falando de sedas, plumas, tingimentos, bordados, e também joias, acessórios, modelagens etc.

Ao longo do século 20, como demonstra a professora de história da moda da Universidade Estadual de Santa Catarina, Mara Rúbia Sant’Anna, em seu livro "Elegância, Beleza e Poder", a França investiu pesado em estratégias de poder que lhe garantiam —e garantem até hoje— a posição de "capital da elegância, cujo estilo de vida ditava a maneira de ser da elite".

Insistir na ideia de que só os europeus têm design e marcas fortes, além de ignorar a moda brasileira, é uma clara expressão da síndrome de vira-lata. E, mais ainda, reafirmar essa imagem de risco Brasil, diante do contexto de rupturas e rearranjos da ordem internacional, é tão demodê.

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