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Na Feira do Livro, Luiz Mott celebra representação da diversidade sexual

Reinaldo José Lopes São Carlos (SP) A história da primeira mulher trans do Brasil colonial é uma saga que abrange três continentes, o confronto entre a Inquisição e as

Na Feira do Livro, Luiz Mott celebra representação da diversidade sexual na
Reinaldo José Lopes
São Carlos (SP)

A história da primeira mulher trans do Brasil colonial é uma saga que abrange três continentes, o confronto entre a Inquisição e as religiões tradicionais da África e a trajetória trágica do reino do Congo, monarquia africana que se tornou oficialmente católica, mas nem por isso escapou da sanha escravista dos portugueses.

A documentação que permite reconstruir uma pequena parte da biografia de Xica Manicongo, como a personagem histórica ficou conhecida recentemente, está registrada em português do século 16 e italiano do século 17.

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Desenho em preto e branco mostra homem africano em pé, segurando um tridente na mão direita. Ele veste túnica curta, faixa na cintura e turbante na cabeça. Ao fundo, há uma formação rochosa ou colina. Texto manuscrito em português antigo aparece acima e abaixo da figura.
Sacerdotisa quimbanda em aquarela do século 17, numa ilustração contida na nova biografia de Xica Manicongo - Divulgação

Mas o antropólogo e ativista Luiz Mott, de 80 anos, decidiu inserir outro ingrediente nessa salada linguística. É o pajubá, dialeto com influências do idioma iorubá empregado por travestis, mulheres trans e gays na mesma Salvador em que a "traviarca", ou matriarca trans, viveu há mais de 400 anos.

"Normalmente, o meu jeito de escrever é mais tradicional. Gosto de latinismos e expressões antigas —a inteligência artificial vive me corrigindo por isso. Mas, como quero que a história atinja a população-alvo, as transsexuais e travestis, optei por ser jocoso, irreverente, e por dialogar com o leitor de forma menos convencional", diz Mott. "Xica Manicongo, se fosse nossa contemporânea, certamente seria craque em pajubá."

Em seu novo livro, "Xica Manicongo, Primeira Transexual do Brasil" —que apresenta neste sábado numa mesa da Feira do Livro, em São Paulo— Mott, fundador do Grupo Gay da Bahia, afirma que o mais provável é que a personagem originalmente fosse uma quimbanda, categoria de sacerdotisas responsáveis pelo sacrifício de animais nos cultos de regiões nos atuais Congo e Angola. Leia também: Morre Patrick Godfrey, ator de 'Para Sempre Cinderela' e 'Os Miseráveis'

Relatos de missionários europeus indicam que as quimbandas eram biologicamente do sexo masculino, mas, desde o começo da infância, eram criadas para adotar modos, vestimentas e comportamento femininos.

"Xica" é uma designação surgida a partir do ativismo moderno, esclarece Mott. Na Bahia dos anos 1590, o nome que impuseram a ela seus escravizadores foi Francisco Manicongo —essa segunda parte só aparece na documentação dela, embora também chamem a personagem de "Francisco de Congo". Entre todos os escravizados brasileiros, não há outro "Manicongo".

Esse dado pode ser bastante significativo, já que essa era a designação dada aos reis congoleses, cristianizados por sua ligação diplomática com Portugal desde 1485 —o primeiro monarca adotou o nome luso de João 1º ao ser batizado.

No entanto, nada disso foi suficiente para impedir que expedições escravistas carregassem súditos dos monarcas africanos para os navios negreiros. "Temos a carta de um dos reis reclamando que estavam levando até parentes dele para o Brasil e para Portugal", afirma Mott.

"A hipótese que eu defendo é que provavelmente Xica Manicongo era um membro relativamente distante da família real, que vivia em alguma das aldeias na periferia do reino, foi apanhada e vendida", resume. Mais de entretenimento

Por outro lado, também não se pode descartar que ela tenha inventado a ligação com os monarcas africanos e sua posição de prestígio como quimbanda como forma de autopromoção entre os demais escravizados da Bahia.

O certo é que as breves menções à figura, todas encontradas em documentos da Inquisição portuguesa, mencionam o que hoje chamaríamos de uma "performance de gênero" feminina, assim como o uso de roupas que remetem à indumentária tradicional das quimbandas, descrita e até retratada na documentação da época colonial.

Esses documentos foram redigidos em 1591, durante a primeira visitação do Santo Ofício à Bahia. O termo se refere ao fato de que não havia um tribunal da Inquisição fixo na então colônia portuguesa —na verdade, "ibérica", já que nessa época Portugal estava unido à Espanha numa só monarquia. Leia também: Claudio Tozzi, que fez da arte pop arma contra a ditadura, tem a obra revista

Os "visitadores" enviados de Portugal vinham periodicamente ao Brasil para investigar a presença de desvios na doutrina católica e transgressões morais consideradas graves, como a sodomia, termo que englobava tanto a homossexualidade quanto outras práticas sexuais desaprovadas pela Igreja.

O antropólogo e historiador Luiz Mott, autor do livro 'Xica Manicongo, Primeira Transexual do Brasil' - Divulgação

Nessas visitações, os moradores eram instados tanto a confessar suas próprias violações quanto a denunciar práticas consideradas ilícitas de outras pessoas. Foi assim que o nome de Francisco de Congo ou Manicongo foi parar nos registros do visitador Heitor Furtado de Mendonça.

Matias Moreira, português que morava em Salvador, contou ao inquisidor que dois africanos escravizados tinham tentado roubar o colégio dos jesuítas e foram presos. Como Moreira entendia o idioma dos africanos, por ter vivido nas áreas invadidas pelos portugueses do outro lado do Atlântico, ouviu os escravizados dizendo que um tinha levado o outro a "cometer o pecado nefando" —ter relações homossexuais.

O português acrescentou então que "Francisco de Congo", escravizado por um sapateiro, também teria esse hábito e agia assim de forma mais ou menos aberta na pequena cidade, então somando, no centro urbano e regiões vizinhas, poucos milhares de habitantes.

Capa do livro 'Xica Manicongo, Primeira Transexual do Brasil', de Luiz Mott - Divulgação

Segundo Moreira, "é costume entre os negros gentios trazerem um pano cingido com as pontas por diante, que lhe fica fazendo uma abertura", mais ou menos como uma toalha enrolada no corpo, compara Mott.

Xica Manicongo, Primeira Transexual do Brasil

  • Preço R$ 92 (240 págs.)
  • Autoria Luiz Mott
  • Editora Cosac

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