Fibras alimentares ganha destaque após novo desdobramento em as fibras
Ler matéria →Muito além dos ovários: entenda como a Somp impacta a saúde da mulher Cientistas e pacientes se unem para renomear a síndrome dos ovários policísticos, condição que afeta milhões de mulheres de forma sistêmica A médica brasiliense Maju Ferreira tinha 14 anos quando chegou ao consultório de um ginecologista com uma extensa lista de queixas.
A jovem nunca sabia quando a sua menstruação viria. O rosto vivia dolorido devido à acne. Pelos grossos cresciam pelo corpo.
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E ela ainda estava ganhando peso. Tudo isso afetava a autoestima da futura profissional de saúde. Juana, sua mãe, havia agendado aquela consulta porque desconfiava que a garota tinha o mesmo problema de saúde com o qual havia sido diagnosticada na juventude: a síndrome dos ovários policísticos, também conhecida pela sigla SOP.
E intuição de mãe raras vezes falha. Elas fazem parte de uma multidão de 170 milhões de mulheres que convivem com a condição pelo mundo— um contingente maior do que a população da Rússia. “
Hoje, como médica, atendo muitas mulheres com esse mesmo diagnóstico e, ao mesmo tempo, muitas manifestações diferentes— há inclusive aquelas que nem apresentam os cistos nos ovários”, conta Ferreira, agora com 27 anos. O distúrbio, de fato, vai muito além das glândulas femininas. Envolve uma desordem hormonal complexa que, no longo prazo, está relacionada a maior risco de infertilidade, diabetes e até problemas cardiovasculares. Leia também: Bronquiolite ganha destaque após novo desdobramento em bronquiolite: com vacina
As repercussões para o organismo todo são tantas que, no fim das contas, os tais cistos nos ovários são meros coadjuvantes. Por isso, a comunidade científica decidiu rebatizar a condição: a SOP virou Somp, síndrome ovariana metabólica poliendócrina. E que nome!
A decisão não é meramente técnica e foi publicada no prestigiado periódico The Lancet por um consórcio de 56 organizações acadêmicas e clínicas de todo o globo. A nova designação é fruto de 14 anos de discussões entre especialistas e pacientes sobre como melhor representar a síndrome que afeta uma em cada oito mulheres em idade reprodutiva. Ao todo, 14,3 mil pacientes foram ouvidas sobre suas experiências e puderam dar pitaco na denominação.
A escolha de um nome que agregasse características e sintomas que vão além da possível forma policística dos ovários foi um desejo de 86% das pacientes com Somp e 71% dos profissionais de saúde envolvidos. Termos como “endócrino”, “poliendócrino”, “metabólico”, “cardiometabólico”, “ovulatório”, “ovariano” e “reprodutivo” foram os mais mencionados nas pesquisas com o grupo. E quem bateu o martelo foram especialistas da Universidade Monash, na Austrália.
“ O que sabemos agora é que, na verdade, não há aumento de cistos anormais no ovário, e as diversas características da doença muitas vezes passavam despercebidas”, justifica Helena Teede, endocrinologista que capitaneou a mudança. Ao renomear a condição, os médicos esperam aumentar a conscientização sobre as implicações da síndrome para as mulheres e ampliar investimentos em pesquisa, diagnóstico e tratamento.
Estima-se que 70% das pacientes ainda não sabem que carregam o problema— e, portanto, não têm acesso a orientações e formas de controle. E o duro é que elas correm um risco que nem imaginam. O que muda para as pacientes Mais de saude
Uma iniciativa global de grande magnitude. É como descreve a endocrinologista Poli Mara Spritzer, uma das coordenadoras da Sociedade Brasileira de Endocrinologia (Sbem), responsável por representar o país nas discussões do consórcio que enterrou o termo ovários policísticos. “
Apesar de ser uma doença principalmente tratada pelos ginecologistas, a Somp é também o distúrbio endócrino e metabólico mais comum entre mulheres em idade reprodutiva e pode estar associada à resistência à insulina, a alterações no colesterol e triglicérides e à obesidade”, explica a especialista. Para entender como tudo isso está relacionado a um dos principais problemas da saúde feminina, é preciso limpar a barra dos “cistos”. Sim, entre aspas.
Afinal, essa não é a melhor forma de defini-los. “ Os tais cistos vistos nos exames de imagem Leia também: Fibras alimentares ganha destaque após novo desdobramento em as fibras
são, na verdade, folículos que foram estimulados mas não amadureceram e não liberaram óvulos”, esclarece a ginecologista Mariana Granado, do Hospital Municipal M’Boi Mirim, em São Paulo, gerido pelo Einstein Hospital Israelita. Diagnóstico da Somp Quando um ovário com esse aspecto aparece nos exames de imagem, diz-se que se trata de uma morfologia policística— e esse é um dos três critérios de Rotterdam, os sinais que são levados em consideração para fechar o diagnóstico da síndrome.
O acúmulo de folículos também pode ser acusado pela dosagem no sangue do hormônio antimülleriano, que aumenta com a presença dessas formações. Os outros dois critérios são a irregularidade menstrual, que deve ser acompanhada pela mulher e relatada ao médico, e o aumento de hormônios masculinos (ou hiperandrogenismo), que é flagrado pela testagem de hormônios sexuais, além de sintomas como o excesso de pelo e oleosidade na pele e queda de cabelo. Se a mulher apresentar pelo menos dois desses três parâmetros, ela é diagnosticada com Somp.
Ou seja, não é necessário ter os tais ovários policísticos para manifestar o distúrbio— o que justifica, mais uma vez, a troca de nome. O que causa a Somp? Mas, afinal, se não são os cistos, o que causa esse desequilíbrio sistêmico em um oitavo da população feminina?
A síndrome é uma condição multifatorial, que pode ser influenciada por fatores genéticos e processos inflamatórios adquiridos ao longo da vida. Um dos principais motores é a resistência à insulina. “Nessa condição, células de tecidos como os músculos e o fígado respondem de forma deficiente à ação da insulina, obrigando o pâncreas a produzir uma quantidade cada vez maior desse hormônio para compensar a falta de eficiência”, explica o ginecologista José Maria Soares Júnior, presidente da Comissão Nacional Especializada em Ginecologia Endócrina da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).
O excesso de insulina, por sua vez, desregula o trabalho dos ovários e de outras glândulas. “ Além disso, inibe a produção da globulina ligadora de hormônios sexuais no fígado”, nota o médico.

