O jornalista Raimundo Rodrigues Pereira, que marcou a resistência da imprensa à ditadura militar, morreu neste sábado (2), no Rio de Janeiro, aos 85 anos.
Nascido em Exu, cidade a 431 km do Recife, em , Pereira tinha formação de físico e acabou sendo levado ao jornalismo enquanto cursava engenharia no ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica), entre 1960 e 1964, onde escreveu para um jornal estudantil chamado O Suplemento.
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Em 1967, trabalhou como editor na Folha da Tarde, vespertino que a empresa Folha da Manhã, que edita a Folha, possuía na época. A convite do jornalista Mino Carta, ele integrou a equipe que fundou a revista Veja, da editora Abril, em 1968.
A ABI (Associação Brasileira de Imprensa) afirmou que Pereira foi "um dos nomes mais importantes da história da imprensa brasileira e figura central na resistência democrática durante a ditadura militar". Não foi divulgada a causa da morte.
Em uma publicação nas redes sociais, o presidente Lula (PT) afirmou que "o Brasil perde um de seus maiores jornalistas". Leia também: Acordo Mercosul-UE: Brasil deve ampliar exportações em até US$ 1 bilhão em um ano, estima agência
"Mesmo tendo sido perseguido e preso pela ditadura militar, nunca deixou de lutar pela democracia e pela liberdade de imprensa. E, o que é mais importante: nunca se calou", disse o presidente, destacando que o jornal Movimento, criado por Pereira, foi "o primeiro a mostrar, em nível nacional, o que significava a luta sindical e por liberdade que empreendemos no ABC no final dos anos 70".
Os textos do jornal estudantil em que Pereira escrevia repercutiram negativamente em 1964, ano do golpe militar, antes de sua formatura.
Naquele ano, ele foi alvo de perseguição política, acabou sendo expulso do ITA e foi preso pelo Dops (Departamento de Ordem Política e Social) paulista. Ficou dois meses na Base Aérea de Santos, no Guarujá, litoral paulista.
Após a soltura, sem emprego nem diploma, Pereira deu aulas de matemática e um de seus alunos o convidou para escrever em revistas técnicas que o levaram ao jornalismo profissional.
Após a passagem pela Folha da Tarde em 1967 e a participação na equipe que fundou a Veja no ano seguinte, Pereira coordenou a equipe da revista que produziu uma das primeiras reportagens do país sobre a tortura praticada pela ditadura militar, valendo-se de uma frase de um assessor de Emílio Médici que disse que o então presidente não admitia tais práticas. Mais de politica
A equipe relatou uma série de casos, a pretexto de informar o governo sobre ocorrências do tipo, e publicou uma edição com a palavra "Torturas" na capa. O episódio é detalhado no livro Contracorrente, biografia de Pereira produzida em 2013 por estudantes da Faculdade Cásper Líbero.
Pereira atuou também em outros veículos de destaque, como a revista Realidade, até integrar os jornais Opinião e Movimento, publicações de resistência à ditadura no fim dos anos 1970.
O Movimento circulou entre 1975 e 1981, sob censura prévia e dificuldades financeiras. O Memorial da Resistência, museu estatal sediado no antigo Dops paulista, descreve a publicação como "um dos mais importantes jornais de resistência do país". Leia também: Panorama Político: Derrota no STF, Repercussões e Novas Demandas
Colaboraram para o jornal nomes como o do jornalista Audálio Dantas, o cantor Chico Buarque e o então sociólogo Fernando Henrique Cardoso, que viria a ser presidente da República. A publicação foi a última a deixar de sofrer censura prévia do regime, que também proibiu a citação de nomes como o de Vladmir Herzog, jornalista assassinado pela ditadura.
O Movimento sobreviveu em decorrência do financiamento recebido de vários grupos da frente ampla que se opunha ao regime militar. Após a abertura, e o surgimento de correntes partidárias diferentes, o jornal ficou sem recursos. Embora, na redemocratização, Pereira tenha se aproximado do PC do B e do PT, ele nunca foi filiado a nenhum partido político.
O jornalista manteve-se ativo com o retorno à democracia trabalhando tanto em reportagens sobre ciência quanto política. Nos anos 2000, ele criou a revista Retrato do Brasil, voltada a investigações ligadas a temas sociais. Seus últimos trabalhos de fôlego foram investigações sobre o banqueiro Daniel Dantas e o escândalo do mensalão.
Em 2013, com a carreira consolidada, Pereira recebeu o prêmio especial Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, quando foi apresentado como "o maior nome da imprensa alternativa brasileira".
Os pais de Pereira eram comerciantes que se mudaram para São Paulo na década de 1960. Nos últimos anos, ele vivia no Rio de Janeiro. O jornalista foi casado com a socióloga Sizue Imanishi, que morreu em 2020, e deixa quatro filhas.
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