
Crédito, Domínio Público
- Author, André Vargas
- Role, De São Paulo para a BBC News Brasil
- Published 2 junho 2026
- Tempo de leitura: 9 min
Dono de um hotel na vila de Encantado (RS), em maio de 1902 João Ferri se recuperava de ferimentos sofridos em um ataque que lhe custara um naco da orelha direita e cortes pelo corpo. Ele havia perdido dois amigos e outros três estavam feridos, um deles gravemente.
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Ainda com dores, recebeu um embrulho com um "presente" e um bilhete: "Para substituir a que perdeste". A mutilação vinha de um homem abatido a tiros de fuzil pela Brigada Militar no dia anterior, quase no final da Guerra de Pinheirinho, uma represália que virou massacre de pelo menos 28 pessoas no Vale do Alto Taquari, no sopé da Serra Gaúcha.
A brincadeira macabra se tornou lendária na comunidade e ilustra um confronto alimentado por medo, preconceito religioso e impiedosa reação policial. Apesar de descendentes dos envolvidos de ambos os lados ainda viverem na região, o episódio caiu no esquecimento após 124 anos, citado quase só em trabalhos historiográficos.
Grande parte do registro nasceu do livro Os Monges de Pinheirinho, de 1975, do historiador local Gino Ferri (1922-2016). A partir de meados dos anos 1960 ele entrevistou alguns dos envelhecidos participantes. Quase todos entre os vencedores, como o autor lamentaria décadas depois da publicação. "Naquela época eu sabia muito pouco sobre o outro lado", comentou Ferri no início dos anos 2000. Leia também: Corpus Christi é feriado? Entenda origem da data e como funciona no Brasil
Tudo começou com a presença incômoda e provocativa de miseráveis que abriram roçados e ergueram palhoças em uma terra sem dono às margens do rio Taquari, hoje dentro dos limites de Roca Sales. O grupo contava com uns 60 desgarrados, incluídas mulheres e crianças.
Eles praticavam rezas e curandeirismo — recorrente em comunidades sem acesso mínimo a médicos e remédios. No ápice, reuniram duas centenas de pessoas das redondezas, muitas delas agricultores, além de viajantes de passagem.
Monge furioso
O líder era um certo João Francisco Maria de Jesus, um agressivo curandeiro andarilho que pregava uma guerra santa e profetizava um futuro menos miserável aos que o cercavam. Ele falava até na ressurreição dos que defenderiam sua visão messiânica do cristianismo.
Como em outros episódios da época, foi morto à espera de um apoio que nunca chegou. Acabou em uma cova rasa à beira de uma estrada perto de onde hoje fica um campo de futebol na cidade de Muçum.
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Por capricho vingativo da polícia, foi jogado de costas e com os tornozelos e pés de fora. Para que seus restos expostos não fossem alvo de animais carniceiros, foram cobertos com paus e pedras por sete seguidores aprisionados que serviram de coveiros. "Assim não há de voltar nunca mais", diziam os curiosos.
De origem desconhecida e sem registros fotográficos confirmados, ele teria razões para odiar autoridades em geral e colonos em particular. Nove anos antes havia escapado de um linchamento em um acampamento em Colônia Bastos (hoje parte de Marques de Souza), no Rio Forqueta. Cinco foram mortos na noite de Ano Novo de 1893. Leia também: Lula critica Rubio; Trump nomeia aliado inexperiente na inteligência
Na fuga de canoa, foi conduzido pelo mateiro João Enéias, que vivia em uma cabana à beira do Taquari, a 60 quilômetros de distância. Atento, ali por 1900 Enéias ajudaria o monge a se instalar em Pinheirinho, onde este também passaria a ser chamado de São João Maria — um nome genérico, adotado por personagens que apareceram em diferentes épocas, na Revolta dos Muckers (1873-1874), em Canudos (1896-1897), na Guerra do Contestado (1912-1916) e no Massacre dos Barbudos, em Soledade (1938).
Os observadores mais atentos relataram que Enéias ajudava em milagres de pescador. Chamado de apóstolo, pegava bagres e pintados de antemão e os amarrava em uma linhada oculta submersa.
De acordo com o que Gino Ferri ouviu de testemunhas, depois o pregador reunia os fiéis e anunciava que Deus mandaria uma farta pescaria. Daí puxava a linha colocada. O amigo mateiro também fingiria transes para ser curado com uma reza ou benzedura. Era um jeito fácil de arrecadar donativos, já que a vida era precária.
Já apelidados de monges, os discípulos de vez quando cometiam pequenos furtos de ferramentas e mantimentos. Eles eram caboclos e ex-escravizados que antes de serem expulsos das terras vendidas aos colonos se dedicavam à colheita de erva-mate nas bordas do Sertão dos Bugres, como era chamada a Serra Gaúcha.

Crédito, Arquivo familiar

O confronto

Reação e perseguição



Lei de Terras e preconceitos
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