outer banks 5 temporada
Ler matéria →Há uma ironia deliciosa em “Sideways— Entre Umas e Outras”. Miles Raymond atravessa a Califórnia professando seu amor quase religioso pelo Pinot Noir, trata o Merlot como uma pequena ofensa à civilização e guarda para uma ocasião especial um Château Cheval Blanc 1961. A ocasião não chega— ou chega da pior maneira.
Sozinho, num restaurante ordinário, ele abre uma das garrafas mais cobiçadas do mundo e bebe o vinho num copo de papel. Para completar a anedota que Alexander Payne deixa maturando em silêncio, o Cheval Blanc tem justamente Merlot em seu corte. Miles entende muito de vinho; de Miles, nem tanto.
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Talvez por isso cinema e vinho tenham se entendido tão bem. Uma garrafa parece um objeto relativamente simples até alguém resolver contar o que existe dentro dela. Pode haver ali uma família, uma fortuna, décadas de espera, uma guerra, a lembrança de quem morreu, o orgulho de quem ficou e uma boa porção de acaso.
A vinha não respeita pressa, títulos, dinheiro ou vaidades. É preciso plantar, esperar, colher e, depois de tudo isso, ainda confiar um pouco na sorte. Nos dez filmes abaixo, o vinho não aparece apenas para enfeitar uma mesa e dar algum refinamento a personagens que ficariam melhor com uma cerveja.
Ele move heranças, destrói relações, salva uma cidade dos nazistas, desafia a aristocracia francesa, põe pais contra filhos e ajuda um homem perdido a descobrir onde, afinal, poderia estar seu lugar no mundo. E a cada história corresponde uma garrafa: não necessariamente a mais cara, nem a mais famosa, mas aquela capaz de fazer a tela avançar um pouco mais para dentro da taça. Leia também: Olimpia x Vasco volta ao centro do debate na temporada
Sideways— Entre Umas e Outras (2004) Miles Raymond entende de vinho com o mesmo fervor com que não entende de felicidade. Professor, escritor fracassado e recém-divorciado, ele leva Jack, o melhor amigo, para uma viagem pelos vinhedos de Santa Barbara antes do casamento do sujeito. A ideia seria passar alguns dias entre campos, restaurantes e degustações, uma despedida de solteiro civilizada, até que Jack decide que não há razão alguma para deixar a civilidade atrapalhar sua última semana de liberdade.
Alexander Payne encontra nessa dupla a matéria para uma das grandes comédias amargas deste século. Thomas Haden Church faz de Jack um animal alegre, irresponsável e praticamente impermeável às consequências, enquanto Paul Giamatti vai fechando Miles dentro de si mesmo. Ele discorre sobre solo, safra, aromas, taninos e variedades com admirável precisão porque é muito mais difícil discorrer sobre a própria vida.
O Pinot Noir torna-se quase uma autobiografia líquida desse homem delicado, temperamental e convencido de que o mundo não lhe ofereceu as condições apropriadas para amadurecer. “Sideways” escapou da tela e transformou aquela região vinícola da Califórnia em parte do imaginário de uma geração de espectadores. Sanford Sta.
Rita Hills Pinot Noir A Sanford pertence ao próprio itinerário de “Sideways”, e um Pinot Noir de Sta. Rita Hills coloca na taça a paisagem sentimental do filme.
Não é apenas a variedade favorita de Miles; é a uva de que ele se vale para explicar, sem perceber, quem é. Poucas combinações entre filme e vinho poderiam ser mais inevitáveis. Por que assistir Alexander Payne transforma conhecimento sobre vinho em instrumento para falar de solidão, fracasso, amizade e envelhecimento. Mais de esporte
Paul Giamatti faz de Miles uma figura simultaneamente irritante e comovente, e é justamente nessa contradição que o filme envelhece tão bem. O Julgamento de Paris— Bottle Shock (2008) Durante muito tempo, admitir que um grande vinho pudesse nascer longe da França soaria em certos círculos como defender que alguém reproduzisse a Capela Sistina com tinta de parede.
A arrogância tinha suas razões históricas, mas, como toda arrogância, só precisava encontrar a ocasião apropriada para levar um tombo. Ela surgiu em Paris, em 1976, quando Steven Spurrier organizou uma degustação às cegas colocando vinhos franceses diante de alguns rótulos da Califórnia. A expectativa era a de uma vitória protocolar dos donos da casa.
Os jurados, entretanto, não sabiam o que estavam bebendo, e um Chardonnay do Château Montelena acabou colocado acima dos grandes brancos franceses, enquanto o Stag’s Leap Wine Cellars Cabernet Sauvignon venceu entre os tintos. “Bottle Shock” toma as liberdades que Hollywood costuma tomar quando encontra uma história real boa demais para permanecer presa às atas, mas conserva aquilo que interessa: gente apostando patrimônio, reputação e futuro numa garrafa. Leia também: Atuações da Ponte volta ao centro do debate na temporada

Alan Rickman oferece sua fleuma a Spurrier, enquanto Bill Pullman e Chris Pine vivem Jim e Bo Barrett, pai e filho tentando fazer o Château Montelena sobreviver. O antagonista não é uma pessoa. É a velha certeza de que origem equivaleria a excelência.
Château Montelena Chardonnay A escolha estava praticamente pronta antes de o filme existir. Foi o Chardonnay do Château Montelena que venceu a prova dos brancos no Julgamento de Paris.
Não há necessidade de procurar uma garrafa de 1973; uma safra atual já estabelece a ligação direta entre o que está na tela e aquilo que chega à taça. Por que assistir O filme transforma um acontecimento decisivo da história moderna do vinho numa disputa saborosa de orgulho e reconhecimento.
Alan Rickman é um espetáculo à parte, e a história real por trás da ficção continua boa o bastante para dispensar qualquer enfeite. De Volta à Borgonha (2017) Pais deixam dinheiro, imóveis, joias, dívidas e traumas.
Às vezes deixam vinhedos, o que pode reunir tudo isso numa única escritura. Jean saiu da Borgonha dez anos antes, atravessou o mundo e terminou na Austrália, onde também passou a fazer vinho. Quando fica sabendo que o pai está morrendo, volta para casa e reencontra Juliette e Jérémie, os irmãos que permaneceram ligados à propriedade.

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