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Gabriela Caseff
São Paulo
Ser confundido com um rico foi a maneira que o antropólogo Michel Alcoforado, 39, encontrou para pesquisar o comportamento dos milionários e bilionários brasileiros. Ao se infiltrar durante 15 anos nas camadas mais endinheiradas da sociedade, com ajuda de amigos bem relacionados, ele buscou entender como esse 0,01% dos brasileiros reproduz desigualdades.
Demorou um tempo até que Alcoforado, que pesquisa os impactos do consumo no país, fosse aceito nos "petits comités", nas mesas de pôquer, nos iates e sofás de linho dos quarteirões mais caros da América Latina.
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Para se aproximar do seu público-alvo, diz, precisou perder 40 quilos, refinar o paladar, assinar revistas de comportamento, decorar sobrenomes, inventar uma secretária pessoal e, claro, comprar "mocassins marrons, calça bege, óculos de tartaruga e blazer azul-marinho com botões dourados de Miami".
Essas "coisas de rico", como ele define, ajudaram a burlar os esforços dos ricaços em brecar sua entrada nas altas rodas —e batizaram seu livro que acabou de ser publicado, com a primeira tiragem esgotada antes mesmo do lançamento, segundo a editora Todavia, que vendeu 9.000 exemplares e está imprimindo outros 7.000.
"O tema da desigualdade é muito pesquisado por sociólogos, economistas e estatísticos. No livro busco entender como ela se reproduz nas micropolíticas cotidianas", diz ele, que no ano passado lançou "De Tédio Ninguém Morre- Pistas para Entender os Nossos Tempos" na editora Telha. Leia também: Príncipe Harry e Meghan vão voltar: o detalhe que mais repercutiu
Com o autor inserido nos diálogos, o leitor se vê de camarote num passeio em Genebra com uma herdeira indecisa sobre um perfume de 15 mil euros (spoiler: ela compra). Em outra passagem, senta à mesa com um bilionário que, prestes a fechar negócio importante na Faria Lima, suja a roupa de molho de tomate e lascas de parmesão.
"A assistente ligou imediatamente para a Ermenegildo Zegna, loja italiana classuda, dois pisos acima do restaurante, no shopping chique da cidade. O gerente atendeu e convocou seus alfaiates. [.] Em duas horas, tudo pronto. Se não fossem os mais de R$ 90 mil deixados no caixa da loja, alguns diriam ter sido um milagre."
"Exemplo do fascínio dos brasileiros pelos ricos", diz Alcoforado, que ganhou o apelido de "antropólogo de luxo" durante o estudo e fundou um hub de empresas de pesquisa de mercado e consultoria de tendências. "Eu digo que sou de classe média, como qualquer rico diria."
O antropólogo defende que há um traço comum a boa parte desses endinheirados: eles não se consideram ricos. Sempre haverá alguém com mais dinheiro, mais pompa, mais patrimônio, mais próximo do topo da pirâmide.
"Ninguém se acha rico no Brasil. Os ricos são sempre os outros", afirma ele, acrescentando que os personagens do livro não se deram conta de que eram objetos de estudo, ainda que fossem alertados de sua investigação. Mais de entretenimento
Outra tese do autor é de que existe uma "operação da distinção à brasileira" para criar fronteiras invisíveis e demarcar posições sociais. "Ter dinheiro é importante, mas jamais será suficiente. É uma dura batalha simbólica das elites para manejar fronteiras e convencerem a si mesmas, e aos outros, de quem são."
Os primeiros são os nascidos em berço de ouro, com sobrenomes famosos e séculos de investimento na distinção, muito associados ao quiet luxury. "Um luxo capaz de sussurrar que é para poucos, em vez de gritar o dinheiro que se tem, em tons pastel ou cores escuras, e sem logos visíveis", detalha.
Já os emergentes buscam lugar ao sol com exibição farta de suas aquisições. "Eu estou sempre preparada, gente. Eu sei como funciona", diz a personagem Claudette, prestes a embarcar para Miami. Leia também: Após morte de Carlos Cesare, por onde andam os outros 'Pablos' do 'Qual é
"Chego ali, coloco minha bolsa Louis Vuitton no balcão, tiro minha carteira Michael Kors, assino com minha caneta Montblanc. Minha capa de celular é da Chanel, minha niqueira, da Gucci, meu sapato é Louboutin, meu casaquinho é Tom Ford, meus óculos são Prada. Pode até ter uma coisinha falsa, mas tudo falso não dá."
Para horror dos bem-nascidos, os novos-ricos não precisam frequentar clubes chiques para saber compor o próximo look. Basta chafurdar nas redes sociais, que democratizaram o conhecimento das coisas de rico. "Toda vez que uma blogueira de luxo exibe uma bolsa que só seria descoberta em Paris, morre uma bolsa no armário de um rico", brinca Alcoforado.
A risca no chão aos "de fora" fica evidente em um encontro narrado com o empresário Roberto Macri no bairro paulistano Cidade Jardim. Depois de aguardar no meio-fio da calçada, o antropólogo foi convidado a entrar na mansão.
Esperou o "patrão" tomar seu banho e assistiu, sem ser convidado, ao café da manhã do grã-fino, com frutas, sucos, iogurtes e até champanheira, em um "silêncio que gritava o abismo hierárquico que nos separava".
Sem saber em qual sofá sentar ou como puxar conversa, Alcoforado ficou quieto. "Roberto sacou minha estrangeirice, dominou o encontro e me impôs no lugar de dominado."
Coisa de Rico - A Vida dos Endinheirados Brasileiros
- Autoria Michel Alcoforado
- Editora Todavia
- Preço R$ 89,90 (240 págs.); R$ 59,90 (ebook)
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