Alexandre de Moraes suspende 'penduricalhos' e exige devolução de verbas
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Danilo Thomaz
Jornalista com mestrado em ciência política pela Universidade Federal Fluminense
[RESUMO] Formado por grupo expulso do PT, o PCO é o menor partido de esquerda no país, mas faz barulho no mundo virtual com suas opiniões contracorrentes, muitas vezes mais próximas da direita. O partido é favorável ao armamento da população, ataca STF e TSE, rechaça políticas identitárias, acusa parcela da esquerda de apoiar censura e contesta decisão que tornou Bolsonaro inelegível. No ano passado, PCO declarou apoio crítico a Lula e segue com forte oposição a membros do governo bem-vistos nos meios progressistas, como Marina Silva e Sonia Guajajara.
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No fim de maio, o Trot Cast, podcast da esquerda trotskista, causou celeuma ao anunciar que o presidente do PCO, Rui Costa Pimenta, participaria de um de seus programas. Integrantes de outras organizações trotskistas pediram o cancelamento da entrevista e ameaçaram uma ação de boicote contra o podcast. A entrevista, contudo, foi mantida.
"Ou todos eles são trotskistas e nós não somos, ou eles não são tão trotskistas assim", disse Rui depois, ao final de seu comentário semanal Análise Política da Terça, que vai ao ar às 16h, na Rádio Causa Operária, ao vivo, pelo YouTube.
Reações desse tipo são comuns quando o assunto é o PCO (Partido da Causa Operária). Reinaldo Azevedo, colunista da Folha e apresentador do programa O É da Coisa, na BandNews FM, afirmou, após um caso de agressão entre militantes do partido e membros do PSDB, que o PCO é "irrelevante, sem importância, minoritário, extremista, com uma pauta que se assemelha muito a do Bolsonaro —por exemplo, no caso das armas". Leia também: Governo do DF busca empresas para substituir BRB na gestão de pontos turísticos
De fato, o PCO é partidário do armamento da população, o que entende ser "um direito democrático". De acordo com Rui, isso parte do prognóstico do partido de que, em determinado momento, haverá uma crise do sistema e o povo precisará estar armado para tomar o poder. Para o líder da sigla, o bolsonarismo não é realmente favorável às armas. "Duvido que Bolsonaro defendesse que a população da favela andasse armada."
No programa Greg News, misto de humorismo e jornalismo na HBO, Gregório Duvivier disse que o PCO "é um partido tão de esquerda que toda esquerda odeia, porque faz a esquerda se sentir de direita". E que defende figuras como Josef Stálin, o que o partido refuta —até porque Stálin mandou matar Leon Trótski, mentor intelectual do PCO.
"Eu considero o stalinismo uma abominação. Foi uma ditadura brutal, não defendemos isso", afirma Rui. "Nós reconhecemos a necessidade, no meio da revolução, de que haja uma ditadura dos trabalhadores, mas não que esse seja o modo de realização do socialismo. A nossa expectativa é que as pessoas tenham maior liberdade que no capitalismo."
Nos últimos dias, foi a vez de o PCO ir ao embate virtual contra Duvivier, que contestou em seu programa posições do ministro do STF Cristiano Zanin, recém-empossado na corte. "Uma vez mais, o ‘humorista’ Gregório Duvivier criticou o presidente por indicar um homem branco, criticando também Zanin por suas acertadas decisões e criticando nominalmente os que estão cotados para assumir a próxima vaga —não por questões técnicas, mas por serem homens e brancos", afirmou o PCO em rede social.
Duvivier tem sido uma das vozes mais ativas na defesa pública de que uma mulher negra ocupe a próxima vaga no STF, no lugar de Rosa Weber. O PCO considera a campanha uma pressão indevida, que usa o "identitarismo para atacar o governo Lula e chantagear o presidente". Mais de politica
Um exemplo mais ruidoso da posição contracorrente do PCO ocorreu quando o TSE tornou o ex-presidente Jair Bolsonaro inelegível, em 30 de junho. Enquanto a esquerda brasileira ficou em festa, o partido se opôs à decisão, que chamou de "política". A ação teve como foco a reunião em julho do ano passado com embaixadores estrangeiros no Palácio da Alvorada, quando Bolsonaro fez afirmações falsas e distorcidas sobre o processo eleitoral.
"O que estão usando para tornar Bolsonaro inelegível é ridículo. Ele chamou uma reunião, fez um discurso dizendo que as urnas são vulneráveis e vai ser afastado por isso. Não é o jeito de fazer a coisa. Se você conseguisse pegar o Bolsonaro tentando dar um golpe de Estado e botar na cadeia é uma coisa, o pessoal podia aceitar, mas aqui não. Ele vai ser tornado inelegível por nada", declarou Rui na época.
Apoiadores do ex-presidente, como o deputado Mário Frias (PL-SP), espalharam pelas redes sociais memes com a foto de Rui e a legenda "Nem comunista concorda". Bolsonaro chegou a ler a declaração em um pronunciamento: "Rui Costa, que integra a esquerda brasileira, disse: ‘é claro que o julgamento de Bolsonaro é totalmente político'". Leia também: Mensagens, viagens e proximidade com lobistas são principais elementos
Para Rui, a inelegibilidade de Bolsonaro e o uso do Judiciário para tirá-lo do jogo político-eleitoral pode ter efeito semelhante ao que ocorre nos Estados Unidos, onde processos criminais tiveram o resultado imprevisto de fortalecer Trump. "Isso pode arruinar o PT e fortalecer o bolsonarismo. A repressão só vai jogar água no moinho da direita", afirma Rui à Folha.
Rui e o PCO enxergam a dinâmica política brasileira pelo viés clássico marxista —ou seja, em linhas gerais, há aqueles que defendem a classe trabalhadora e o desenvolvimento soberano do país, e aqueles que não.
No primeiro grupo, na visão do partido, encontram-se, além dele próprio, determinados setores do PT, o MST, a CUT, os demais partidos de esquerda, apesar das discordâncias com eles, e os trabalhadores em geral. No segundo, estariam os bolsonaristas, os identitários e todo o restante do espectro político.
A defesa das liberdades individuais e as críticas frequentes ao STF e ao movimento identitário têm quebrado barreiras e aproximado o PCO de diferentes grupos além da esquerda. Rui já esteve no podcast Flow, no Pânico, da Jovem Pan, e até em um canal católico, em que um dos apresentadores disse não aguentar mais "concordar com o PCO".
Tamanho barulho não encontra correspondência nos números da legenda divulgados pelo TSE. O PCO contava, até julho deste ano, com 4.775 filiados em todo o Brasil. Trata-se do menor partido de esquerda do país, perdendo até mesmo para a UP (6.711), registrado em 2019, e o PSTU (15.133). O número equivale a aproximadamente 40% do PCB (12.324) e 1% do PCdoB (397.736).
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