jogo da copa hoje
Ler matéria →A política brasileira não se cansa de produzir cenas inexplicáveis— e as situações criadas por esses acontecimentos servem mais para aumentar a confusão que tem tomado conta da cabeça do eleitor. Um dos exemplos mais recentes desse tipo de situação foi o rebuliço causado na pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL) à presidência da República pelo vídeo divulgado na última quarta-feira (24) pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL). Em plena Copa do Mundo, num momento em que a evolução da Seleção Brasileira atrai a atenção do país inteiro e poderia funcionar como uma espécie de biombo capaz de dar às candidaturas a privacidade necessária para se reorganizar para uma campanha que deve ficar cada vez mais acirrada depois do Mundial, a mulher do ex-presidente da República entrou em cena e conseguiu deixar a situação mais emaranhada do que estava antes.
E o prejuízo causado pela decisão de tornar ainda mais públicas suas divergências com Flávio e com o partido ainda está longe de ser contabilizado em sua totalidade. O vídeo marcou, na prática, o rompimento de Michelle com os filhos de seu marido. Com críticas ácidas a Flávio, a seus irmãos e ao PL do Ceará, o material é rumoroso demais para ser recebido como uma página virada.
Leia no AINotícia: Futebol Brasileiro: Panorama da intertemporada agitada dos clubes
Ou, como querem as lideranças da direita, para ser varrido para debaixo do tapete e ser mantido lá— como se não tocar no assunto fizesse com que o problema desaparecesse. Como, aliás, muita gente tentou fazer na semana passada. A deputada Júlia Zanatta, do PL de Santa Catarina, por exemplo, afirmou em entrevista que mantém o apoio à candidatura de Flávio, mas não rompe politicamente com Michelle— o que, para bom observador, parece algo impossível.
O certo, porém, é que as revelações feitas por Michelle expõem uma situação embaraçosa. Elas foram fortes o bastante para imobilizar o PL e impedir que a oposição faturasse com a exposição das evidências de envolvimento até o pescoço do senador Jaques Wagner (PT) no escândalo do Banco Master. Embora não tenham sido suficientes para eliminar as possibilidades de vitória da direita nas eleições de outubro— como muita gente gostaria que tivesse acontecido— os ecos das palavras de Michelle devem ser ouvidos com atenção.
Eles indicam que os obstáculos que a direita terá de superar caso tenha mesmo a intenção de derrotar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PL)— o que parece cada vez mais difícil a cada trapalhada— são maiores do que pareciam algumas semanas atrás. A rigor, poucas atitudes na política brasileira— que tem sido palco de uma série de atitudes incompreensíveis— parecem mais desprovidas de lógica do que a decisão de Michelle de lavar a roupa suja em público. De uma hora para outra, ela resolveu reavivar as brasas de suas desavenças com os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro e, ao fazer isso, tomou um caminho que torna difícil qualquer reaproximação. Leia também: marcio correia de oliveira: o impacto imediato para a temporada
Bem produzido demais para não ter contado com ajuda externa, o vídeo expõe desavenças antigas, mas tem como pano de fundo um episódio recente. Trata-se da decisão do PL à de apoiar a candidatura de Ciro Gomes, do PSDB, ao governo do Ceará. Ciro lidera as pesquisas de intenção de voto para as eleições que podem levá-lo ao Palácio da Abolição, depois de três governos sucessivos do PT.
Questão pertinente A questão é: será que a atitude de Michelle foi tão fora de propósito assim?
É preciso refletir sobre isso. O estopim da briga foi a insistência do diretório estadual do PL no Ceará em negar à vereadora em Fortaleza, Priscila Costa (PL), aliada de Michelle, uma das vagas a que o partido tem direito na disputa ao Senado nas próximas eleições. Ao invés de lançar dois candidatos próprios, o partido lançaria apenas um e daria apoio a algum nome do PSDB.
Abriria mão de uma das vagas em troca de espaço num eventual governo de Ciro Gomes. Para o Senado, o PL teria apenas a candidatura do deputado estadual Alcides Fernandes (PL), que é pastor da Assembleia de Deus e pai do deputado federal André Fernandes (PL). O jovem político, que despontou como um dos principais líderes do PL no Nordeste depois de quase derrotar o PT na eleição para a prefeitura no ano retrasado, é o presidente do diretório estadual do partido no Ceará e principal articulador da decisão pragmática de apoiar Ciro em nome da possibilidade de derrotar o PT.
Michelle fechou os olhos para as conveniências eleitorais da legenda e insistiu na candidatura de sua correligionária. E, ao fazer isso, espalhou sujeira para todo lado. A ex-primeira-dama deixou claro que, em relação aos filhos de seu marido, seu coração é, como diz a canção de Chico Buarque, “um pote até aqui de mágoas”. Mais de esporte

E que a gota d’água que o fez transbordar foi a insistência do PL em negar apoio a Priscila Costa— que foi seu braço direito na presidência do PL Mulher— cargo ao qual renunciou na semana passada, depois da divulgação do vídeo. A esposa do ex-presidente, além de expor divergências familiares incômodas ao dizer que Flávio a teria “apunhalado pelas costas” e que os filhos de Jair Bolsonaro sempre a maltrataram, ainda reforçou a rejeição que o eleitorado feminino sempre demonstrou em relação à família Bolsonaro. “Se a aliança com Ciro é tão boa, por que o André não disponibiliza a vaga de seu pai?
”, quis saber Michelle, levantando uma questão que, sem sombra de dúvida, é mais do que pertinente. ''Quase um jumento''
O incômodo de Michelle não é recente. Em abril passado, a ex-primeira-dama já havia tentado implodir a aliança entre o PL e o PSDB no Ceará ao recordar as críticas pesadíssimas que Ciro sempre fez a Jair Bolsonaro. Só que a reação da ex-primeira-dama no primeiro momento parece não ter sido suficiente para encerrar o assunto— e o conchavo entre o grupo de André Fernandes e Ciro Gomes prosseguiu como se nada tivesse acontecido. Leia também: mato grosso do sul: o impacto imediato para a temporada
Ao voltar ao assunto, na semana passada, Michelle fez mais do que fechar uma porta. Ela parece ter queimado as pontes que poderiam levá-la de volta ao ambiente partidário. No vídeo, a ex-primeira-dama reproduz cenas de uma entrevista concedida por Ciro em 2019 (no primeiro ano do governo Bolsonaro, a quem havia enfrentado como candidato a presidente da República no ano anterior).
“Ele é quase um burro, quase um jumento. Um cara imbecil mesmo”, disparou com sua retórica habitualmente agressiva. Ciro não poupou, também, os filhos do ex-presidente, a quem no passado se referiu como “ovos de serpentes nazistóides”.
A despeito do constrangimento que possa ter causado à candidatura de Flávio e do favor que possa ter feito ao governador Elmano de Freitas (PT), que disputa a reeleição pelo PT, o certo é que o vídeo de Michelle aviva uma discussão que tem andado adormecida na política brasileira. “Não vou trocar valores por pragmatismo político”, disse ela. A questão de fundo é justamente essa: até que ponto as conveniências eleitorais justificam que se deixe de lado questões relacionadas com princípios e valores?
Câmara de gás Independente do que pode estar em jogo por trás dessa lavação de roupa suja em público e dos danos que Michelle causou e ainda pode causar às pretensões eleitorais do enteado Flávio, a decisão da ex-primeira-dama toca num ponto interessante.
Nas idas e vindas da vida partidária brasileira e diante de uma série de atitudes de políticos que contrariam aquilo que prometeram ao eleitor que os elegeu, fica difícil tirar toda a razão de Michelle pelo protesto contra o apoio do PL a Ciro Gomes. De qualquer forma, o gesto levantou dúvidas em relação às verdadeiras intenções da ex-primeira-dama. Alguns lançaram uma dúvida séria: onde será que ela pretende chegar?



)