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Marjane Satrapi, autora de 'Persépolis', morre aos 56 anos

Faleceu Marjane Satrapi, criadora de Persépolis, a história em quadrinhos que narra a infância de uma menina na revolução iraniana em 1979

Marjane Satrapi, autora de 'Persépolis', morre aos 56 anos

Faleceu Marjane Satrapi, criadora de Persépolis, a história em quadrinhos que narra a infância de uma menina na revolução iraniana em 1979. Seu relato autobiográfico é uma crônica filosófica contra a opressão da teocracia, censura do Estado e obra fundamental sobre a luta da juventude e das mulheres pela sua emancipação. Pão e Rosas @Pao_e_Rosas quinta-feira 4 de junho 18:44

Publicado originalmente em La Izquierda Diario por Nancy Mendéz. Tradução por Julia Cardoso. Aos 56 anos, naquela Paris que adotou como trincheira e exílio, a tinta de Marjane Satrapi ficou sem fôlego.

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A imprensa francesa confirmou a triste notícia através de um comunicado familiar, a autora de Persepólis, a autora que havia sobrevivido aos bombardeios de Teerã e aos fundamentalismos de dois mundos, faleceu hoje. Faz mais de um ano que havia sofrido a perda de seu companheiro de vida Mattias Ripa, o ator e produtor que se foi muito jovem em abril de 2025. O destino quis que suas ausências fossem tragicamente sentidas.

No muro digital de Marjane, aquele diário moderno onde costumava despejar sua raiva e sua arte, a última declaração de guerra contra a perda já estava escrita e hoje ressoa como um eco: “I lost the love of my life” [Eu perdi o amor da minha vida]. Duas perdas enormes que agora se encontram no mesmo silêncio. Leia também: Homem morre em acidente durante gravações de série da Disney no Rio de Janeiro

A potência de Persepólis, publicada em quatro volumes entre os anos 2000 e 2003, reside em seu caráter histórico. Através dos olhos de Marjane (socialmente chamada de “Marji” durante sua infância) ela é a protagonista, narradora e alter ego da própria autora. Ou seja, trata-se de uma construção autobiográfica que nos permite ver a história contemporânea do Irã através de seus olhos, de quando era uma menina de 10 anos.

O relato autobiográfico de Satrapi começa ao calor da revolução de 1979, é um dos exemplos de como um movimento de massas com profundas aspirações democráticas e sociais pode ser cooptado por forças reacionárias. A falta de uma alternativa política independente as forças burguesas e a colaboração de classe por parte da esquerda iraniana foram fatores determinantes no desenvolvimento da revolução. Apesar das promessas iniciais de justiça social e equidade, o regime islâmico mostrou seu caráter repressivo:

implementou um restrito c´digo islâmico que transformou a sociedade, consolidou seu poder de forma interna através do impacto devastador da guerra contra o Iraque (1980-1988) e começou uma perseguição sistemática contra os opositores políticos, homossexuais, minorias étnicas, e de forma implacável, contra as mulheres. Em Persepólis vemos o colapso do regime de Xá, o qual foi sustentado pelo imperialismo dos EUA, e a subsequente consolidação da teocracia reacionária de Khomeini, que baseou seu poder na perseguição à vanguarda operária, aos setores críticos e aos partidos de esquerda. Marji um sujeito histórico em constante contradição

A rebeldia inata e o questionamento a autoridade Desde que era criança, Marji não aceitava as normas impostas. Questionava seus professores, as imposições do novo regime islâmico (como o uso obrigatório do véu). Sua rebeldia não é apenas política, mas também cultural: escutava bands de rock ocidentais que estavam proibidas (como Iron Maiden), usava tênis por baixo da túnica tradicional e comprava fitas cassete no mercado negro, arriscando sua liberdade para defender seus gostos.

Seu pensamento sustentava sempre por um olhar crítico sobre a realidade política que vivia, apesar de sua idade jovem, ela tentava compreender o colapso de Xá e a chegada da teocracia misturando as conversas marxistas dos pais com sua própria imaginação infantil (inclusive tendo conversas imaginárias com Deus, quem imaginava como um homem com barba semelhante a Karl Marx). À medida que ela cresceu, esse olhar crítico torna-se mais agudo e trágico ao vivenciar a perda de familiares e amigos devido a repressão política e à guerra contra o Iraque. O desenraizamento e a crise de identidade no exílio Quando seus pais a enviam para a Áustria para protegê-la da guerra, as características de Marjane se transformaram. Mais de entretenimento

Deixa de ser uma

“rebelde local” para se tornar uma “estrangeira”. Na Europa experimenta a solidão, o racismo estrutural e vergonha de sua origem (chegando ao ponto de negar que é iraniana para se encaixar socialmente). Leia também: Ypê: Recall Vira Pesadelo para Consumidores com Reembolso

Sua viagem marca a perda de sua inocência: passa da resistência política na sua terra para uma dura luta pela sobrevivência psicológica e habitacional em outro país. Mas, além disso, o traço que une toda a narrativa é a honestidade dela consigo mesma. Satrapi não esconde os erros de sua juventude: mostra seus momentos de egoísmo, suas crises depressivas, seus relacionamentos falidos e seus sentimentos de culpa por ter deixado para trás o seu país com seus companheiros que sofriam com os bombardeios.

Sempre mantendo um humor ácido e a ironia com suas ferramentas de defesa para não cair em um melodrama vitimista. Não cheguei a Persepólis sozinha. Cheguei acompanhada por Glória, uma amiga que, com a lucidez que só o carinho proporciona, percebeu antes de mim o quanto eu iria me identificar com aquela garota rebelde de Teerã;

Porque nesses traços negros é possível encontrar as chaves para compreender a visão complexa— e, por vezes, hostil— de ser mulher neste mundo. Hoje, quando o presente pretende embelezar o retrocesso, as ruas do Irã e do mundo continuam se enchendo de garotas que desafiam o que lhes é imposto, mostrando que o fogo que Marjane retratou não se apagou, mas sim mudou de mãos. Adeus, Marji.

Sua obra seguirá presente, vibrando nas próximas gerações, porque a memória é um território indomável e nenhuma batalha cultural da direita poderá apagá-la.

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