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Ler matéria →Mario Quintana: o solitário poeta que passou o fim da vida em hotéis e agora viraliza nas redes sociais- Author, Edison Veiga- Role, De Bled (Eslovênia) para BBC News Brasil- Published- Tempo de leitura: 10 min " Todos esses que aí estão/ Atravancando meu caminho,/ Eles passarão.
/ Eu passarinho! " Versos simples, pontiagudos e bem-sacados sobre coisas cotidianas com a habilidade de um cronista.
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Textos curtos, mas intensos. O estilo marcante da poesia do gaúcho Mario Quintana (1906-1994), nascido há 120 anos, combina tão bem com a lógica das redes sociais que sua poesia acabou ganhando uma nova vida em posts contemporâneos, compartilhada mesmo por quem nem sequer sabe a autoria de tais versos. "
Ele faz parte das referências poéticas das pessoas comuns", diz o professor e escritor Miguel Sanches Neto, reitor na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Para ele, os textos atribuídos a Quintana, "verdadeiramente ou falsamente", demonstram que seu estilo "se impôs nos frequentadores das redes sociais". "
Dadas as referências ao banal, à experiência humana de renúncia e de amor à vida, sua poesia é um pão e vinho sagrados, que se multiplicam entre os que têm fome de poesia", analisa. O escritor contemporâneo Saulo Florentino, que tem se debruçado sobre a presença da literatura nas redes sociais, associa essa fama atual de Quintana ao seu jeito de poetizar "sem se distanciar, sem confundir profundidade com complexidade". " Leia também: Mercurocromo: o remédio tóxico que quase todo mundo usava para machucados
Tantas pessoas sentem que ele escreveu algo especialmente para elas", diz. Florentino concorda que o estilo curto, sintético, do poeta gaúcho parece feito para a era das redes. "
A sociedade atual vive da circulação de frases. As pessoas se acostumaram a pequenos comprimidos de poesia", define. Tal protagonismo digital tem como efeito colateral os versos erroneamente atribuídos a Quintana.
" Isso também diz algo interessante", avalia Florentino. "
Mostra que existe uma espécie de imaginário coletivo sobre quem foi Mario Quintana e que, quando alguém encontra uma frase melancólica ou delicada, acredita que a mesma foi escrita por ele. " Para o escritor contemporâneo, existe um "reconhecimento involuntário da identidade estética e textual" de Mario Quintana.
O poeta do antitextão Criador do canal no YouTube Elite da Língua, o professor de literatura Emerson Rossetti vê na poética de Quintana uma tríade de elementos que funcionam muito bem na era das redes. " São aspectos convergentes", afirma. Mais de mundo
O primeiro é a simplicidade de sua linguagem. " Com grande apelo poético que atrai bastante a atenção", diz.
Outro ponto é a escolha dos temas— privilegiando o cotidiano e a busca do sentido para as coisas banais da vida. " A terceira questão, muito importante, é a sua expressão sintética", acrescenta o professor.
" Os versos do Quintana são curtos e isso tem a ver com o gosto do leitor de hoje, que procura essa economia de expressão nos tempos da internet. " Leia também: O que brasileiros pensam de influenciadores que fazem publicidade de bets
Em outras palavras, Quintana é o poeta do antitextão. Para o cantor e compositor Márcio de Camillo, que desde 2018 tem um espetáculo infantil chamado Crianceiras Mario Quintana, a poética do gaúcho ficou pop "porque o verso é uma maneira rápida de leitura". Para ele, as redes estão "democratizando mais a poesia" e, neste fenômeno, autores "com versos fantásticos" como Quintana acabam funcionando.
E a poética de Quintana se encaixa no universo infantil da adaptação de Camillo. " Crianças e seus pais acabam consumindo poesia de uma maneira divertida
", argumenta Camillo. "
Mario Quintana conquistou um lugar especial na literatura brasileira porque soube fazer algo aparentemente simples, mas muito difícil: encontrar poesia nas coisas comuns", contextualiza o linguista Vicente de Paula da Silva Martins, professor na Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA). "Ele não precisava recorrer a grandes acontecimentos ou a uma linguagem complicada para falar de questões profundas. Uma rua silenciosa, uma lembrança de infância, um objeto antigo ou a passagem do tempo podiam se transformar, em seus versos, em reflexões sobre a vida.
" " Além disso, Quintana tinha uma maneira muito própria de brincar com as palavras, criando versos que pareciam conversas, mas que carregavam muita reflexão.
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