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Mapeamento expõe como o mercado editorial brasileiro se concentra no Sudeste

Mariana Grasso João Pedro Adania Guilherme Matos São Paulo O avanço da inteligência artificial generativa chacoalhou o mercado de livros independentes, multiplicando o

Mapeamento expõe como o mercado editorial brasileiro se concentra no Sudeste
Mariana Grasso João Pedro Adania Guilherme Matos
São Paulo

O avanço da inteligência artificial generativa chacoalhou o mercado de livros independentes, multiplicando o volume de novos títulos, acelerando prazos de lançamento e reduzindo custos de produção. O movimento tem levado editores e autores a questionar a qualidade das obras.

No catálogo do Kindle Direct Publishing, plataforma de autopublicação da Amazon, o leitor esbarra em capas com traços visuais associados a imagens geradas pelas novas tecnologias. Perfis de autores acumulam mais de 500 obras publicadas e mantêm o ritmo com o lançamento de um título a cada dois dias.

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Em 2023, a Amazon passou a exigir que os autores, ao inscrever suas obras na plataforma, declarem se usaram IA para gerá-las, mesmo que tenham passado por revisão humana. A empresa afirma limitar a criação simultânea a dez títulos por formato de livro, por semana, para cada autor.

Homem com cabelo preso e barba segura livro 'Frankenstein' de Mary Shelley à frente do rosto, alinhando a capa com seu rosto. Capa mostra rosto estilizado em tons de cinza com linhas geométricas.
O designer Vicente Pessôa usou ferramentas de inteligencia artificial para criar as cerca de 50 artes que ilustram uma edição de 'Frankenstein' - Douglas Magno/Folhapress

Em nota, a empresa diz aplicar "medidas proativas e reativas para prevenir, detectar e remover conteúdo que viole nossas diretrizes, seja ele gerado por IA ou não". Apesar das restrições, os catálogos continuam repletos de obras automatizadas sem identificação visual clara, o que incomoda editoras tradicionais.

Na França, em abril deste ano, editores recorreram a órgãos de repressão a fraudes acusando a Amazon de "parasitismo e indução do consumidor ao erro" ao vender livros criados com auxílio da IA. Leia também: Alana Ambrósio sobre caso Amazon: 'Enquanto latiam, eu trabalhava'

Procurada pela reportagem, a Amazon informou que suas políticas regulam quais livros podem ser listados para venda e disse que remove os que não estão em conformidade. "Nossos processos e diretrizes seguirão evoluindo à medida que a tecnologia e a indústria editorial evoluem", afirmou. Segundo a empresa, os clientes dispõem de canais para denunciar materiais que julguem inadequados nos livros.

Ilustração de uma mão robótica cinza segurando firmemente um lápis amarelo com ponta preta, sobre fundo claro.
Produção de livros com inteligência artificial fez a Amazon limitar quantidade de títulos publicados na plataforma - Catarina Pignato

O Sindicato Nacional das Editoras da França, contudo, classificou a venda massiva de obras por autores e editoras fictícias como "fraude agravada contra o consumidor". Outras organizações europeias, como a Sociedade dos Homens de Letras, defendem retirar a caracterização dessas publicações como livros, rebaixando-as à categoria de "produtos de máquina", para impedir que sejam beneficiadas por incentivos fiscais do setor.

Na contramão, James Daunt, CEO da Barnes & Noble, maior rede de livrarias dos Estados Unidos, disse à NBC News que aceita vender livros escritos por IA desde que tenham qualidade e atendam ao desejo do leitor.

A escritora polonesa Olga Tokarczuk, 64, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura em 2018, disse numa entrevista em maio que incorporou a IA ao seu processo criativo, usando-a para "embelezar ideias" e agilizar pesquisas durante a escrita do próximo romance. Tokarczuk também esclareceu que não usa a ferramenta para redigir o texto final.

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Em 2023, a Câmara Brasileira do Livro, que organiza o prêmio Jabuti, chegou a desclassificar a obra "Frankenstein", que disputava o prêmio de melhor ilustração, após a revelação de que o designer Vicente Pessôa, 40, usara ferramentas de IA no trabalho.

Três anos após a controvérsia, o designer fundou a Barca, aceleradora de projetos culturais em Minas Gerais. O modelo se baseia em clubes de assinatura dedicados a nichos como filosofia, literatura infantojuvenil e direito. Para viabilizar o trabalho e manter a equipe enxuta, a IA funciona como o sistema operacional da empresa.

"A gente usa no marketing, nas ilustrações, nas capas, no processo de revisão e no processo de edição. Todas as pessoas que trabalham com a gente são motivadas a utilizá-la", diz Pessôa, que assina 12 provedores de IA para gerenciar o fluxo de trabalho. Leia também: Globo chega perto dos 40 pontos com Brasil x Haiti; CazéTV bate recorde mundial

Homem de cabelos presos e barba segura uma pilha alta de livros em uma biblioteca com estantes de madeira ao fundo.
Vicente Pessôa criou uma editora de assinaturas de livros em Minas Gerais - Douglas Magno/Folhapress

O selo Pessôa, dedicado à "literatura contemporânea nacional", alcançou a marca de 3.000 cópias por mês e está perto de reunir 4.000 assinantes. Para o designer, as restrições contra a IA no meio literário não partem do leitor comum, mas dos profissionais do mercado. "Ilustradores têm problemas com IA porque sentem que isso vai acabar com o mercado", afirma.

Em outra frente, o empresário Roberto Saad, fundador da UIClap, plataforma de publicação independente com impressão sob demanda, diz que o total de novas obras lançadas por mês saltou de 2.000 para 7.000 no último ano, um crescimento de 250% impulsionado pela IA.

Jéssica Laís, 37, especialista em estratégia de produtos digitais, defende o uso da IA para criar infoprodutos, mercadorias virtuais voltadas para o ensino ou consumo na internet, como ebooks, cursos e apostilas.

A empreendedora ensina técnicas de escrita de roteiros e textos persuasivos para atrair clientes. Também comercializa sua própria ferramenta de IA, configurada para atuar como redatora automática de campanhas.

Com apoio de softwares, Jéssica relata ter criado um livro infantil completo, do enredo às ilustrações, em apenas dois dias.

Mulher de cabelos cacheados e óculos sentada em sofá preto, usando laptop apoiado em almofada. Ao lado, estante com livros organizados. Ambiente interno com parede branca e janela ao fundo.
Na foto Mima Cobaltini em seu apartamento, em Osasco, São Paulo - Lucas Seixas/Folhapress

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