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Manipulados? Entretenimento nos faz 'saltar da cadeira' com frequência

E acho que nós muitas vezes tomamos decisões ou temos reações, se quiseres, para ser um pouquinho mais simpático

Manipulados? Entretenimento nos faz 'saltar da cadeira' com frequência

E acho que nós muitas vezes tomamos decisões ou temos reações, se quiseres, para ser um pouquinho mais simpático. Temos reações, somos reativos a determinadas coisas e usam isso com frequência. E nós já somos crescidos o suficiente e já temos experiência suficiente para saber que há determinadas coisas que servem apenas para nós saltarmos da cadeira. E nós continuamos a saltar entusiasmadíssimos. E ao fazer isso, estamos a trair um pouquinho o nosso papel, porque eu acredito no jornalismo, que é um guardião das democracias liberais. E, portanto, eu acho que nós temos uma função e acho que muitas vezes baixamos as guardas dessa nossa função em troca de uma entrevista exclusiva, um momento que nós sabemos que vai ser bom nas redes sociais e também vai ser bom nas audiências. É verdade que isto depois é uma questão demasiado profunda, porque os órgãos de comunicação social, genericamente, estão todos a atravessar períodos de alguma dificuldade e, portanto, tu tens que fazer pela vida. Mas acho que nós devíamos pensar um pouquinho mais naquilo que fazemos e nas decisões que tomamos e na frequência com que tomamos determinadas decisões, porque sim, eu acho que a degradação do espaço político, e nós muitas vezes criticamos essa degradação, também temos responsabilidade nisso, não tenho nenhuma dúvida.

É conhecido pelo rigor, rapidez de raciocínio e a capacidade de navegar entre a análise política e a comunicação clara. Em televisão, tornou-se uma presença reconhecida pela serenidade e à vontade em direto. Representa um jornalismo que procura resistir ao espetáculo fácil, insiste no detalhe, na explicação e no contraditório. O seu percurso passa pela televisão, mas também pela rádio, jornais e também o digital, sempre com uma ideia persistente: informar não é apenas transmitir factos, é ajudar a sociedade a interpretar o seu próprio tempo. E talvez seja isso, aliás, que o distingue. Num ecossistema saturado de opinião, continua a apostar na pergunta difícil, no contexto incômodo e na convicção de que o jornalismo só tem futuro se conseguir merecer a confiança. E hoje, em 40 minutos, conversamos com o Pedro Benevides. Bem-vindo. Aqui é a Rádio Observador, que é a tua casa.

Leia no AINotícia: Panorama do Entretenimento: Festivais, Cultura e Sustentabilidade

Também. Obrigado, João.

Portanto, isto hoje aqui-

Isto é espetacular ouvir isto. Cada vez que gravava um podcast da História do Dia, devia ter sempre essa introdução. Vou tentar vender essa ideia. Acho ótimo. Leia também: Brasileiros já negociam dívidas: Novo Desenrola libera super descontos

Tens de falar com os-

Tens de falar com os responsáveis.

Vou fazer isso.

Olha, salta aqui à vista e acho que é algo que te distingue muito perante os outros, pelo menos quando te vemos em televisão, é que tu és um jornalista que gosta muito de explicar, mas ao mesmo tempo é uma explicação que se torna fácil para os outros. Ou seja, uma pessoa que te vê, consegue perceber aquilo que tu estás a explicar, quer seja algo relacionado agora, por exemplo, com o antivírus, com outro tema qualquer. Tu tens medo do aborrecimento?

Não é medo do aborrecimento. Eu tento é que, efetivamente, quando estou a falar com as pessoas, porque, na verdade, eu interpreto aquilo que eu faço um pouquinho como se fosse uma conversa, na mesma lógica que nós estamos aqui a ter, claro, com os artifícios todos de um estúdio de televisão e das câmeras e de tudo isso, mas tento que seja uma reprodução de uma conversa de ser humano para ser humano. E isso faz com que aquilo que eu digo tenha que obedecer a duas coisas que pra mim são sagradas, que é ser claro para quem não percebe e ao mesmo tempo não ser ofensivo para quem percebe. Ou seja, não quero estar a falar com crianças de- Mais de entretenimento

Passar um estado de estupidez.

Sim, não quero estar a falar com crianças de três anos, mas também não quero que ninguém seja excluído daquilo que se está a passar e que, por alguma razão, nós entendemos que é importante que as pessoas saibam. E, portanto, se é importante que as pessoas saibam, nós temos essa obrigação, média no sentido de mediação, temos a obrigação de encontrar uma fórmula que responda a isso mesmo, que quem não percebeu nada do assunto ou nunca ouviu falar do assunto, perceba o que é que está em causa e por que aquilo pode ser importante pra sua vida. E quem já percebe do assunto, sinta: "É exatamente isto. Não me estão a tratar como se eu fosse um atrasado."

Tu onde é que foste buscar essa capacidade? Porque nós vemos muitos jornalistas em televisão, e é verdade, em rádio ouvimos. E geralmente afeiçoamo-nos mais ou criamos uma ligação mais próxima mediante isso, ou seja, uma pessoa que nos transfira, passe pra nós essa confiança, esse à vontade, mas ao mesmo tempo que nos informe. Onde é que tu achas que foste buscar isso? Leia também: Panorama do Entretenimento: Festivais, Cultura e Sustentabilidade

Olha, eu acho que isto tem a ver com a minha escola de repórter, sobretudo com muita experiência a fazer diretos na rua. Eu digo muitas vezes que eu hoje estou num estúdio a apresentar noticiários ao fim de semana, mas a minha escola foi na rua, foi como repórter, porque eu acho que é assim que um repórter deve ser formado, um jornalista deve ser formado, é na rua a fazer reportagem. E ao fazer isso, eu tinha sempre a preocupação, quer fosse uma reportagem que fosse daquelas que são gravadas e montadas e depois exibidas no jornal, quer fosse num direto, ter sempre esta lógica de envolver as pessoas na conversa, envolver quem nos está a ouvir na conversa. Portanto, pensar quem é o meu público, quem é que são as pessoas que me estão a ouvir, e depois, como é que eu posso falar com elas desta forma para que haja aqui esta sensação de que estamos a estabelecer um diálogo, que eu estou a conversar com as pessoas. Isso pra mim era importante, esta lógica de conversar com as pessoas era importante. É verdade que tradicionalmente em Portugal, o repórter tem aquela voz mais colocada e fala muito assim, e isto é a voz da informação, e historicamente, culturalmente, não é só em Portugal, as grandes referências mundiais e históricas do jornalismo televisivo, por exemplo, têm todas, porque tinham, porque era uma coisa que se ouvia e era assim. Depois isso foi, sobretudo a escola americana, foi informalizando as coisas e transformando a conversa do jornalista mais numa abordagem de igual pra igual, quase com quem está a ouvir. E eu gosto disso. Eu gosto desta sensação de que nós estamos a ter uma conversa, porque é isso que faz sentido, é isso que nós fazemos uns com os outros. Nós temos este gosto por ouvir histórias, por alguém nos contar histórias. É uma coisa que historicamente, desde os primórdios dos seres humanos, nas formas que era possível encontrar para contar histórias, era uma coisa que se fazia. E eu acho que a nossa profissão tem muito disso. Nós contamos histórias, normalmente são histórias tristes, são histórias negativas, e isso também tem razão de ser, mas são histórias que nós estamos a contar.Eu não via nenhuma razão para, esteja a cobrir as eleições americanas, ou a cobrir um funeral de Estado, ou fazer a cobertura de uma campanha eleitoral, de não contar a história com linguagem comum, de entendermos todos o que estamos aqui a dizer. Isso para mim era fundamental no meu trabalho. Eu se calhar valorizava muito esta parte da mediação. É esse o meu trabalho. Eu tenho que mediar isto, as pessoas têm que perceber isto. Eu vou escolher o que é importante, mas eu vou ter que mediar e vai ter que chegar a algum lado. Não vai ser só para ter uma palmadinha nas costas, porque a minha classe achou que eu fiz a coisa de uma forma muito perfeitinha sob determinados critérios. É eficaz se quem está a ouvir sente que eu estive a falar para cada uma das pessoas que está a ouvir.

Penso sempre.

Primeiro.

Imagina, há determinados temas que são densos, que são difíceis, e nós podemos fazer uma de duas coisas: ou falar assumindo que as pessoas sabem do que nós estamos a falar, ou então dar ali um twist, que é o que eu normalmente falo. Muitas vezes, por exemplo, acho que é importante dar um determinado enquadramento prévio antes de ir ao corpo da notícia, verdadeiramente. E então, muitas vezes eu começo a dizer: "Não sei se se lembra daquele caso, daquela criança que não sei o quê". Ou seja, quando eu digo: "Não sei se se lembra", eu já estou a simular uma conversa, porque obviamente-

E a pessoa já fica logo com os ouvidos .

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