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Manifestantes liderados pelo Pussy Riot protestam contra a Rússia na Bienal de Veneza

Retrato de Nadya Tolokonnikova, vocalista e ativista do coletivo Pussy Riot Yulia Shur/Divulgação Marina Lourenço São Paulo Dez anos atrás, o Pussy Riot pariu uma das

Manifestantes liderados pelo Pussy Riot protestam contra a Rússia na Bienal de Veneza
Retrato de Nadya Tolokonnikova, vocalista e ativista do coletivo Pussy Riot

Retrato de Nadya Tolokonnikova, vocalista e ativista do coletivo Pussy Riot Yulia Shur/Divulgação

Marina Lourenço
São Paulo

Dez anos atrás, o Pussy Riot pariu uma das performances mais polêmicas da música contemporânea. Vestindo balaclavas coloridas para esconder os rostos das integrantes, o grupo feminista foi à Catedral de Cristo Salvador, na capital russa, e tocou sua "Punk Prayer", canção que faz referências a símbolos sacros como a Virgem Maria e debocha do presidente russo Vladimir Putin.

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A apresentação, que logo viralizou, levou três das artistas do coletivo à prisão e rendeu fama global ao grupo, que nos últimos tempos tem trilhado caminhos bem diferentes dos que trilhava naquela época.

Lançada neste mês, a mixtape "Matriarchy Now" traz o Pussy Riot numa versão menos punk e mergulhada num hiperpop de acenos políticos sutis se comparados aos de canções como "Punk Prayer", "Make America Great Again" e "Straight Outta Vagina".

Com letras cheias de alusões sexuais e dominação feminina, as faixas do disco —produzido pela sueca Tove Lo, do hit "Habits"— dispensam a bateria acelerada, a guitarra rasgada e os vocais gritados que marcaram o grupo no início da carreira e, em vez disso, dão lugar a batidas eletrônicas, sintetizadores dançantes e flertes com o grime em canções como "Poof Bitch", que traz a rapper Big Freedia. Leia também: Cinemark usa brecha na Cota de Tela e exibe filme de 2024 mais de cem vezes ao dia

Não é de hoje, porém, que o grupo embarca no pop. Embora mais politizado do que as músicas atuais, o hit "Make America Great Again", de 2016, já indicava essa outra faceta do coletivo russo, que se define como artístico-ativista e é considerado um dos principais nomes atuais do chamado "riot grrrl", movimento que une o punk a ideais feministas.

De 2012 para cá, o Pussy Riot mudou seu estilo musical, mas não só. Se antes suas integrantes não hesitavam em causar alvoroço com ousados protestos contra o governo russo que repercutiam pelo mundo, hoje seus gritos são mais cautelosos e evitam deixar pistas de seus paradeiros.

Isso porque a Rússia de 2012 e a de 2022 são países diferentes. Ou, pelo menos, é o que pensa Nadya Tolokonnikova, vocalista do Pussy Riot e ex-integrante do coletivo russo Voina.

"Perdemos nossas liberdades. Tudo está muito pior", diz a artista, em entrevista por videochamada. "Hoje, a liberdade de expressão basicamente não existe na Rússia. Se você falar algo sobre a Guerra da Ucrânia, corre o risco de ficar preso por até 15 anos. Você nem pode chamar o que está acontecendo de guerra, porque, de acordo com um decreto [do governo], isso é uma ‘operação militar especial’. As pessoas vão para a cadeia até por coisas pequenas, como posts de Instagram e Twitter."

Tolokonnikova, famosa por protagonizar protestos como o ato contra Putin na Catedral de Cristo Salvador —episódio que impôs a ela dois anos atrás das grades por "vandalismo motivado por ódio religioso"—, mantém sua localização atual em segredo. Mais de entretenimento

mulheres com balaclavas no rosto dançam e tocam instrumentos em meio a neve
Membros banda feminina de punk rock Pussy Riot, durante show-manifestação contra o governo russo, na praça Vermelha, em Moscou, em 2012 - Denis Sinyakov/Reuters

Lucy Shtein e Maria Alyokhina, outras integrantes do Pussy Riot, também vivem hoje num lugar não revelado e fugiram da Rússia neste ano, conforme contaram ao jornal britânico The Guardian.

Shtein, que estava em prisão domiciliar havia mais de um ano por promover um protesto em defesa do líder da oposição russa Alexei Navalni —atualmente, preso—, saiu do país de fininho e disfarçada com roupas de entregadora de delivery pouco depois da eclosão da Guerra da Ucrânia.

Já Alyokhina, que foi detida mais de seis vezes, fugiu em abril, quando soube que sua prisão domiciliar se transformaria em breve numa pena de cárcere. Foi nesse momento também que se endureceu a repressão russa sobre manifestantes contrários à guerra. Leia também: 'Viva

uma berinjela sendo cortada com uma faca
Capa do disco 'Matriarchy Now', de Pussy Riot - Ksti Hu

"Pessoas estão sendo presas e torturadas. E seus familiares perdendo emprego por estarem associados a elas. Há também assassinatos", diz Tolokonnikova. "Aqueles que ainda se manifestam [nas ruas] são extremamente corajosos. Mas nem todos conseguem ser, porque o preço do protesto é, literalmente, a vida."

Tolokonnikova diz ainda que tenta não pensar muito nos próprios medos, vários dos quais vindos do período em que esteve presa e, por isso, diz que prefere pensar em refletir a respeito do que realmente pode fazer para protestar.

Muitas vezes lembrado mais pelo lado ativista do que pelo musical, o Pussy Riot coleciona vários atos polêmicos. Antes de causar alvoroço na Catedral de Cristo Salvador, por exemplo, o coletivo já havia virado notícia quando apareceu em frente à Catedral de São Basílio, em Moscou, onde soltou fumaça colorida, ergueu uma bandeira feminista e tocou uma música com uma letra que afirma que Vladimir Putin urina nas calças.

Hoje em dia, ainda que o coletivo continue promovendo o ativismo de causas diversas e ações que esbarram nos objetivos do governo russo, o Pussy Riot dá as caras mais em atos virtuais ou presenciais que estejam além das fronteiras de seu país de origem.

Em junho, algumas integrantes do grupo foram à sede do governo do estado do Texas, nos Estados Unidos, e fizeram um ato de repúdio à suspensão do direito constitucional ao aborto naquele país, pendurando, no interior da instituição, uma gigantesca faixa estampada com o letreiro "Matriarchy Now".

Mulheres erguem mão ao lado de faixa gigante
Pussy Riot na sede do governo do estado do Texas, nos Estados Unidos - Vegsurfer
Cartaz de show do grupo russo Pussy Riot mostra a caeça do presidente bolsonaro ao lado de lixos tóxicos, armas e animais mortos
Cartaz de show do grupo russo Pussy Riot no Brasil, em 2020 - Reprodução/Facebook
Retrato de Nadya Tolokonnikova, vocalista e ativista do coletivo Pussy Riot
Retrato de Nadya Tolokonnikova, vocalista e ativista do coletivo Pussy Riot - Neil Krug/Divulgação

Matriarchy Now

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  • Autor Pussy Riot
  • Gravadora Neon gold

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