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Aos 27 anos e às vésperas do lançamento do seu quinto disco de estúdio, Luísa Sonza parece ter tomado uma decisão: não falar mais com quem a critica. Em pouco mais de meia hora de entrevista, ela repete em dois momentos diferentes a resolução: "Não falo mais com quem me critica, falo com quem me aplaude."
A primeira vez é ao ser questionada em relação aos comentários negativos sobre usar o corpo de forma erotizada no trabalho artístico —na capa do novo álbum, "Brutal Paraíso", a cantora aparece nua, recostada no capô de um carro.
O segundo momento é ao ser indagada sobre as vaias que recebeu de parte do público que assistia ao show de Sabrina Carpenter no Lollapalooza, no fim de março. A brasileira foi a escolhida para participar de uma cena típica da turnê da artista americana, quando ela prende algum famoso por ser "gostoso demais."
"Pelo amor de Deus, a Sabrina Carpenter me conhece de alguma maneira e isso é muito incrível pra gente, isso é muito incrível pro Brasil. Tive gritos de felicidade absurdos [vindos] da maioria das pessoas. Isso não pode nem ser perguntado", afirma.
Luisa prossegue dizendo entender que o ódio e os ataques da internet precisam ser combatidos como algo sério, mas que ela não pode fingir não ter "um público imenso" ao seu lado. "Sou tão sortuda, sou tão abençoada de ter tanta gente massa [em seu apoio], que é muito difícil coisas pequenas me atravessarem hoje em dia. Quando é algo desproporcional, tudo bem, mas não é o caso."
A cantora gaúcha exibe números grandiosos: são 30 milhões de seguidores no Instagram e 11 milhões de ouvintes mensais no Spotify. "Escândalo Íntimo", seu disco de 2023, ultrapassou 1 bilhão de streams nas plataformas digitais.
Luísa diz que já foi o tempo em que achou que todo mundo tinha que gostar dela. "Vou abrir um negócio pessoal da minha vida: a minha prima, que é como uma irmã, acabou de descobrir um câncer agressivo, está fazendo quimioterapia e vai ter que fazer cirurgia. Com a minha música, eu tive a oportunidade de bancar tudo e ela está com os melhores médicos, a melhor assistência. A gente está sofrendo muito, mas olha o que eu posso proporcionar para a minha família."
"E aí eu vou ficar sofrendo por uma coisa que é tão pequena, sendo que tem tanta coisa maior acontecendo na minha vida? O que eu aprendi não foi a lidar com as críticas, foi a lidar com as bênçãos e com as coisas incríveis que tenho", diz. Ela recebeu a coluna para a entrevista em sua ampla casa no Morumbi, bairro nobre de São Paulo. Leia também: 'Tatame' mostra repressão no Irã e conflito com Israel pela perspectiva de judoca
Assim como não lida com os críticos, Luísa também não responde a perguntas sobre a sua vida afetiva. No passado, o seu primeiro casamento com o influenciador Whindersson Nunes foi amplamente noticiado pela mídia. Outro fator que ficou marcado na sua história foi a revelação que fez ao vivo ao programa Mais Você, de Ana Maria Braga, de que tinha sido traída pelo então namorado Chico Moedas —inspiração para um dos seus maiores sucessos, a música "Chico". Hoje, segundo publicações em suas redes sociais, ela namora um médico português.
Ao ser questionada pela coluna sobre como chegou a essa decisão de ser mais discreta sobre seus relacionamentos, a cantora começa a dizer que foi a maturidade, mas é interrompida por sua assessora, que afirma que ela "não fala da vida pessoal". A cantora concorda e acrescenta rindo que a repórter "já catou tudo, menina".
Na sequência, a coluna indaga sobre os aprendizados que ela teve no episódio em que foi acusada de racismo, mas novamente é censurada pela assessora, que afirma que o assunto já foi bastante explorado no passado. Em 2018, Luísa foi acusada de racismo pela advogada Isabel Macedo. Segundo a denúncia, o episódio ocorreu em Fernando de Noronha, quando ela teria batido no ombro de Isabel e pedido que trouxesse um copo de água porque teria confundido a advogada com uma funcionária do hotel.
Em 2023, o processo foi encerrado após um acordo judicial. Inicialmente, quando o caso veio à tona, em 2020, Luisa chegou a se manifestar dizendo que era mentira. Posteriormente, em 2023, no seu documentário da Netflix, ela afirmou que demorou a ter entendimento sobre o caso, mas que tomou consciência de tudo e se aliou à causa antirracista.
Antes das duas perguntas que ficaram sem resposta, Luisa falou por cerca de 30 minutos sobre o álbum novo, "Brutal Paraíso". O trabalho, disse ela, é um reflexo dessa sua nova visão de mundo, em que diz ter retirado o "véu da idealização e da romantização da vida" e aceitado a realidade nua e crua. É uma ruptura com os dois discos anteriores, "Escândalo Íntimo" e "Bossa Sempre Nova", esse último em que regravou clássicos da bossa nova.
"Estou com quase 28 anos e nessa idade você já não é mais vista como menina. Ninguém mais passa a mão na sua cabeça. Você começa a se ver num lugar muito adulto em que precisa dar conta de tudo. Ninguém se importa em como você está, se morreu ou não morreu, a vida vai continuar e o tempo não vai parar", reflete. Mais de entretenimento
Para ela, o álbum é também fruto de um insight "chocante" que teve: de que a vida não é justa. "Fui muito ensinada com aquela coisa: 'Se você fizer o bem, vai colher o bem. Se fizer o mal, vai colher o mal'. Mas vivendo muito em São Paulo, vivendo nesse mundo, a gente vê que não, que a maldade às vezes pode compensar, sim, e que faz parte. Quanto antes você tirar esse véu do conto de fadas da vida, mais conformado você fica e sofre menos", diz.
O sonho, alimentado desde os 17 anos, era lançar um disco de rock aos 27, número que carrega um certo simbolismo por ter sido com essa idade que artistas como Amy Winehouse, Kurt Cobain, Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison morreram. Mas, assim como outras desilusões que afirma ter colecionado, a realidade se impôs de forma reversa no caso de Luisa.
"Foi totalmente o contrário. Foi até um pouco decepcionante. Esperava que meu aniversário seria uma coisa muito louca. Mas foi literalmente de jogos, em que eu fiquei jogando videogame com um dos meus amigos", diz.
Em "Brutal Paraíso", o rock, afirma ela, aparece na desesperança das letras e numa forma mais crua de cantar, em que diz explorar os graves da voz, "porque acho que não tem mais espaço pro grito, pro choro", afirma. "Quanto mais você cresce, mais vê que que quanto mais quieto fica e segura as suas emoções, melhor é", acrescenta. Leia também: Companhia das Letras faz 40 anos e traz Carrère, Emicida e Socorro Acioli em eventos
Luisa diz achar uma "grande bobagem" se limitar a um ritmo musical. "Acredito que, aos poucos, todo mundo vai se livrar dessas caixas que não fazem nenhum sentido."
Embora tenha sido uma adolescente que "usava jaqueta de couro, camiseta de banda e achava que era melhor que os outros por escutar rock", Luísa conta ter deixado para trás essa "obsessão por um ritmo só" a partir da sua experiência de início de carreira, "tocando de tudo em banda de casamento".
O que não deixou para trás é o desejo de uma carreira internacional. No novo álbum, há trechos de algumas músicas em espanhol e em inglês. "Brutal Paraíso" tem também a participação do produtor Roy Lenzo, conhecido por trabalhos com Lil Nas X, e do compositor argentino Vicente Jimenez (Vibarco). "Nunca escondi a minha vontade de crescer, expandir a minha carreira, mas vejo ela como uma coisa só, uma expansão que vai acontecendo naturalmente."
Os shows no Coachella, um dos principais festivais de música dos Estados Unidos, nos dias 11 e 18 deste mês, são vistos por Luisa como uma oportunidade única de mostrar o seu trabalho fora do Brasil. "É como um jogo de War. A gente vai conquistando os lugares aos poucos."
Ela afirma que as apresentações serão uma mistura de tudo o que já fez, com muita música nova de "Brutal Paraíso", mas sem deixar de lado hits, a exemplo de "Sentadona" e "Modo Turbo". "O show está muito brasileiro e optei por ser mais para cima, até para chamar a galera que não me conhece e estará no festival. Vai ter um pouquinho de bossa, um pouquinho de funk, um pouquinho de tudo. E muita brasilidade."
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