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'Língua' inverte lógica da opressão linguística e desafia plateia no Sesc

O teatro, em sua máxima voltagem, altera as coordenadas da nossa percepção

'Língua' inverte lógica da opressão linguística e desafia plateia no Sesc

O teatro, em sua máxima voltagem, altera as coordenadas da nossa percepção. É o que faz "Língua", espetáculo concebido por Vinicius Arneiro e Filipe Codeço. Em cartaz no Sesc Consolação e vencedora do Prêmio Shell de Melhor Dramaturgia em 2025, a peça propõe uma revolução na cena contemporânea com um teatro bicultural e bilíngue, onde a Língua Brasileira de Sinais (Libras) e o português coabitam sem hierarquias.

Não se trata de "teatro inclusivo"— rótulo condescendente que seria mera caridade estética —, mas de um convite para desacostumar olhos e ouvidos. A premissa, tecida por Pedro Emanuel e Vinicius Arneiro sob a interlocução crítica da artista surda Catharine Moreira, ancora-se no realismo doméstico. Estamos na festa surpresa de Matias (o ator surdo Ricardo Boaretto), organizada por sua mãe, Virgínia.

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Sob o teto dessa casa comum, o álcool e o ambiente festivo funcionam como catalisadores de segredos familiares, assédio, homossexualidade e dilemas de adoção. A surdez de Matias não é o enigma a ser decifrado nem o motor do melodrama: é a condição dada.

O verdadeiro conflito é de ordem ontológica, que é o abismo entre a urgência do que se sente e a falência dos códigos para expressá-lo. "Não se vive apenas aquilo que se é capaz de dizer", sussurra a última fala, sintetizando que o afeto transborda as amarras da gramática. Há uma perspicácia estrutural na inserção de Félix (Filipe Codeço).

Único elemento monolíngue do grupo, ele é o espelho do público ouvinte. Ao ingressar em um território onde a comunicação flui por sinais velozes e piadas internas em Libras, Félix experimenta o peso do isolamento. Com esse dispositivo, a direção inverte a lógica da opressão linguística cotidiana. Leia também: Fatih Akin desnuda o horror da guerra pelo olhar de criança com família nazista

Na festa, o privilégio cognitivo pertence aos sinalizantes. O ouvinte, destronado de sua soberania fonocêntrica, descobre a vulnerabilidade de depender da tradução alheia para existir na situação. A encenação explode convenções ao recusar o confinamento dos intérpretes de Libras às margens do proscênio.

Aqui, a tradução é carne e coreografia. Numa simbiose entre a transcriação de Lorraine Mayer e a interlocução gestual dos atores ouvintes Erika Rettl, Jhonatas Narciso e Luize Mendes Dias, que dominam a Libras com fluência orgânica, cria-se uma comunidade cênica vibrante. Outro aspecto a ser destacado é a ambientação sonora.

Felipe Storino constrói uma sonoplastia física, com frequências graves e vibrações acústicas pensadas a partir da experiência somatossensorial de pessoas surdas. As ondas reverberam no espaço e nos corpos de toda a plateia, unificando surdos e ouvintes em um mesmo campo de percepção. O espetáculo desdobra a pesquisa iniciada pela dupla Arneiro e Codeço em 2016 com a peça-filme "

Aquilo de que não se pode falar". Se antes o foco estava no isolamento entre um soldado ouvinte e seu companheiro surdo, em "Língua" a dupla dá um passo político e estético, saindo do isolamento insular para o exame da intimidade. A sinalização deixa de ser o evento exótico do "outro" para se tornar o tecido social cotidiano.

Presenciar, ao final, a ovação tradicional ser substituída pelo balançar silencioso de centenas de mãos estendidas nos lembra do que o teatro é capaz quando deixa de ser mero espelho e passa a ser rachadura. Três perguntas para… … Vinicius Arneiro Mais de entretenimento

Como foi estabelecer o equilíbrio na sala de ensaio entre atores surdos e ouvintes para que o tempo da cena— o ritmo dos diálogos, as deixas e os silêncios— ganhasse uma fluência orgânica e compartilhada? O maior desafio foi deslocar a ideia de que o ritmo teatral depende exclusivamente da escuta sonora. Durante o processo, construímos uma escuta ampliada, baseada em múltiplos sinais: visuais, corporais, espaciais e vibracionais.

Isso exigiu que todos os intérpretes, surdos e ouvintes, revisassem hábitos profundamente arraigados. O tempo da cena passou a ser negociado coletivamente, a partir da atenção ao corpo do outro e à qualidade da presença em cena. Aos poucos, as deixas deixaram de ser apenas sonoras e se tornaram mais visuais.

O resultado foi uma fluência que não pertence a uma única língua ou percepção, mas a uma temporalidade comum construída pelo grupo. O uso de frequências graves e vibrações acústicas propõe uma experiência sensorial para além do puramente auditivo. Como foi o desenho dessa pesquisa sonora para que o som se tornasse um elemento de unificação para a plateia? Leia também: Vik Muniz usa cinzas do Museu Nacional para recriar relíquias perdidas

Nossa pesquisa partiu da pergunta sobre o que o som pode ser quando não é reduzido à audição. Trabalhamos com frequências graves, ressonâncias e vibrações capazes de ser percebidas pelo corpo inteiro, criando uma experiência compartilhada entre espectadores surdos e ouvintes. O desenho sonoro foi pensado também como dramaturgia sensorial: um campo de forças que atravessa o espaço e afeta todos os presentes de maneiras distintas, mas simultâneas.

O objetivo não era homogeneizar as percepções, e sim oferecer um ponto de encontro onde diferentes formas de sentir e interpretar o acontecimento cênico pudessem coexistir. Qual deve ser o papel da crítica e das instituições culturais para que experiências estéticas bilaterais como esta deixem de ser vistas como exceção ou "caridade" e passem a reconfigurar o futuro do palco? A crítica e as instituições têm a responsabilidade de abandonar a lógica da inclusão como gesto compensatório e reconhecer essas experiências como produção de linguagem e inovação estética.

Quando um trabalho envolvendo artistas surdos é analisado apenas pelo viés da representatividade, perde-se a oportunidade de compreender as transformações formais e poéticas que ele propõe ao teatro contemporâneo. É fundamental que programadores, curadores, críticos e financiadores entendam a acessibilidade como um princípio criativo e não como um recurso adicional.

Somente assim essas práticas deixarão de ocupar um lugar periférico e passarão a influenciar, de fato, os modos de criação, recepção e circulação das artes da cena no futuro. Sesc Consolação | Teatro Anchieta- Rua Dr. Vila Nova, 245, Vila Buarque, região central. Quinta e sábado, 20h.

Domingo, 18h. Até 28/6. Duração: 70 minutos.

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