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Cena da montagem de 'Dois Perdidos numa Noite Suja', com direção de Marcelo Marcus Fonseca- Kym Kobaiashi / Divulgação
São Paulo
O motor de "Dois Perdidos numa Noite Suja" reside na exploração da exclusão social. As figuras de Tonho e Paco, muito próximas do arquétipo do pícaro, são corpos tensionados pela solidão e pela luta diária pela sobrevivência. Seus diálogos, essenciais e ritmados, expõem sem mediações o racismo, a homofobia e a misoginia naturalizados em uma margem social cujo único horizonte é a persistência no dia seguinte.
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A escolha do Teatro do Incêndio, localizado no Bixiga, não é casual. O bairro, com sua história ligada ao trabalho, à imigração e à precariedade urbana, funciona como extensão física do drama, intensificando a leitura da marginalidade como herança geográfica.
A direção de Marcelo Marcus Fonseca estabelece a palavra como pilar, valorizando a capacidade do texto de Plínio Marcos de orquestrar tensões através da fala, onde a linguagem recupera sua potência no palco. Essa verbalização tensa prepara o terreno para a intervenção sonora, que atua como condutor dramático, sublinhando a fatalidade social com uma batida que anuncia o colapso.
A relação entre Tonho e Paco define-se pelo aprisionamento mútuo à condição de subtrabalhadores informais. Tonho, interpretado por André Pottes, encarna a frustração de quem internalizou a promessa meritocrática. Vindo do interior e com alguma instrução, seu fracasso é materializado pelo sapato estragado, objeto que ele culpa por impedi-lo de alcançar um "emprego de gente". Leia também: Malik volta ao noticiário após novo desdobramento
Paco, por sua vez, representado por Fonseca, personifica o cinismo pragmático. Semianalfabeto e adaptado à vida à margem, ostenta um sapato novo, sugestivamente adquirido por meios ilícitos. Ele opera a inversão de valores: a marginalidade, e não a instrução, torna-se a via de acesso a bens de consumo.
A disputa pelo calçado vai além da necessidade física para tornar-se símbolo. O sapato novo de Paco e o estragado de Tonho articulam a falência humana diante de um poder financeiro que esmaga a consciência. É um fetiche que mede dignidade e status em um sistema que nega ambos.
O jogo de atuação constrói-se a partir dessa tensão insuportável. O trabalho corporal dos atores é preciso, utilizando objetos essenciais e gestos calculados. Essa precisão incorpora elementos brechtianos de distanciamento crítico. Em vez de uma representação emocional do conflito, a performance expõe a lógica da violência. O distanciamento força o espectador a analisar o ato final como consequência inevitável de uma falência sistêmica, deslocando o foco do indivíduo para a estrutura que produz a tragédia.
Três perguntas para.
. Marcelo Marcus Fonseca Mais de entretenimento
"Dois Perdidos" continua super atual. Para você, o que, especificamente, no texto do Plínio Marcos dialoga mais fortemente com o Brasil de hoje? A peça ganhou novas camadas de significado nas últimas décadas?
Vivemos em um país em convulsão, em uma cidade e um estado violentos e opressores, onde uma polícia letal e a desumanização chega por meio do desmonte da cultura, o descaso com a educação e um projeto de embrutecimento do cidadão e da cidadã com fins eleitorais e financeiros. Como bem observava o Plínio, a política, em geral, não trabalha pela população, mas pela tutela do povo. E atualmente vivemos um ataque à cultura e à ciência no interesse de um processo de desinformação no sentido de minar a capacidade de pensar da população, principalmente aquela mais afetada pelo sistema capitalista predatório que tira o direito ao descanso e lazer. Cultura é um direito fundamental em que a saúde emocional das pessoas é privilegiada, coibindo a violência.
Plínio Marcos é uma voz muito viva contra essa autoridade que promove a pobreza e a ignorância. Que cala direitos fundamentais de liberdade conquistada pela prática do entendimento do outro, de que pessoas precisam ser assistidas e não insufladas de ódio, de cegueira, virando objeto útil nas mãos de poderosos. São Paulo é isso, desumana. E esses personagens podem estar na sua esquina, matando por notícias falsas, descontrolados, completamente loucos pela arrogância de alguns governantes. Leia também: Roteiro lista 26 endereços para comer: o detalhe que mais repercutiu
A única saída é a Cultura, que permite perceber nuances e julgar com referências o modo de viver. A cultura tradicional popular está sendo massacrada por uma religião falsa e, dessa forma, vai-se perdendo (e resistindo) um modo de ensino e compreensão do mundo. Mário de Andrade disse: "a estética tem função social". A obra de Plínio é popular e ao mesmo tempo erudita. Ela é democrática e, em seu diálogo enxuto, de camadas humanas que só os grandes dramaturgos da história conseguiram alcançar.
A sonoplastia é um condutor dramático que anuncia o colapso. Poderia detalhar como foi a construção dessa paisagem sonora? Ela dialoga com que gêneros ou sons urbanos específicos para criar essa sensação de fatalidade?
A criação sonora foi fruto de escuta mútua. Foi construída junto ao trabalho de atuação. Assim como o jogo de cena que nasceu do improviso total, a presença da música desde o primeiro dia ajudou na construção da "cidade" em torno dos personagens e da pensão onde vivem. Ela, em si, é um terceiro personagem e muitos sons foram gravados ou no entorno do teatro ou durante os ensaios, sendo reproduzidos como ecos das falas dos atores e servindo de estímulo ao jogo de cena daquele dia.
Foi– é– um trabalho de sensibilidade mútua. Assim como o espetáculo, a música também não foi "marcada". Nem uma coisa nem outra, partiu de uma ideia preconcebida, um conceito, mas de um acordo de cena, onde tudo foi permitido. A musicalidade do texto guiou o trabalho de figurino a iluminação, de cenografia a música, de interpretação a adereços. No fundo, todas as respostas estavam no autor: ritmo, movimento, emoção, som.
De que maneira o espaço do teatro e a história do bairro influenciaram diretamente as suas opções de encenação? O público que vem do centro expandido, por exemplo, experimenta a peça de forma diferente?
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