Atuações do Botafogo volta ao centro do debate na temporada
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"Toda nossa gestão estará no coração de vocês". A frase dita por Leila Pereira em um evento no fim de semana, na sede social do Palmeiras, ajuda a explicar uma das grandes forças da presidente dentro do clube. Logo depois, ela emendou a razão: "por ser uma gestão que sempre pensou nos associados". É um discurso que já virou conhecido nas Alamedas de Palestra Itália. Leila construiu sua popularidade entre os sócios com uma combinação de títulos no futebol, reformas, shows e eventos. Os associados são, afinal, seus eleitores.
Só que há uma mudança importante acontecendo no Palmeiras. O clube pode até estar mais bonito, mais equipado e com uma sede social mais ativa, mas futebol e contas já não caminham com a mesma tranquilidade dos primeiros anos da gestão.
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Leila decidiu fazer um movimento que não combina tanto com a imagem de administradora que construiu. Está dando um all-in na temporada. Contratou nomes como Marlon Freitas, Barboza e Árias, segurou jogadores que receberam propostas e montou uma estratégia em que o resultado esportivo passou a ter um peso ainda maior no equilíbrio do projeto.
É uma aposta calculada. Mas é uma aposta. A diretoria, por sua vez, jura que é um risco calculado, mas há algumas variáveis que ninguém controla nessa equação. Não é, portanto, um all-in em que o resultado do fracasso vai ser um clube quebrado, mas um elenco que pode sofrer bastante modificação.
Nos bastidores, Leila trata a permanência de Abel Ferreira como parte central dessa estratégia. A presidente não cogita demitir o português, mesmo com a pressão sobre o treinador aumentando e com a sensação de que ela começa a ficar cada vez mais isolada na defesa do comandante. A leitura dela é simples: se o Palmeiras investiu para ganhar, não faria sentido interromper agora o trabalho de quem, na visão da presidente, é o principal responsável pela possibilidade de transformar esse investimento em taça. Leia também: Brasileirão volta ao centro do debate na temporada
O problema é que essa convicção começa a colocar uma coisa bastante mais objetiva na mesma equação: o caixa.
A Libertadores é a obsessão de Leila. Com mais um ano e meio de mandato antes de deixar o Palmeiras, ela considera a ausência de um novo título continental um buraco importante em sua passagem pelo clube. É por isso que a presidente resolveu privilegiar o elenco atual, mesmo quando aparecem oportunidades interessantes de mercado.
Allan e Flaco López estão entre os jogadores que receberam propostas e não foram liberados. A decisão preserva o potencial esportivo do time, mas tem um efeito colateral financeiro bastante concreto. Como mostrou o UOL, no programa Finanças do Esporte, a diferença entre o que o Palmeiras tem a receber e o que precisa pagar supera os R$ 500 milhões. Ao mesmo tempo, a previsão orçamentária feita pela própria gestão contava com R$ 400 milhões em vendas de jogadores para ajudar a fechar as contas. Como não o fez, já adiantou receitas para manter o fluxo de caixa.
É aqui que aparece a parte mais curiosa do all in de Leila. Um clube conhecido por ter colocado a responsabilidade financeira como uma espécie de cláusula pétrea de sua administração passou a depender, em parte, do desempenho esportivo para resolver um problema financeiro, um rumo diferente do que sempre
A conta pode fechar. Mas precisa acontecer muita coisa para isso. A administração tem argumentos para dizer que a situação está sob controle. O histórico financeiro do Palmeiras é bom, o clube tem ativos valiosos e existem alternativas. Pode ganhar campeonatos, vender jogadores formados na base, negociar atletas que pertencem ao clube mas não estão sendo utilizados ou fazer uma grande venda do elenco profissional em dezembro. Mais de esporte
Só que cada uma dessas soluções carrega uma condição. E a principal delas é tempo.
Se o Palmeiras chegar às finais e conquistar títulos, a equação fica muito mais confortável. Uma tríplice coroa poderia representar pouco mais de R$ 300 milhões em premiações adicionais, além de aumentar bilheteria, sócio torcedor e outras receitas comerciais. A conta poderia ser ainda maior com a participação em Intercontinental de Clubes e nas recopas no ano que vem.
Só que esse dinheiro não existe hoje e não pode ser colocado no caixa antes de ser conquistado. E nem todo o valor das premiações chega efetivamente ao clube, por causa de impostos e dos bônus pagos a jogadores e funcionários pelo desempenho. Normalmente, a quantia que efetivamente entra no caixa fica perto de 50% do conquistado. Leia também: formula 1 ao vivo
Ou seja: há uma espécie de aposta cruzada. Leila aposta em Abel para ganhar títulos, e o equilíbrio financeiro passa a torcer para que Abel ganhe esses títulos. É uma mudança importante no modelo de gestão.
Quanto antes o Palmeiras for eliminado das competições, maior fica a pressão sobre as contas e mais importante será a necessidade de vender jogadores em dezembro. E aí a presidente terá menos poder de escolha. O mercado europeu costuma ser mais forte no meio do ano, não no fim da temporada. Além disso, ninguém sabe hoje qual será o valor de mercado de Allan, Flaco López ou qualquer outro jogador daqui a quatro meses, nem quais propostas aparecerão.
O desempenho esportivo virou uma variável financeira. Isso explica também por que a pressão sobre Abel não é apenas uma questão de futebol. Leila colocou fichas demais no elenco e decidiu não fazer caixa quando poderia ter feito. Agora precisa que o time entregue. Uma eliminação precoce não significaria apenas mais uma frustração esportiva. Poderia acelerar a necessidade de uma mudança de rota na política de vendas.
A situação remete, com diferenças importantes, a 2019, último momento em que o Palmeiras precisou praticamente resetar sua política de investimentos depois de um período de gastos elevados, ainda sob Maurício Galiotte. O clube conseguiu reorganizar a casa e, pouco depois, conquistou a Libertadores de 2020, em uma campanha que também teve papel relevante dos jogadores formados na base. Ou seja, a ideia era priorizar o caixa mesmo que isso significasse queda dentro de campo. E o que aconteceu foi justamente conquistar taças.
Leila, porém, vive um momento diferente. Seu relógio está correndo e não há no horizonte uma chance de vender Endrick, Estêvão ou Vitor Reis, como aconteceu recentemente. Ela tem mais um ano e meio de mandato e deixará o Palmeiras. Paralelamente, já existe a movimentação política em torno de uma possível ida para o Vasco, o que alimenta dentro do clube a percepção de que a presidente está mais próxima do fim de seu ciclo do que do começo e nem tão preocupada quanto já esteve.
Reportagem
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