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Juros altos e busca por proteção em meio à guerra pressionam criptomoedas

Matheus dos Santos São Paulo A perspectiva de juros mais altos no mundo e a guerra entre EUA, Israel e Irã têm pressionado os ativos de risco e afetado o desempenho dos

Juros altos e busca por proteção em meio à guerra pressionam criptomoedas em
Matheus dos Santos
São Paulo

A perspectiva de juros mais altos no mundo e a guerra entre EUA, Israel e Irã têm pressionado os ativos de risco e afetado o desempenho dos criptoativos. Desde o início de 2026, o bitcoin e o ethereum, os dois maiores do setor, acumulam quedas de 26% e 35%, respectivamente.

Segundo a plataforma de dados CoinMarketCap, ambos representam 69% da capitalização do mercado de criptomoedas. A métrica considera o preço atual e a quantidade de ativos em circulação.

Leia no AINotícia: Economia: Panorama Semanal de Mercado e Cenário Político-Geopolítico

Para analistas, o momento é de maior cautela e seletividade. Ao contrário de 2025, quando avanços regulatórios nos EUA impulsionaram o setor, 2026 é marcado pela pressão de um cenário econômico mais desafiador.

Segundo a Binance, em relatório, um dos principais fatores dessa pressão é a mudança nas expectativas para a política monetária americana. Após reduzir os juros três vezes no fim de 2025, o Fed (Federal Reserve, banco central dos EUA) tem mantido a taxa entre 3,5% e 3,75% ao longo de 2026.

A guerra no Irã é apontada como o principal motivo. O bloqueio de rotas de escoamento de petróleo, como o estreito de Hormuz, pressiona a inflação global. Leia também: Trump afirma que EUA e Irã reiniciam negociações nesta segunda-feira, diz

Para conter a alta dos preços, bancos centrais tendem a elevar as taxas de juros ou mantê-las em patamar elevado, o que aumenta a atratividade da renda fixa e fortalece moedas consideradas mais seguras, como o dólar.

Dados da ferramenta FedWatch, do CME Group, mostram que, no início do ano, 92% dos investidores esperavam um corte de juros nos EUA em janeiro. Em março, na primeira reunião do Fed depois do início do conflito, 92% passaram a apostar na manutenção. Já para a reunião de setembro, 65% agora esperam uma elevação da taxa.

O movimento se refletiu na atratividade do dólar e dos títulos do Tesouro americano. Segundo o índice DXY, que mede o desempenho da moeda dos EUA frente a uma cesta de seis divisas fortes, o indicador acumulava queda de 0,72% em 2026 antes da guerra. Após o conflito, passou a subir 2,41%, acumulando alta de 1,67% no ano.

O rendimento dos Treasuries de dez anos saiu de 4,15% no fim de 2025 para 3,96% em fevereiro, mas voltou a subir e alcançou 4,68%. O avanço é de 53 pontos-base no ano.

"À medida que as expectativas de cortes de juros perderam força e os rendimentos dos títulos subiram em razão das preocupações com inflação, o diferencial dos Treasuries aumentou. Essa abertura da curva tem apresentado uma relação inversa com o desempenho do bitcoin", afirma a Binance. Mais de economia

Thiago Sarandy, diretor da empresa no Brasil, admite a pressão dos juros sobre o setor. "Quando o dólar se fortalece e os juros americanos permanecem elevados, o caixa e os títulos do Tesouro dos EUA voltam a remunerar bem, e boa parte dos ativos que não geram esse rendimento perde atratividade", afirma.

O cenário difere de 2025, quando o setor foi impulsionado pela aprovação do Genius Act nos EUA. A legislação regulamentou as stablecoins e estabeleceu que esses ativos, atrelados ao dólar, deveriam manter reservas equivalentes em títulos públicos de curto prazo ou ativos similares.

Empresas do setor também buscavam a aprovação do Clarity Act, projeto que criaria uma estrutura regulatória para os demais criptoativos. Desde então, a proposta perdeu força no Senado americano. Leia também: O garoto-gênio que previu o futuro, menos o dele

"[O Genius Act] alimentou uma euforia. De lá para cá, porém, o Clarity Act perdeu força. Essa pausa legislativa, somada ao aperto monetário e ao dólar forte, tirou parte do ímpeto do rali inicial e levou o mercado a uma fase de maior cautela", diz Julián Colombo, diretor sênior de políticas públicas e estratégia para a América do Sul da Bitso.

"O dinheiro é um só. É quase um 'rouba-monte': se ele vai para um lugar, deixa de ir para outro. Um exemplo foi o período que antecedeu o IPO da SpaceX, quando houve uma redução da liquidez disponível para outros ativos", diz Colombo.

Nos EUA, os índices S&P 500 e Nasdaq acumulam alta superior a 8% em 2026. No Brasil, o Ibovespa sobe 9,7%. Enquanto as Bolsas americanas têm sido impulsionadas pelo boom da inteligência artificial, a Bolsa brasileira se beneficia da valorização do petróleo, já que a Petrobras representa cerca de 13% do índice.

DEMANDA POR CRIPTOATIVOS CRESCE 135% NO BRASIL

No Brasil, o cenário é de avanço, com o impulso das stablecoins. Segundo dados do Banco Central, a demanda de residentes por criptoativos passou de US$ 6,2 bilhões no primeiro semestre de 2025 para US$ 14,7 bilhões no mesmo período de 2026, alta de 135%.

Os números são inferiores aos registrados pela Receita Federal. Segundo o órgão, apenas as stablecoins USDT, USDC e BRZ movimentaram R$ 327 bilhões, R$ 33 bilhões e R$ 2,7 bilhões, respectivamente, em 2025. Considerando pessoas físicas e jurídicas, o mercado movimentou R$ 505,5 bilhões no período.

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