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JR transforma a Pont Neuf, ponte mais antiga de Paris, numa caverna monumental

Há algo de desconcertante na primeira vez que se vê a obra do alto das margens do Sena

JR transforma a Pont Neuf, ponte mais antiga de Paris, numa caverna monumental

Há algo de desconcertante na primeira vez que se vê a obra do alto das margens do Sena. A Pont Neuf, a ponte mais velha de Paris, desapareceu. No lugar da pedra secular e dos arcos familiares, surge uma formação rochosa que parece ter brotado das profundezas do rio —uma caverna de 120 metros de comprimento e até 18 metros de altura, toda em tons de branco, preto e cinza, que apaga a elegância clássica da cidade e põe no seu lugar algo ancestral, bruto, quase pré-histórico.

Quem passa pelos cais ou atravessa uma das pontes vizinhas chega à beira, olha duas vezes e fica ali parado, tentando resolver a equação visual. A sensação pode ser a de um monte coberto de neve, pode ser a de uma cordilheira em miniatura encaixada entre a Île de la Cité e a Rive Droite. Pode ser simplesmente o espanto de ver Paris ser outra coisa.

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É essa desorientação calculada que o artista e fotógrafo JR passou anos preparando. " La Caverne du Pont Neuf", ou a caverna da Pont Neuf, sua intervenção mais ambiciosa até hoje, é uma estrutura inflável revestida de tela impressa que recria a aparência irregular do calcário extraído das pedreiras da região de Oise —a mesma pedra com que a ponte foi construída há mais de quatro séculos.

Apesar da aparência monumental, a obra pesa apenas cinco toneladas —ar e tecido criando a ilusão de rocha. O artista quer revelar o que está escondido sob a superfície. "

Quero convidar os visitantes a se aproximarem ao máximo das fendas da ponte, a revelar o que se esconde sob a superfície desse monumento histórico. " A obra nasce como homenagem a Christo e Jeanne-Claude, que em setembro de 1985 embrulharam a Pont Neuf em tecido cor de arenito, atraindo 3 milhões de pessoas. Leia também: Após auxiliar mulheres que buscam credibilidade pela roupa, Thais Farage estuda

O artista JR tinha dois anos na época —não viu nada. Mas a obra o marcou de longe. "

É ao mesmo tempo uma honra extraordinária e um desafio considerável", diz. "Sempre me senti muito próximo do trabalho deles. Compartilhamos o mesmo princípio de autofinanciamento, sem logotipos, para preservar a pureza da obra.

" Sua caverna não recebe um centavo de dinheiro público e é financiada pela venda de obras do próprio JR e por apoios privados. Mas se Christo envolvia, cobria, escondia —transformava o monumento numa presença estranhamente ausente, drapeada em tecido suave—, JR escolhe o caminho inverso.

Ele escava, aprofunda, abre. A Pont Neuf não desaparece sob a tela. Ela se torna outra coisa, mais antiga do que ela mesma.

É exatamente essa tensão que a obra explora. A escolha da caverna não é casual. O artista a ancora no mito de Platão. Mais de entretenimento

" O filósofo fala de percepção, ilusão, verdade —temas totalmente contemporâneos. Hoje, nossas 'sombras' são nossos telefones, nossas bolhas de algoritmos que nos encerram em versões diferentes do mundo e nos polarizam.

A arte não dá respostas, ela levanta perguntas", diz JR. Para quem começou pichando muros nas periferias parisienses na adolescência, há uma camada adicional nessa arqueologia. "

Voltar à caverna é voltar às origens do mundo e aos primeiros traços humanos, a vontade de dizer 'estou aqui' através de grafites nas grutas. Eu comecei pelo grafite, isso me apaixona. " Leia também: o estado de s. paulo: o detalhe que mais repercutiu

O percurso de JR até a Pont Neuf foi longo e deliberado. Sua "Caverne" é a culminação de uma série de intervenções que exploram o que existe por baixo ou por trás da arquitetura visível. Há dez anos, no Louvre, uma colagem monumental revelou o avesso da pirâmide de vidro —o que havia nas profundezas do museu.

Na praça do Trocadéro, pedreiras imaginárias afloravam sob a Torre Eiffel. Em Florença, fissuras abertas nas fachadas do Palazzo Strozzi deixavam entrever outro mundo por dentro. Há três anos, o Palais Garnier ganhou uma fachada de caverna com passagens de rocha e luz —ensaio direto para o que agora toma forma sobre o Sena, desta vez em escala ainda maior e com a novidade de que o público pode entrar.

Antes de Paris, ele passou pelas favelas. Em 2008, colou fotografias em preto e branco de rostos de mulheres nas paredes do morro da Providência, no Rio de Janeiro, no projeto Women Are Heroes —uma homenagem às que sustentam comunidades sob violência diária. Nas Olimpíadas de dez anos atrás, voltou ao Brasil para instalar figuras monumentais de atletas saltando sobre prédios nas orlas de Botafogo e da Barra da Tijuca.

A técnica é sempre a mesma, o efeito sempre diferente— "trompe-l'oeil", um jogo de perspectiva que engana o olhar, a serviço de uma revelação. Não o que você vê, mas o que você passa a enxergar depois. A dimensão sensorial da "Caverne" é intensa.

O interior da estrutura —atravessável de graça, a qualquer hora do dia ou da noite, por até 700 visitantes simultâneos— foi pensado como "uma travessia simbólica, um avanço em direção ao desconhecido, uma viagem em si". A trilha sonora é de Thomas Bangalter, ex-Daft Punk, que assina uma composição original para o espaço. A realidade aumentada, via aplicativo e óculos Snap Spectacles, acrescenta uma camada digital ao percurso físico.

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