Entretenimento: O que marcou a semana | Panorama Folha
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Brian Raftery
Los Angeles | The New York Times
Há dois anos, uma imagem perturbadora surgiu para John Carpenter enquanto ele dormia. Era uma catedral abandonada com dois elevadores em seu interior, capazes de levar seus passageiros até profundezas insondáveis.
Para a maioria das pessoas, esse quadro noturno seria considerado um pesadelo. Para Carpenter, porém, foi só um sonho inspirador —o mais recente de uma longa série de visões aterrorizantes que marcaram a carreira do cineasta.
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Carpenter é um gigante do terror desde 1978, quando "Halloween" —o suspense de baixo orçamento que dirigiu, corroteirizou e musicou— inaugurou o gênero slasher moderno. Depois vieram mais de uma dúzia de longas, muitos deles mesclando ficção científica, ação e crítica social, como o sangrento suspense paranoico "O Enigma de Outro Mundo" e o filme de invasão alienígena da era Reagan "Eles Vivem".
Ainda assim, Carpenter, cujo filme mais recente foi lançado em 2010, não tinha interesse algum em levar aqueles elevadores sinistros às telas.
"Dirigir é estressante demais", disse ele numa entrevista em junho, enquanto relaxava em seu escritório em Hollywood. O local fica numa rua pontilhada por casas com cercas de madeira, não muito diferente dos bairros suburbanos aconchegantes aterrorizados em "Halloween". Leia também: Entretenimento: O que marcou a semana | Panorama Folha
Vestindo camisa preta de mangas compridas e calça preta, com os cabelos grisalhos presos para trás, Carpenter apontou para o próprio rosto, aos 78 anos, e sorriu: "Eu nem sempre tive esta aparência. É isto que acontece quando você dirige. É como trabalhar em uma mina de carvão".
Em vez de voltar para trás das câmeras, Carpenter adaptou seu sonho sombrio para "Cathedral", uma história de terror dividida entre uma graphic novel e um álbum de hard rock (o livro foi lançado na terça; o álbum saiu na sexta). A HQ, escrita por Carpenter junto da mulher, Sandy King, e Sean Sobczak, segue um grupo de policiais de Los Angeles que se aventura nas entranhas de uma igreja abandonada no centro da cidade após um assassinato brutal.
As criaturas ferozes e as paisagens fantásticas que eles encontram se refletem na agressiva trilha sonora de "Cathedral", que reúne riffs de guitarra pesados, baterias implacavelmente propulsivas e sintetizadores gélidos. Carpenter participou da composição e da execução das 14 faixas junto de seus colaboradores habituais: seu filho, Cody Carpenter, 42, e seu afilhado, Daniel Davies, 45, ambos multi-instrumentistas.
Sentados ali perto, seus companheiros de banda protestaram em uníssono. Eles estavam reunidos na sala da frente do escritório de Carpenter, onde uma máquina de pinball de Michael Myers e uma estátua gigantesca de Nosferatu espreitavam em um canto.
"Cathedral" é o quinto álbum de estúdio do trio em pouco mais de uma década. Nesse período, Carpenter passou de autor do cinema de terror a roqueiro profissional, conhecido por instrumentais ameaçadores e shows sinistros. Mais de entretenimento
Pode parecer uma mudança improvável de trajetória criativa. Mas faz sentido para ele, que tocou a vida inteira. Ele cresceu em Bowling Green, no Kentucky, filho de um professor de música que o incentivou a aprender vários instrumentos. Embora não se assustasse com facilidade —assistiu ao filme "A Maldição de Frankenstein", de 1957, quando tinha só 9 anos —, a perspectiva de levar um violino para sua escola rural o enchia de pavor.
"Eu fazia parte da orquestra e precisava carregar aquele estojinho", recordou Carpenter. "Eu virava um alvo. Aqueles garotos do interior ficavam esperando para me atacar. Eu queria me livrar daquilo o mais rápido possível."
À medida que crescia, Carpenter descobriu bandas como The Doors e The Byrds. Por fim, trocou o violino pela guitarra e começou a tocar covers. A formação musical foi útil quando se mudou para Los Angeles, no fim da década de 1960, para estudar na Universidade do Sul da Califórnia. Leia também: Morre o artista Carlos Adão, que pintava seu nome pelos muros do Brasil, aos 73
Foi lá que se familiarizou com sintetizadores modulares, que se tornaram uma marca registrada de suas primeiras trilhas sonoras. Para o sombrio drama de ação de baixo orçamento "Assalto à 13.ª DP", de 1976, Carpenter criou faixas eletrônicas pulsantes e inquietas, ameaçadoras sem serem opressivas.
O uso de sintetizadores permitia que Carpenter economizasse dinheiro e trabalhasse rapidamente. Ele compôs a trilha sonora de "Halloween" em três dias, incluindo o tema principal: uma combinação vibrante de sintetizadores assombrosos e notas insistentes de piano, tudo executado em compasso 5/4, que o pai de Carpenter lhe ensinara nos bongôs.
Nas décadas seguintes, Carpenter compôs para quase todos os seus filmes, muitas vezes trabalhando com seu colaborador de longa data Alan Howarth. Para o terror sobrenatural "O Príncipe das Sombras", de 1987, a dupla recorreu a discretos e ameaçadores repiques de teclado e breves progressões de acordes.
"A música do filme não é complicada", disse Kyle Dixon, um dos criadores da trilha da série de sucesso "Stranger Things". "Mas é sombria e assustadora, com o baixo pulsando e melodias entrando e saindo. Você sabe que algo estranho vai acontecer."
No início da década de 2010, Carpenter trabalhava em músicas em casa, onde frequentemente recebia a companhia do filho e de Daniel Davies. Os três tocam juntos, de maneira recreativa ou profissional, há décadas.
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