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Japonês do século 20: ele forjou a alma do Monozukuri e seu legado

Dizem no Japão que um verdadeiro shokunin — o artesão dedicado de corpo e alma ao seu ofício — não vê uma máquina apenas como um emaranhado de ferro e óleo, mas como uma

Japonês do século 20: ele forjou a alma do Monozukuri e seu legado

Dizem no Japão que um verdadeiro shokunin— o artesão dedicado de corpo e alma ao seu ofício— não vê uma máquina apenas como um emaranhado de ferro e óleo, mas como uma extensão da própria vida. No início do século 20, enquanto o mundo Ocidental acelerava a passos largos rumo à industrialização em massa, nascia no interior do Japão um garoto que, de certa forma, se tornaria um shokunin por excelência e, ao longo de sua vida, levaria a filosofia do monozukuri (a arte e a ciência japonesa da manufatura perfeita) a patamares globais. É comum encontrar o nome de Soichiro Honda associado a clichês de superação.

Mas a verdade é ainda mais fascinante: ele não foi apenas um homem que “quebrou a cara” e se ergueu. Ele foi um visionário impulsivo, um gênio da mecânica que desafiou o governo japonês, as montadoras gigantes do Ocidente e o próprio destino de um país devastado pela guerra. Quando lembramos dos grandes nomes por trás da indústria automotiva do século passado— como Henry Ford ou Ferdinand Porsche —, falamos de pioneiros que ajudaram a inventar o próprio automóvel.

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A Honda, por sua vez, nasceu muito depois, em 1948. Carros e motos já dominavam o Ocidente, e o mercado era um oceano tomado por gigantes consolidadas. Para sobreviver e triunfar naquele cenário, era preciso ter uma alma inabalável e mover-se por aquilo que os japoneses chamam de Yume no Chikara (夢の力)— o conceito que o mundo mais tarde conheceria pelo slogan The Power of Dreams.

As forjas de Shizuoka A história de Soichiro começou em na pacata vila de Komyo, na província de Shizuoka, à sombra do Monte Fuji. Ele era o filho primogênito de Gihei Honda, um ferreiro de mãos calejadas e talento ímpar, e de Mika, uma costureira de paciência infinita.

Em uma época em que o Japão rural quase não conhecia os motores a combustão e os raros automóveis importados eram privilégio da alta aristocracia, o pequeno Soichiro cresceu respirando a fumaça da forja do pai. Ele não gostava das salas de aula convencionais, mas era capaz de passar horas hipnotizado observando o trabalho manual da família. A grande chama da curiosidade acendeu-se quando seu pai expandiu seus serviços e abriu uma oficina de conserto de bicicletas. Leia também: Crise Migratória: Espanha Reforça Fronteiras após Entradas em Ceuta e Melilla

Em uma época em que o desperdício era um tabu cultural, Gihei reunia bicicletas quebradas, recuperava peça por peça e as revendia por preços acessíveis. Ali, Soichiro aprendeu os segredos da mecânica e a alegria de dar vida nova ao ferro. Contudo, a epifania de sua vida aconteceu quando viu, pela primeira vez na infância, um automóvel cruzar a poeira de sua vila.

Anos mais tarde, ele confessaria que jamais esqueceria o cheiro de fumaça e óleo que aquele veículo deixou no ar. Em 1922, aos 15 anos, movido por aquele aroma inesquecível, Soichiro viu num anúncio de revista a oportunidade de sua vida: a oficina Tokyo Art Shokai, na capital, procurava aprendizes. Sem hesitar, deixou os estudos formais para trás e partiu para Tóquio.

Os primeiros meses foram duros. Em vez de mexer em motores, o jovem foi incumbido de cuidar do filho pequeno do dono da oficina. Mas o espírito de resiliência e paciência, ou gaman, falou mais alto.

Soichiro não reclamou e aproveitou cada segundo livre para devorar o funcionamento das máquinas. Logo, o proprietário da oficina, Yuzo Sakakibara, percebeu a genialidade intuitiva do garoto e o tomou como discípulo. Sakakibara ensinou a Soichiro não apenas os meandros da alta mecânica, mas a arte da gestão e o respeito pelo cliente.

Tóquio era uma metrópole fervilhante onde o automobilismo começava a conquistar a elite. A Art Shokai decidiu construir seus próprios carros de corrida, e o projeto mais ambicioso foi o lendário Art Curtiss Special, montado sobre o chassi de um carro comum com um V8 de 8,2 litros e 90 cv retrabalhado de um avião caça Curtiss A-1, vindo direto da Primeira Guerra Mundial. Na 5ª Competição de Automóveis do Japão, em novembro de 1924, o Art Curtiss Special cruzou a linha de chegada em primeiro lugar. Mais de noticia

Ao lado do piloto, na função de mecânico de bordo, estava o jovem Soichiro Honda, com apenas 17 anos. Aos vinte, Soichiro foi chamado para o alistamento militar obrigatório, mas foi salvo por uma notícia que tinha tudo para ser ruim: o exame médico diagnosticou que ele tinha daltonismo. Considerado inapto para o exército imperial, ele pôde continuar seu treinamento civil na mecânica.

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Em 1928, demonstrando total confiança no jovem de 21 anos, Sakakibara deu a Soichiro a missão de abrir e chefiar uma filial da Art Shokai na cidade industrial de Hamamatsu. De um único funcionário, a oficina cresceu sob seu comando para 30 mecânicos em poucos anos. Soichiro não se limitava a consertar: criou um dos primeiros elevadores hidráulicos do Japão para automóveis, eliminando a necessidade de os mecânicos trabalharem deitados na sujeira.

Por suas patentes e criatividade sem limites, ganhou da população local o apelido respeitoso de “ O Edison de Hamamatsu”. Foi também nesse período que conheceu Sachi, uma mulher culta e forte que se tornaria sua companheira para a vida toda. Leia também: Trump diz que há acordo para desarmar Hamas e outros grupos de Gaza

A paixão pela velocidade continuava viva. Soichiro construiu seu próprio carro de corrida, batizado simplesmente “Hamamatsu”. Porém, em, durante a inauguração do circuito Tamagawa Speedway, Soichiro sofreu um acidente terrível.

Ao tentar desviar de um retardatário a mais de 100 km/h, o carro capotou repetidamente. Soichiro sobreviveu por milagre, mas seu irmão mais novo, Benjiro, que atuava como seu mecânico, fraturou a espinha. Embora tenha disputado outra corrida meses depois, Soichiro acabou deixando a pilotagem de lado para focar-se nos negócios.

Anos mais tarde, ele declarava publicamente que havia abandonado o automobilismo por insistência e pedido de sua esposa. Contudo, a própria Sachi desmentiu a história anos depois: segundo ela, não fora um pedido dela, mas sim um sermão categórico e severo do velho Gihei Honda que o fez criar juízo e desistir de arriscar a vida atrás do volante. Das cinzas da guerra Ainda em 1936, Soichiro percebeu que o futuro não estava em apenas consertar veículos, mas em fabricar componentes em massa.

Ele decidiu criar anéis de pistão— uma das peças mecânicas mais complexas e de maior precisão técnica em um motor. Seus sócios na Art Shokai recusaram a ideia por achá-la arriscada demais. Sem pestanejar, Honda buscou financiamento externo com o empresário Shichiro Kato e fundou a Tokai Seiki Heavy Industry.

Trabalhando na Art Shokai de dia e virando noites no laboratório da Tokai Seiki, levou três anos para conseguir produzir seus primeiros anéis de pistão. Confiante, ofereceu as peças à gigante Toyota Motor Company. O resultado foi desastroso: do primeiro lote com 50 peças entregues, apenas 3 foram aprovadas pelo rigoroso controle de qualidade da Toyota.

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