Bom senso e pânico
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Laura Intrieri
São Paulo
A Folha voltou a ouvir, três meses depois, os eleitores indecisos que entrevistou em março para saber como avaliam a disputa presidencial até aqui. A campanha ainda não começou oficialmente, mas a pré-campanha já produziu novas frustrações, cálculos de voto útil e expectativa de que os debates ajudem a separar promessa de viabilidade.
Entre cinco entrevistados ouvidos novamente, a indecisão mudou de forma. Há quem diga que anularia o voto se a eleição fosse hoje, quem caminhe para Lula (PT) por defesa da democracia, quem cogite votar no petista a contragosto e quem veja no senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a alternativa mais viável para derrotar o atual governo.
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"Acho que, no final, vou acabar votando em Lula, mas com uma revoltazinha por causa da educação", diz o professor aposentado Almir Barros Costa, 72, de Salvador. Ele afirma que anularia o voto se a eleição fosse hoje. Rejeita Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD) e não vê em Flávio a moderação que esperava.
Almir voltou a dar aulas na rede estadual da Bahia e coloca a educação no centro de sua avaliação. Relata salas cheias, dificuldade de impor respeito, quadra descoberta e problemas de estrutura na escola. "O país está com a educação falida", afirma. A crítica recai sobre governos locais e sobre Lula, mas não basta, por ora, para levá-lo ao voto na direita.
Em São Paulo, Sandra Roque, 50, também voltou ao ponto de partida. Supervisora comercial, ela chegou a se inclinar por Zema quando o ex-governador de Minas Gerais se contrapôs ao STF (Supremo Tribunal Federal), mas diz ter se decepcionado com o que considera falta de firmeza: "é um banana". Dias após o mineiro ter criticado duramente Flávio em razão dos áudios vazados no caso Dark Horse, os dois se reencontraram e brindaram, numa relação que pode ser considerada instável. Leia também: Sucessão do Congresso e disputa eleitoral deixam Motta e Alcolumbre em lados
Sobre o filho de Jair Bolsonaro (PL), Sandra afirma não saber até que ponto pode confiar em "uma montanha-russa".
A supervisora acompanha rádio, TV e programas de entrevistas, mas afirma que nenhum nome lhe deu clareza. Rejeita Caiado (PSD), conhece pouco Renan Santos (Missão) e diz que, se a eleição fosse amanhã, anularia. "Não vou ser nem o bombeiro nem quem vai jogar gasolina", afirma.
O agrimensor Nissen Cabral Jr., 65, de Dourados (MS), diz que pode votar em Lula, mas não por adesão ao governo. A escolha, segundo afirma, passa pela defesa da democracia, da Constituição, do STF e da liberdade de imprensa. "Vou definir meu voto no primeiro debate nacional", diz.
Nissen faz ressalvas à política fiscal do governo e está incomodado com o que vê como "pacote de bondades" em ano eleitoral. Profissional liberal que atua na regularização de terras, afirma ter sentido queda na procura por seus serviços nos últimos meses. Mesmo assim, vê Lula como o único nome, entre os que se colocaram até agora, capaz de sustentar a ordem democrática.
No Amazonas, Rui Leno Macedo de Moraes, 37, cacique da etnia Baré, fez o movimento oposto. Em março, dizia recusar as categorias impostas pela polarização. Agora o posicionamento é outro. "Eu votaria no Flávio, direto no primeiro turno, para aumentar a chance de ganhar", afirma. A decisão não vem de entusiasmo, mas da percepção de que as políticas públicas federais não chegam à base indígena que representa. Mais de politica
Rui afirma gostar da contundência de Renan Santos e vê experiência administrativa em Zema, mas considera que ambos têm pouca força eleitoral. Também aprova a articulação de Flávio junto aos Estados Unidos para endurecer o combate ao PCC e ao Comando Vermelho, tema que associa ao avanço das facções na região onde vive.
"Estou com tanta coisa acontecendo na minha vida que não tive cabeça de pensar em política", diz Ednilza Jacinto de Oliveira, 53, auxiliar de cozinha em Peruíbe, no litoral paulista. Ela saiu do aluguel, passou a morar na casa da idosa de quem cuida e segue em busca de trabalho fixo. Recebe Bolsa Família e defende a continuidade do programa, desde que haja controle e qualificação para o mercado.
Se a disputa ficar entre Lula e Flávio, Ednilza diz não ter "grandes expectativas". Afirma conhecer pouco o filho de Bolsonaro e considerar um eventual voto nele um "tiro no escuro". Entre os nomes fora da polarização, cita o escritor Augusto Cury (Avante), de quem diz gostar como leitora. Leia também: 'Misantropia': Conselho de Direitos Humanos aciona MPF para apuração
O cartunista André Guedes, 45, diz ainda não estar pronto para endossar Renan Santos, apesar de se identificar com as ideias dele. Espera pelos debates para medir a "maturidade" do pré-candidato.
O caso do Banco Master "é a única coisa que une esquerda e direita no Brasil", diz. O carioca afirma estar distante dos nomes no Rio, estado em crise institucional sem precedentes com o desmanche da linha sucessória do Palácio das Laranjeiras.
"Eu meio que desisti daqui. Parece que é a cloaca de tudo de ruim que acontece na política."
"Esse Vorcaro era aquela coisa maligna. Ele atrai todos os malignos para ele", diz.
Hoje, afirma que votaria em Zema se a eleição fosse amanhã, mas condiciona esse apoio ao comportamento do Novo. Para ele, o partido precisa provar que não repetirá práticas que associa às siglas tradicionais, como alianças de conveniência e concessões a aliados sob suspeita.
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