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Hollywood perde monopólio da estética, vira esponja das redes e se rende

Antes mesmo de " A Odisseia", de Christopher Nolan, estrear nos cinemas, um detalhe das primeiras imagens do filme dominou parte da conversa nas redes sociais

Hollywood perde monopólio da estética, vira esponja das redes e se rende à

Antes mesmo de " A Odisseia", de Christopher Nolan, estrear nos cinemas, um detalhe das primeiras imagens do filme dominou parte da conversa nas redes sociais —o rosto de Anne Hathaway. Em vez de discutir a adaptação do poema de Homero, usuários debateram se procedimentos estéticos comprometeriam a credibilidade de uma personagem de quase 3.000 anos atrás ou se as habilidades de atuação da americana estariam comprometidas.

Em meio a comparações do seu rosto no início da carreira e agora, Hathaway disse que não havia feito lifting facial, procedimento que reduz a flacidez do rosto para rejuvenescê-lo, mas que não descarta passar pelo bisturi no futuro. Charlize Theron, também em " A Odisseia", não escapou da discussão e foi acusada de ter um "rosto de Instagram" —caracterizado por "olhos de gato", mais alongados, maçãs do rosto altas e lábios volumosos, inspirado nos filtros que influenciadores popularizaram na plataforma.

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Casos semelhantes envolveram Ariana Grande, pela magreza em "Wicked" ou no recém-lançado clipe "Petal", com ossos aparentes no peito e nas costas; Millie Bobby Brown, por um suposto preenchimento labial na época da temporada final de "Stranger Things"; e Jim Carrey, que no prêmio César gerou especulações de que havia sido substituído por um sósia, tudo graças às bochechas redondas e à pele lisa —agentes do ator negaram a conspiração. Entre um caso e outro, a discussão alcançou os bastidores do audiovisual.

Botox, cirurgias plásticas e medicamentos agonistas de GLP-1, como Ozempic e Mounjaro —as canetas emagrecedoras—, agora interferem na construção de personagens e afetam a percepção do espectador em relação à obra. "É por meio do rosto e de suas microexpressões que as emoções chegam ao espectador", afirma Vanessa Veiga, diretora de elenco de projetos como "Beleza Fatal", ambientado no universo das cirurgias plásticas. "

Quando um procedimento compromete a mobilidade facial ou chama mais a atenção do que a interpretação, ele pode interferir na construção do personagem e até limitar determinadas escalações. " Um franzir de testa ou contração dos lábios projeta emoções que antecedem o diálogo, parte significativa da construção de sentimentos em filmes. Leia também: 'Homem-Aranha volta ao noticiário após novo desdobramento

Luciano Baldan, diretor de elenco de produções como " O Filho de Mil Homens" e "Bruna Surfistinha", diz que "os procedimentos têm deixado as pessoas com o mesmo rosto, sem expressões, o que dificulta que emoções sejam identificadas". A repetição de padrões de beleza contemporâneos em diferentes atores pode tornar difícil transmitir individualidade e verossimilhança aos personagens, limitando suas carreiras.

Nicole Kidman, por exemplo, tem se restringido a papéis de mulheres da elite, em títulos como "Expatriadas" e "Babygirl", após uma série de procedimentos estéticos nos últimos anos. A preparadora de atores Estela Sabiá é mais drástica. "

Quando um artista usa um procedimento desse, ele está mexendo na sua principal ferramenta de trabalho, que é a expressão", afirma. " Isso tira a verdade cênica e a vulnerabilidade."

Segundo o cirurgião plástico Alexandre Piassi, secretário-geral da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, a SBCP, o perfil e a busca dos pacientes mudaram. " Hoje, um bom procedimento é aquele que melhora a aparência sem denunciar que foi realizado", afirma.

" A cirurgia plástica moderna não busca criar um rosto novo, mas preservar a identidade e promover um envelhecimento mais harmonioso. " Mais de entretenimento

O especialista afirma que os medicamentos para emagrecimento também alteraram a rotina dos consultórios. Com canetas emagrecedoras cada vez mais disponíveis, pacientes que perderam muito peso passaram a buscar tratamentos para corrigir flacidez, perda de volume facial e excesso de pele, fenômeno que ficou conhecido como "rosto de Ozempic" —apelido que Ariana Grande recebeu nas redes após "Wicked", junto das colegas de elenco Cynthia Erivo e Michelle Yeoh. Para a historiadora Denise Sant'Anna, pesquisadora da história do corpo e autora do livro "Gordos, Magros e Obesos- Uma História do Peso no Brasil", o avanço desses medicamentos responde a mudanças culturais mais profundas.

" Hoje a magreza fala em nome da saúde, do controle do corpo, da produtividade. É diferente da magreza de 1990, com o 'heroin chic'", diz ela sobre o padrão difundido por supermodelos da época.

Segundo a pesquisadora, num mundo marcado por guerras, instabilidade política, mudanças climáticas e insegurança econômica, "o corpo é visto como a última fronteira que ainda se pode controlar. " A mudança ajuda a explicar o enfraquecimento do body positive, movimento que dominou parte da cultura pop na década de 2010 ao defender a valorização de diferentes corpos e questionar padrões de beleza considerados inalcançáveis. Leia também: Série 'Ted Lasso' e 'Corrida dos Bichos': o que ver na TV e no streaming

O discurso ocupou grandes premiações e desfiles de moda, levou a Mattel a lançar uma linha mais diversa da Barbie e contribuiu para decretar o fim do Victoria's Secret Fashion Show, passarela pop marcada por modelos magras em lingerie. O evento voltou em 2024, após um hiato de seis anos. Durante alguns anos, artistas, marcas e estúdios pareciam obrigados a aderir ao debate.

Artistas como Jonah Hill, Meghan Trainor e Rebel Wilson ficaram populares com obras que exaltavam o plus size. Agora, com um caminho mais curto para emagrecer, o corpo magro voltou a ser um ideal, embora acessível para os que podem pagar por ele. Boa parte da indústria abandonou silenciosamente um discurso que, poucos anos antes, parecia inegociável.

Hill, Trainor e Wilson emagreceram e passaram a exibir silhuetas cada vez mais próximas do ideal estético dominante. Há uma contradição entre o discurso da indústria, que passou a defender maior diversidade de corpos e identidades, e a crescente pressão pela perfeição estética, diz Estela Sabiá, a preparadora de atores. "

Há alguns anos a dramaturgia começou a buscar pessoas reais, atores com ‘cara de gente’. Agora vemos um movimento contrário. Se artistas passam a esconder aquilo que os torna únicos, perdemos parte da potência da atuação.

" Essa mudança também reorganizou a maneira como grandes produções cinematográficas encaram o envelhecimento —como algo a ser combatido. O etarismo, historicamente dirigido às mulheres, passou a atingir também os homens, à medida que a juventude deixou de ser apenas um atributo estético e passou a funcionar como sinônimo de bom desempenho.

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