Boisson: "Passei mais tempo na fisioterapia que em quadra"
Ler matéria →Em um ano que deveria marcar sua despedida do circuito mundial juvenil e início da carreira profissional, Henrique Queiroz precisa enfrentar um adversário ainda mais difícil. Diagnosticado com Linfoma de Hodgkin, o tenista de 18 anos precisou se afastar das competições para tratamento de saúde e sessões de quimioterapia.
Queiroz recebeu o diagnóstico em março, logo depois do Banana Bowl, realizado em Santa Catarina. Foi o último torneio que ele disputou desde então. Com quatro das 12 sessões de tratamento já realizadas, o pernambucano está voltando aos poucos a treinar e tem previsão para retornar às competições em outubro.
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O linfoma de Hodgkin é um tipo de câncer que se desenvolve no sistema linfático, responsável por parte das defesas do organismo. A doença geralmente se inicia nos linfonodos (gânglios), podendo causar aumento dessas estruturas, além de sintomas como febre, perda de peso sem causa aparente e cansaço. O diagnóstico é confirmado por biópsia e exames de imagem, que também avaliam a extensão da doença e ajudam a acompanhar a resposta ao tratamento.
“Como alguns de vocês já sabem nos últimos meses eu passei por uma fase difícil”, escreveu o jovem tenista, em suas redes sociais. “Graças a Deus o tratamento está correndo super bem e eu já tive uma melhora significativa, inclusive voltei a jogar e treinar aos poucos”.
Em entrevista a TenisBrasil, Queiroz conta que sentiu os primeiros sintomas ainda em novembro do ano passado e que a notícia do câncer foi uma surpresa: “Lembro eu estava jogando torneios juvenis na Bolívia e senti uma bolinha no meu pescoço. Incomodava um pouco para sacar, mas nem pesquisei muito sobre isso, só segui jogando. Hoje eu sei que essas bolinhas são os linfonodos que estavam inchados, cada vez crescendo mais”, relatou. “Em nenhum momento, passou pela minha cabeça que poderia ser isso. Tinha acabado de completar 18 anos e acho que nenhum adolescente dessa idade imagina ter um câncer tão cedo”. Leia também: Esporte: Panorama da Semana em Futebol e Estrutura de Clubes
A resposta ao tratamento tem sido positiva: “Atualmente eu já tive uma melhora gigante e estou me sentindo praticamente normal. Deu uma remissão. Quando eu descobri, estava no estágio 3 do linfoma. Agora já voltou para o estágio 1. Então já estou voltando a praticar atividades normais, o médico me liberou para voltar a treinar, o que me deixou muito feliz”.
O apoio recebido pela família, equipe e dos colegas de circuito também foi fundamental. Queiroz destaca principalmente a figura do treinador Leo Azevedo, Head Coach de Rede Tênis, de que se aproximou bastante durante essa fase. “O Léo foi muito importante para mim. Sempre me ligava e fazia questão de saber como estão as coisas, a gente se aproximou muito. E foi essencial essa ajuda. Os médicos falam que a cura depende muito de você, dos seus amigos, de sua família e de como você passa esse tempo”.
Azevedo também falou à reportagem e relembrou a experiência que teve de cuidados com o próprio pai e fica na torcida pelo retorno de Henrique. “Fico muito feliz por escutar do Henrique que eu tô sendo importante nesse processo. Já nos conhecemos há bastante tempo e sempre me dei bem com ele. É um menino que estava vindo numa evolução grande. Mandei alguns livros para ele, logo que começou o tratamento. Ele veio nos visitar. A gente teve conversas boas, estou sempre ligando para a família dele”.
“Mais do que a função de treinador ou não, esse lado humano é muito importante. Quando eu tinha a idade do Henrique o meu pai teve uma leucemia e ali eu aprendi que é muito importante estar perto de quem está fazendo o tratamento e está passando por isso”, acrescentou. “Não só pelo carinho que eu tenho pelo Henrique, mas por ter visto isso. Faço questão de ajudar da maneira que eu posso e sempre estar à disposição para ele. Agora é ficar na torcida para que tudo certo e ele volte ao normal o mais rápido possível”.

Queiroz ocupa atualmente a 231ª posição no ranking mundial juvenil e tem como melhor marca na carreira o 162º lugar, alcançado em fevereiro. Ele disputou sua primeira final no J100 de Chiclayo, no Peru, em novembro, e foi superado num duelo brasileiro contra o gaúcho Pedro Dietrich, além de ter dois títulos de duplas. Natural de Recife, ele disputou dois torneios profissionais em sua cidade natal em 2022 e 2024, mas ainda busca os primeiros pontos na ATP. Mais de esporte
Nos últimos anos, algumas tenistas já tiveram que se afastar do circuito pelo mesmo diagnóstico, como o a russa Alisa Kleybanova, a norte-americana Victoria Duval e a espanhola Carla Suárez Navarro, mas conseguiram voltar às competições e ter bons resultados. “Eu vi essas histórias e isso me anima muito. Minha maior preocupação no começo era de que a doença me prejudicasse pelo resto da vida. Mas saber que essas jogadoras conseguiram passar por isso e figurar entre as melhores me deixa feliz e motivado por saber que eu também posso chegar ao tênis profissional”.
Confira a entrevista com Henrique Queiroz
Você comentou que recebeu o diagnóstico logo depois do Banana Bowl, em março. O que te levou a procurar ajuda médica para o seu caso? O que você vinha sentindo naquele momento? Eu gosto muito de falar sobre o que aconteceu. Recebi o diagnóstico logo depois do Banana Bowl, que foi quando eu senti que ficou mais grave, que tinha alguma coisa errada. Mas tudo começou em novembro. Os médicos não conseguiam apontar como começou e qual o motivo, mas nunca tem um motivo. É sempre com algumas estimativas.
Lembro que eu estava jogando torneios juvenis na Bolívia, nível J200, e senti uma bolinha no meu pescoço. Falei para o meu fisioterapeuta e ele não sabia o que era. Mas como era só uma bolinha, que às vezes incomodava um pouco para sacar, eu nem pesquisei muito sobre isso, só segui jogando. Era uma gira longa, com quatro torneios fora do Brasil e não tinha muito como passar no médico. Disputei o último torneio do ano, que foi em dezembro, e ainda estava com as bolinhas lá, cresciam um pouco. Leia também: Esporte em Destaque: Do Futebol ao Vôlei de Praia
Aí no final de dezembro, eu fui num médico que me indicou a ressonância. E não deu nada muito grave. Mas como eu virei o ano com um ranking mais ou menos bom, eu e o pessoal da minha equipe na Rede Tênis estávamos muito animados para o ano. Eu tinha potencial para evoluir, estava me sentindo bem e treinando bem. A gente teria uma gira de oito semanas entre fevereiro e março e eu só segui com a dor, que as vezes incomodava, mas não sentia que era algo muito grave. Foi passando, eu joguei o J300 da Colômbia, o J300 do Equador e do J300 Peru, onde eu quase desmaiei depois de um jogo. Mas a gente sempre pensava que era por conta do alto rendimento e dos treinos. Era uma rotina pesada.
Aí em Porto Alegre, no Brasil Juniors Cup, foi quando eu comcei a sentir que teve alguma coisa mais grave. Porque desde novembro as bolinhas não desapareceram, elas só cresceram. Eu conseguia contar umas dez no pescoço. Hoje eu sei que essas bolinhas são os linfonodos que estavam inchados, cada vez crescendo mais. E em Porto Alegre eu comecei a sentir uma dor no peito e na axila muito forte, sendo que eu achei que era alguma lesão, por conta do alto rendimento. E como faltavam duas semanas ainda e o Banana Bowl era o sonho de vários meninos ter aquela oportunidade de jogar a chave principal, eu estava muito feliz. Comecei a tomar muito anti-infalamatório para dar uma segurada na dor. Mas foi quando intensificou mais, eu comecei a ter febre todo dia, o remédio já não dava mais conta. Muita sudorese, à noite acordava muito suado, e essa dor no peito.
E assim que acabou o torneio, eu voltei para São Paulo, passei no fisioterapeuta primeiro, e ele falou que isso já fugia um pouco da capacidade dele e me pediu para ir ao hospital. Fui num sábado de manhã e lembro exatamente. O médico deu uma examinada e pediu para eu ficar internado.
E a resposta foi uma surpresa para você? Em nenhum momento, passou pela minha cabeça que poderia ser isso. Eu sempre fui um cara muito positivo. Sempre estava imaginando que ele iria me passar uns remédios e na segunda-feira eu estaria treinando de novo. Inclusive eu tinha uma viagem marcada para um torneio no Paraguai. Mas ele internou, falou que eu precisava fazer mais exames, me falou de uma biópsia e até naquele momento eu nunca fui imaginar que pudesse ser algo mais sério.
Até a minha irmã, que é biomédica, veio de Recife para São Paulo para ficar comigo naquele momento. E no dia que eu descobri, o médico falou que tinha 80% de chance de ser um linfoma. E naquele momento eu não sabia o que era aquilo. Eu lembro de até perguntar para a minha irmã: ‘E aí, Bruna, o que é um linfoma?’ e ela só me disse: ‘Depois eu te explico’. Enfim… Eu lembro dela contando para os meus pais e eles começaram a chorar, só aí que caiu a ficha. Liguei para o meu treinador e foi um momento bem tenso quando eu descobri.
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