
Crédito, Patrícia de Melo Moreira/AFP via Getty Images
- Author, Pedro Martins
- Role, Da BBC News Brasil em Londres
- Published Há 41 minutos
- Tempo de leitura: 8 min
É caminhando sobre o fio de uma navalha que Adriana Varejão, ao lado de Rosana Paulino, construiu o pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza, a mostra de arte mais importante do mundo, que abriu suas portas no último fim de semana.
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Esta tem sido considerada uma das edições mais controversas do evento em seus mais de cem anos, depois que a organização anunciou a reabertura do pavilhão da Rússia, lacrado desde 2022, após a invasão do Kremlin à Ucrânia.
O conflito se intensificou após a organização da Bienal ignorar os artistas que pediam retaliação a Israel por ter, junto dos Estados Unidos, iniciado uma guerra contra o Irã. Os iranianos, aliás, se retiraram do evento.
O presidente da mostra, Pietrangelo Buttafuoco, disse na semana passada que é contra a censura a qualquer artista ou país. Isso levou o júri da mostra, liderado pela brasileira Solange Farkas, a pedir demissão às vésperas da abertura. Leia também: O que foi a Revolução Cultural e como ela moldou a história da China há 60 anos?
O evento promove então uma votação pública para eleger seus vencedores, mas parte dos artistas e países se recusa a receber o Leão de Ouro, a láurea máxima das artes visuais, equivalente ao Oscar no cinema ou ao Nobel na literatura.
Mas Adriana Varejão está acostumada ao fio da navalha. A carioca, de 61 anos, passou suas últimas quatro décadas representando, na pintura e na escultura, os cortes e rasgos figurativos que a colonização deixou na sociedade, algo que ela vê como um processo tão violento quanto as guerras em curso.

Crédito, Andrea Avezzù/Divulgação
Na mostra Comigo Ninguém Pode, exposta no pavilhão brasileiro, Varejão apresenta obras de acervo e inéditas. Entre elas estão as releituras de azulejos portugueses pelas quais ficou conhecida. São 12 pinturas cheias de incisões — como se as peças estivessem quebradas — que subvertem uma expressão central da arte barroca.
Ela exibe ainda uma instalação de quase cem metros que leva as paredes e vigas do pavilhão explodirem em vísceras — moldadas em materiais como tinta óleo, resina e barro —, como se escancarasse a violência por trás das instituições. Mais de mundo
A ideia é que, sob a aparência refinada de certos espaços, está o sangue derramado de tantos brasileiros, algo que se recusa a permanecer invisível em tempos em que reivindicações, principalmente as das chamadas minorias sociais, pressionam estruturas antes vistas como inabaláveis.

Crédito, Andrea Avezzù/Divulgação
Ao menos esta é a interpretação que prevalece entre críticos e curadores de arte. Mas a artista vê com reticência essa leitura, que às vezes se sobressai, segundo ela, à plasticidade de seu trabalho, feito a partir da experimentação de diversas técnicas e materiais, em processos que podem levar meses. Leia também: Os instrutores de fitness criados com IA que prometem resultados irreais
"Enquanto latino-americana, vejo que há uma cobrança para que a gente faça arte política, porque existe uma tradição. Existe uma expectativa de que você, como latino-americano, vivendo nos países colonizados, que tiveram décadas de ditaduras, faça arte crítica, política. Mas as ruínas são a história do mundo, não só do Brasil", ela afirma.
Varejão avalia que, não raro, essa cobrança pode vir da própria América Latina e que, no exterior, sua obra é lida de maneiras diferentes.
Ela se lembra de uma exposição na Espanha, país com tradição da pintura de carne em suas naturezas-mortas, os bodegones, na qual um visitante ficou diante de seus azulejos sangrentos por 40 minutos, em um fascínio que ela acredita estar mais associado ao que ele via concretamente do que aos significados possíveis da obra.
"Não é uma obra só sobre mensagem. Ela não ilustra uma teoria, um assunto", diz ela. "Esse espanhol era um carniceiro e disse que aquilo era uma das coisas mais incríveis que já tinha visto. Pra mim, foi um grande elogio, porque vinha de um homem que lidava com a matéria que eu estava tentando representar."

Crédito, Andrea Avezzù/Divulgação

O ringue político visual



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