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Bárbara Sá
São Paulo
O estado de São Paulo registrou, no primeiro trimestre de 2026, o maior número de feminicídios entre todos os trimestres da série histórica, iniciada em 2018. Foram 86 casos entre janeiro e março —27 em janeiro, 29 em fevereiro e 30 em março—, alta de 41% em relação ao mesmo intervalo de 2025, quando houve 61 registros (22, 20 e 19, respectivamente), segundo dados divulgados nesta quinta-feira (30) pela SSP (Secretaria da Segurança Pública).
Na comparação entre os primeiros trimestres de anos anteriores, o que chegou mais perto foi o de 2024, com 75 casos. O dado consolida uma tendência de crescimento observada ao longo dos últimos anos, com algumas oscilações. Os registros somados de todo o ano passado foram os maiores da série.
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A alta nesse indicador contrasta com a queda observada nas estatísticas de homicídios, roubos e furtos no estado, também divulgadas pela gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) nesta quinta (leia mais abaixo).
Um dos casos de feminicídio registrados neste primeiro trimestre foi o da soldado Gisele Alves Santana, 32, morta com um tiro na cabeça em 18 de fevereiro, no apartamento em que vivia com o marido, no Brás, região central da capital paulista.
A ocorrência chegou a ser tratada inicialmente como suicídio, mas elementos da investigação, como depoimentos e laudos de perícia, fizeram o caso passar a ser tratado como feminicídio pela polícia e pelo Ministério Público. Leia também: PT define líder de nova bancada na Alesp articulada pelo Sindicato
O tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto, 53, com quem a vítima era casada, é apontado como autor do crime e responde na Justiça. Ele está preso preventivamente e nega a acusação.
Para a delegada Monique Ferreira Lima, titular da 6ª Delegacia de Defesa da Mulher, o aumento dos registros exige cautela na interpretação. Os dados não indicam necessariamente que mais mulheres estão sendo mortas, mas, sim, que o estado passou a identificar melhor esses crimes.
Casos que antes eram registrados como homicídios comuns, diz, agora são corretamente classificados como feminicídio, uma tipificação mais recente e que demandou tempo para se consolidar. A lei de feminicídio é de 2015.
A ampliação de canais de denúncia e o fortalecimento da rede de proteção foram adotados pelo estado, segundo ela. Ainda assim, a atuação não é suficiente, reconhece. "A polícia vai continuar prendendo, mas é preciso uma mudança cultural. O feminicídio é resultado de uma estrutura machista e patriarcal", diz.
O enfrentamento à violência doméstica passou a ser tratado como prioridade pela PM. A coronel Glauce Anselmo Cavalli, primeira mulher a assumir o comando da PM em 194 anos de corporação, afirmou durante a posse, nesta quarta-feira (29) que o tema será foco da gestão. Mais de politica
A nova comandante anunciou patrulhas exclusivas para o atendimento de chamadas de violência doméstica, as patrulhas lilases, que devem começar a operar a partir de maio, além da consolidação de cabines destinadas ao atendimento de vítimas mulheres nos centros de operações da PM e ampliação do atendimento via videochamadas.
Dados da SSP mostram ainda que outros crimes contra mulheres também permanecem em patamar elevado. Os registros de estupro somaram 3.852 casos no primeiro trimestre —sendo 1.185 em janeiro, 1.212 em fevereiro e 1.455 em março. No mesmo período de 2025, foram 3.862 ocorrências (1.286, 1.201 e 1.375, respectivamente), o que indica estabilidade no indicador, com dez casos a menos.
A maior exposição de casos de violência e o debate público mais amplo sobre o tema têm contribuído para que mais mulheres denunciem agressões, segundo especialistas. Leia também: Asfalto que cedeu em Belém foi feito por empresa de deputado investigado
Para Maíra Recchia, presidente da Comissão das Mulheres Advogadas da OAB-SP, o crescimento da violência também está ligado à disseminação de misoginia, especialmente em ambientes digitais. "A gente tem visto a expansão de grupos como red pills e incels. É um conteúdo que incentiva o ódio contra as mulheres e alcança um número muito grande de pessoas", diz.
Ela afirma que há também um processo de monetização desse tipo de conteúdo, o que intensifica o problema. "Quanto mais engajamento, mais dinheiro isso gera, e esse ciclo se retroalimenta. Enquanto a gente não enfrentar esse fenômeno da misoginia digital, não vai conseguir começar a estancar essa violência."
Recchia também chama atenção para a gravidade dos casos. "Não é só o número de feminicídios que aumenta, mas a crueldade com que eles vêm sendo praticados."
Entre os problemas, Recchia cita a ausência de delegacias da mulher com funcionamento 24 horas em todos os municípios, falhas no monitoramento de agressores e a necessidade de reeducação. "Se o agressor não é reeducado, ele repete esse comportamento em outro núcleo. A gente fica enxugando gelo."
Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) aponta que cerca de 13% das vítimas de feminicídio tinham medida protetiva ativa no momento da morte, ou seja, já haviam buscado ajuda do Estado. O dado evidencia falhas na efetividade da proteção mesmo após a denúncia.
Queda de homicídios, roubos e furtos
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