MasterChef volta ao noticiário após novo desdobramento
Ler matéria →Sozinho e insone na antiga casa da família, em Curitiba, Felipe Hirsch viveu um momento de irritação com a assistente de inteligência artificial Claude, com quem havia passado 15 horas seguidas conversando, como parte das pesquisas para a montagem de "Orkhéstra Phántasma", sua nova peça. O "diálogo" gerou um arquivo de 500 páginas e um alerta da ferramenta: " Vai dormir.
Só volto às 6h". Falante, curioso e erudito, Hirsch esgotou o sistema com a sua insistência. A maratona virtual ocorreu em meio ao silêncio do imóvel vazio, onde se hospeda uma vez por mês para visitar a mãe, hoje vivendo em uma clínica especializada no tratamento da doença de Alzheimer, na capital paranaense.
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Ali, no espaço ocupado por lembranças da infância e da juventude, o diretor e dramaturgo viu fantasmas na sala de jantar —o padrinho passava a travessa de comida, a mãe conversava, todos riam. "Eu olhava, via e ouvia. Ao mesmo tempo, cortava para o silêncio profundo.
Nunca tive uma sensação de tempo tão forte", diz ele. O olhar para o passado e o vislumbre do futuro recheiam a mente de um dos mais importantes e inquietos homens do teatro brasileiro e criam ruídos capazes de alimentar a sua nova produção, tratada como o início de uma nova etapa na carreira de quatro décadas. "
Orkhéstra Phántasma", que estreia neste sábado (20), no Sesc Vila Mariana, em São Paulo, é definida como um conjunto de sons, vozes, ruídos, obsessões, mitos e ideias que cruzam uma cabeça. Na verdade, algumas cabeças. Hirsch assina a dramaturgia ao lado do escritor e linguista Caetano W. Galindo, colunista da Folha, da assistente de direção Juuar e da equipe do espetáculo. Leia também: Ram tem a picape V8 mais rápida: VW revela T-Cross que ninguém compra
No palco, uma transmissão de rádio muda de estação constantemente, com uma antena sensível a sons de outros tempos, mundos diferentes, vozes vivas e mortas. " Essa orquestra, inexistente mas presente, pode falar línguas que não entendemos, idiomas que talvez nem existam, pode nos colocar numa posição de fascínio ou recusa.
Mas se recusa, ela mesma, a nos atender no que podíamos esperar. As frequências que sintoniza são, ao mesmo tempo, rádio, jukebox, karaokê e turntable", diz o texto do programa. Um vídeo da exposição "Fala, Falar, Falares", com curadoria de Galindo e da cineasta e cenógrafa Daniela Thomas, no Museu da Língua Portuguesa, despertou a criação.
Hirsch aprendeu que a palavra karaokê vem do japonês, unindo "kara" (vazio) e "okesutora" (orquestra). Nos meses seguintes, não parou mais de reunir ruídos para dar forma a um trabalho que ele afirma ser o primeiro após uma ruptura. O diretor vive uma espécie de terceiro ato de sua vida teatral, iniciada com a fase na Sutil Companhia, com as montagens de peças notáveis como "
A Vida É Cheia de Som e Fúria", " Puzzle" e " Avenida Dropsie
", quando assumia uma persona centralizadora. Em seguida, veio o período no Coletivo Ultralíricos, de encenações em grupo, experimentais e políticas, baseadas na literatura latino-americana e com a música tomando a frente, como em "Língua Brasileira", com Tom Zé. Mais de entretenimento
Agora, sua aposta é em espetáculos mais sensoriais e reflexivos sobre o destino da humanidade sob o domínio de grandes corporações. O novo desassossego é fruto da parceria com Galindo, iniciada em " Agora Era Tudo Tão Velho: Fantasmagoria IV", peça polêmica de 2024 em que parte da plateia saía do meio da apresentação, cansada da fala repetitiva de um dos atores, enquanto a outra parte se divertia com a situação inusitada.
" A parceria é de duas pessoas pensando o tempo todo, construindo", diz sobre as trocas diárias com o linguista. Ele não quer, no entanto, que essa base intelectual seja refletida no palco.
A intenção é que o público saia do teatro comovido com o que viu. " Esse espetáculo não parece nada com o que eu já fiz", afirma, empolgado e curioso sobre a reação do público. Leia também: Salão do Livro do Piauí celebrou: o detalhe que mais repercutiu
Sob o controle das grandes empresas, como podemos ser ruidosos, subversivos?, questiona o diretor. A IA, usada e abusada nas noites de insônia, também é uma vilã que precisa do brio da resistência para não dominar tudo e todos. O teatro é uma das possibilidades de criar frestas de sobrevivência para a criatividade humana.
Nas lembranças sobre os fantasmas de sua vida —que já temeu ao ponto de precisar dormir com uma luz acesa—, Hirsch recorda a reação de Antunes Filho, um dos seus mestres, quando contou sobre o desejo de conviver com os espíritos do Teatro Anchieta. Antunes colocou a mão em seu peito e perguntou: "
Você está bem? " É lenda, mas o diretor parece acreditar na história de que as paredes das casas e dos teatros gravam traumas, vozes e geram aparições nos ambientes.
" Fiquei imaginando um teatro com essas reproduções. E a nossa cabeça é isso também, é uma orquestra com esses fantasmas", diz.
" Essa peça é isso, as vozes na cabeça". "
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