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Fatih Akin desnuda o horror da guerra pelo olhar de criança com família nazista

Alessandra Monterastelli Cannes (França) Quando Fatih Akin aceitou dirigir "Uma Infância Alemã", filme sobre um menino de família nazista baseado na infância do ator

Fatih Akin desnuda o horror da guerra pelo olhar de criança com família nazista
Alessandra Monterastelli
Cannes (França)

Quando Fatih Akin aceitou dirigir "Uma Infância Alemã", filme sobre um menino de família nazista baseado na infância do ator alemão Hark Bohm, seu amigo, ele não se sentia muito conectado à história. Essa herança não pertencia a ele, pensava o diretor de origem turca —mas mudou de ideia após as filmagens. "Sou responsável por tudo que os humanos fazem com outros humanos. Isso é o que aprendi", diz.

Menino vestido com uniforme marrom e boné preto olha para a direita, ao lado de uma parede branca com janela. Bicicleta encostada na parede ao fundo, campo verde e céu nublado ao longe.
Cena de 'Uma Infância Alemã', filme de Fatih Akin - Divulgação

O tema não era exatamente estranho a Akin. Crescido em Hamburgo, ele se tornou um rosto conhecido do cinema independente alemão após vencer o Urso de Ouro do Festival de Berlim com "Contra a Parede", em 2004 e, principalmente, o Globo de Ouro de filme estrangeiro em 2017 por "Em Pedaços", história sobre uma imigrante turca que quer se vingar dos neonazistas que assassinaram seu filho e marido.

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"Todos os meus filmes falam de 'outsiders', de refugiados, de pessoas que deixam seu país para começar em outro lugar", diz Akin no terraço de um hotel na Croisette, durante o Festival de Cannes, onde "Uma Infância Alemã" foi exibido fora de competição no ano passado. Em comum, suas histórias investigam como essas pessoas redefinem a própria identidade quando já não pertencem ao lugar de partida ou destino.

Em seu novo filme, talvez a resposta seja mais complexa. É que Nanning, menino de dez anos que é protagonista de "Uma Infância Alemã", não está partindo para lugar algum —pelo contrário, ele vive isolado na pacata e rural ilha de Amrum, no extremo norte da Alemanha, nos anos 1940. Seu pai, um oficial nazista, está no continente, e a mãe, também politicamente fervorosa, adoece e delira quando ouve na rádio que os alemães vão perder a guerra. Leia também: 'Língua' inverte lógica da opressão linguística e desafia plateia no Sesc

Só um pedaço de pão branco com manteiga e mel, ela diz ao garoto, poderia melhorar o seu humor. Nanning faz do comentário uma missão, e parte pela ilha em busca dos ingredientes para saciar a mãe. O problema é que, com a derrota iminente, o país vivia uma grave escassez de alimentos, piorada pelo decreto de racionamento severo do governo nazista.

Em sua jornada, Nanning recebe ajuda de alguns habitantes de Amrum, e a ira de outros pela conexão de sua família ao regime. Inocente e ignorante, o menino não entende por que há quem odeie Adolf Hitler, venerado em sua casa. Aos poucos, porém, ele é introduzido à realidade violenta, em cenas com um quê de grotesco, estilo que virou marca de Akin.

Em certo momento, por exemplo, correndo pela praia, ele encontra o corpo em decomposição de um soldado, com o rosto já carcomido. Em outra cena, Nanning, incapaz de matar o coelho que capturou para um fazendeiro em troca de um ingrediente, vê o homem estripar o animal em sua frente, e a câmera não ignora os órgãos escorrendo para fora do bicho.

Para Akin, esses são momentos de contato do menino com a brutalidade da guerra, que não chega visualmente a Amrum. "Ver a guerra, ver a vida e a morte por meio da natureza e entender que ele [Nanning] precisa fazer parte disso se quiser sobreviver", diz o diretor. Mais de entretenimento

Para Akin, existe certo paralelo com o presente, em como as pessoas são acostumadas a normalizar as violências contemporâneas em seu cotidiano. "Minha filha de 12 anos viu a gravação da cena do coelho e odiou. As pessoas comem carne, mas deveriam ver como a carne é obtida. Ela não nasce no supermercado."

"Uma Infância Alemã" lembra "Jojo Rabbit", longa de Taika Waititi sobre um garoto obcecado por Hitler que descobre que a mãe está escondendo uma garota judia em sua casa. O longa de Akin, porém, não tem o mesmo humor meio punk, e acaba sendo um coming-of-age sobre a perda de inocência mais dramático. Leia também: Vik Muniz usa cinzas do Museu Nacional para recriar relíquias perdidas

A produção do longa é assinada pela Bombero International, empresa de Akin, e pela Warner. Antes de "Uma Infância Alemã", Akin conta que precisou desistir de alguns filmes por não conseguir financiá-los, entre eles um que deveria ser rodado em Hollywood.

"Foi uma experiência péssima. Trabalhei duro demais naquele filme. Fiz um storyboard inteiro, criei monstros e tudo mais. Reescrevi o roteiro por causa da greve dos roteiristas. E não recebi um único dólar por aquela merda", diz Akin, sem esconder a frustração. "A única razão pela qual me tornei produtor foi para proteger meus filmes e fazê-los do jeito que eu queria. E, às vezes, nem isso consigo."

O desânimo com a indústria cinematográfica, porém, parece ficar de lado em nome de outro propósito. "O cinema sempre surpreende você. É sobre começar um filme como diretor e terminá-lo como autor. Esse é o mistério do cinema", diz ele. "É como o que Keith Richards disse sobre tocar guitarra. Existe um acorde secreto. Estou procurando esse acorde secreto."

Uma Infância Alemã

  • Onde Nos cinemas
  • Classificação 14 anos
  • Elenco Com Jasper Billerbeck, Diane Kruger e Hark Bohm
  • Produção Alemanha, 2025
  • Direção Fatih Akin

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