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Exposição em Paris recria os passos de Robert Capa na Segunda Guerra Mundial

[RESUMO] O fotógrafo português Edgar Martins venceu o prestigioso Prêmio Sony com série de imagens produzidas no norte da África, na qual procurou reconstituir a

Exposição em Paris recria os passos de Robert Capa na Segunda Guerra Mundial

[RESUMO] O fotógrafo português Edgar Martins venceu o prestigioso Prêmio Sony com série de imagens produzidas no norte da África, na qual procurou reconstituir a trajetória de amigo morto em guerra na Líbia, cujo corpo nunca foi encontrado. Em entrevista, Martins comenta como se preparou para o projeto e lidou com os riscos, discorre a respeito de suas influências estéticas e de técnicas de representação de conflitos e relembra a experiência catártica de ouvir relatos de pessoas afetadas pela guerra.

A noite em que Edgar Martins ganhou o título de fotógrafo do ano no Prêmio Sony Internacional 2023, em abril, foi mais comentada por um acidente de percurso: o alemão Boris Eldagsen anunciou que recusava o prêmio da categoria criatividade porque tinha usado inteligência artificial para gerar sua imagem. Pronto: dominou a cena e eclipsou o projeto do fotógrafo português que venceu o concurso com um portfólio produzido na Líbia, na Tunísia e no Egito, de 2019 a 2022, onde procurou reconstituir os passos de um amigo morto na guerra civil líbia em 2011, o sul-africano Anton Hammerl. Nascido em Évora (Portugal), Martins foi criado em Macau (China), onde fez faculdade.

Estudou literatura e se formou com um livro de prosa poética que considerou muito visual. Decidiu migrar de área: estudar belas artes e fotografia na Inglaterra, país em que vive. Hoje ainda escreve, mas como suporte para os trabalhos artísticos —ou para criar os nomes de seus trabalhos, sempre bastante palavrosos.

Pouco conhecido no Brasil, Martins tem uma trajetória premiada e exposições em vários cantos do mundo. Em 2018, já havia vencido a categoria natureza morta do Prêmio Sony, com fotografias de um projeto realizado no Instituto de Medicina Legal, o IML de Lisboa. Em 2008, ganhou o New York Photography Award e, em 2009, o BES, principal prêmio de fotografia de Portugal.

Você se radicou na Inglaterra? Sim. Eu vim para a Inglaterra estudar fotografia e belas artes depois de estudar literatura e filosofia em Macau (na China), no final dos anos 1990.

Lá, publiquei um livro que era uma espécie de romance biopoético, dividido em três capítulos: poesia, prosa poética e ensaios filosóficos, com um título que eu gosto muito: " Mãe, Deixa-me Fazer o Pino" [ em "brasileiro", seria: " Mãe, me Deixa Plantar Bananeira"). Leia também: Semana de moda do Rio retorna com cacife para repor o tempo perdido

O livro foi muito inspirado na poesia beat e tinha angulações existencialistas de Fernando Pessoa, em particular do " Livro do Desassossego". Quando o terminei, percebi que minha poesia era incrivelmente visual.

E isso me levou a explorar as artes visuais e a fotografia. Por que foi morar na China? Foi decisão dos meus pais.

Depois da Revolução dos Cravos (1974), houve um movimento de emigração em Portugal, meus pais decidiram ir para Macau e eu fui com eles. Eu tinha 3 anos e vivi em Macau cerca de 18 anos. Você é fluente em chinês?

Falo um cantonês coloquial. Mandarim eu falo muito pouco. Não tenho tido contato com a China já há alguns anos e é uma língua que se pode perder facilmente.

Você ganhou o Prêmio Sony 2023, um dos mais prestigiosos do mundo. Imaginava ocupar esse lugar de destaque internacional? Eu tive vários sucessos na minha prática artística, e em 2018 já tinha ganhado uma das dez categorias do Prêmio Sony, a de natureza morta (still life). Mais de entretenimento

Eu apresentei um projeto conceitual, sobre a representação da morte. Mas obviamente não era a categoria principal, de fotógrafo do ano no mundo. Como nasceu a ideia de ir à Líbia em busca de uma pessoa perdida?

O projeto se chama " Our War Leia também: Como o festival de música Coachella se tornou uma mina de ouro para as marcas

" (nossa guerra). Trata-se de uma série de imagens inéditas produzida durante um período de cerca de três anos na Líbia e em países vizinhos do norte da África. É um projeto abrangente e complexo que eu intitulo "

A mão do Anton é Feita de Culpa e Não Tem Músculo nem Osso. Ele Tem Dois Dedos

Clinicamente Deprimidos e um Polegar Zangado". Eu brinco que meu desafio foi preencher a capa inteira de um livro apenas com o título.

O projeto tem como ponto de partida uma investigação sobre a morte e o desaparecimento de um grande amigo meu, o fotojornalista Anton Hammerl, durante a guerra da Líbia, em 2011. Naquele ano, ele foi para a Líbia com três outros colegas, para cobrir o conflito entre as forças do regime de Muammar Gaddafi e os rebeldes. Em 5 de abril, alguns dias após terem chegado, eles foram sequestrados pelas milícias que apoiavam o regime, perto da cidade de Brega.

Cerca de dois meses depois, quando os colegas do Anton foram libertados, nós viemos a descobrir que Anton foi morto logo no primeiro dia em que os colegas foram capturados e seu corpo foi abandonado no deserto. Os restos mortais do Anton ainda não foram encontrados. Durante os últimos dez anos, a família e os amigos tentamos obter o apoio de vários governos: líbio, inglês, austríaco, sul-africano e da ONU.

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