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'Exit 8' aposta na fidelidade ao game para criar experiência claustrofóbica

Thales de Menezes São Paulo Exit 8 Onde Nos cinemas Classificação 14 anos Elenco Kazunari Ninomiya, Yamato Kochi e Naru Asanuma Produção Japão, 2025 Direção Genki

'Exit 8' aposta na fidelidade ao game para criar experiência claustrofóbica
Thales de Menezes
São Paulo

Exit 8

  • Onde Nos cinemas
  • Classificação 14 anos
  • Elenco Kazunari Ninomiya, Yamato Kochi e Naru Asanuma
  • Produção Japão, 2025
  • Direção Genki Kawamura

O filme japonês "Exit 8" parte de um conceito simples, primal até, para construir uma experiência de tensão psicológica que dialoga diretamente com sua origem nos videogames. Adaptado de um jogo que se tornou fenômeno online por sua proposta enigmática, o longa preserva a essência competitiva: a repetição, a observação atenta e o desconforto crescente diante de algo banal.

A trama acompanha um homem no metrô. Sua ex liga em seu celular para avisá-lo que está grávida. Perturbado com a notícia, ele desce numa estação e caminha para a rua. Aos poucos, o sinal do celular falha e ele perde contato com ela. E aí percebe que está andando em um cenário muito estranho.

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Homem de cabelos curtos e escuros veste moletom roxo e jaqueta cinza, posicionado em frente a placas informativas em japonês e inglês. Ao fundo, placa amarela indica saída 8 com seta preta apontando para baixo à direita, e placa branca com instruções de segurança em japonês e inglês.
Cena do filme 'Exit 8', de Genki Kawamura - Divulgação

Ele passa constantemente pelos mesmos corredores subterrâneos, como se não existisse uma saída. Em um deles, cruza todas as vezes com um mesmo homem que caminha tranquilamente. Depois de vários "encontros", decide interpelar o sujeito, que nada diz. Só então ele percebe instruções nas paredes.

Cada vez que perceber uma anomalia, ele deve recuar. Enquanto não aparece alguma, deve seguir em frente. O que é uma anomalia? Ele descobrirá que é qualquer diferença entre uma e outra passagem pelo mesmo lugar. Seja um cartaz na parede, uma placa de orientação, uma porta... Leia também: Djavan, avesso à autocelebração, se permite: o detalhe que mais repercutiu

Essa regra única é clara e inquietante e deve ajudá-lo a alcançar a misteriosa "saída 8". A premissa, que poderia soar limitada, e realmente é, revela momentos inventivos à medida como o filme explora pequenas variações visuais e sonoras para criar suspense.

Cada detalhe, que pode ser um cartaz levemente alterado, uma figura que se move de forma quase imperceptível ou uma mudança na iluminação, ganha peso dramático. E o maior mérito de "Exit 8" é essa fidelidade estrutural ao jogo. Em vez de expandir a narrativa com explicações ou subtramas, recurso comum a adaptações cinematográficas de games, a repetição é uma ferramenta narrativa.

Essa escolha é arriscada: o que funciona interativamente nos videogames nem sempre se traduz para o cinema. No entanto, aqui a repetição se transforma em linguagem. O espectador é convidado a participar do jogo mental do protagonista, tentando antecipar as anomalias e compartilhando sua paranoia crescente.

Ao mesmo tempo, o filme adiciona camadas psicológicas que não estavam explícitas no original. Se no jogo a experiência é mais abstrata, no longa há uma sugestão de que o corredor funciona como metáfora para ansiedade, para ciclos de pensamento obsessivo ou até para a alienação urbana contemporânea. Essa dimensão simbólica amplia o alcance da obra, ainda que, por vezes, dilua a pureza conceitual do jogo. Mais de entretenimento

Visualmente, "Exit 8" é rigoroso. A direção aposta em enquadramentos repetitivos e simétricos, reforçando a sensação de aprisionamento. A câmera raramente se afasta do protagonista, criando uma experiência claustrofóbica. A trilha sonora é econômica, muitas vezes apenas o barulho dos passos, o que intensifica o desconforto.

Após a explicação dessa opção estética, é fácil constatar problemas. O filme, ao permanecer tão fiel à mecânica do jogo, corre o risco de se tornar previsível ou até repetitivo demais para o público não familiarizado com a obra original. A ausência de uma progressão narrativa mais tradicional pode afastar espectadores que esperam uma resolução mais clara ou um desenvolvimento dramático convencional. Leia também: Panorama do Entretenimento: Literatura, Artes, TV e Notícias da Semana

O maior dilema em torno de "Exit 8" já ficou claro na estreia do filme no Festival de Cannes do ano passado. Ele atraiu atenção porque o diretor Genki Kawamura levou à competição em 2023 o ótimo "Monster", drama sobre violência em escolas. Exibido em uma das mostras paralelas, "Exit 8" despertou curiosidade imediata pelo seu vínculo com um game cult. Mas a pergunta que despontou na imprensa foi uma só: isso é um filme?

Recebeu elogios por sua ousadia formal e a fidelidade ao conceito original, destacando a capacidade de transformar repetição em tensão cinematográfica. Por outro lado, houve quem considerasse a proposta excessivamente restritiva para o circuito de festivais, apontando que poderia ser mais um experimento do que um longa plenamente desenvolvido.

Em busca de uma análise conclusiva, é possível dizer que "Exit 8" funciona melhor quando abraça sua estranheza. É menos um filme de narrativa tradicional e mais uma experiência sensorial e psicológica, que desafia o espectador a observar, duvidar e, sobretudo, permanecer atento. Achar a saída é apenas um detalhe.

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