Esta tecnologia salvaria vidas com lesão medular, mas não chega para todos Enquanto se discute tratamento para o futuro, como a polilaminina, pacientes não contam nem com tecnologia para um dos principais sintomas A lesão medular impõe desafios que vão muito além da perda de movimentos. Um dos mais graves — e ainda pouco debatido fora do meio médico — é a chamada bexiga neurogênica, condição que afeta diretamente a forma como essas pessoas eliminam a urina.
Quando não tratada adequadamente, ela se torna uma das principais causas de infecções urinárias recorrentes, internações frequentes, danos aos rins e até morte precoce. No Brasil, onde mais de 350 mil pessoas convivem com a condição, esse não é apenas um problema clínico, mas também social, sanitário e econômico. O impacto da bexiga neurogênica
Leia no AINotícia: Panorama da Saúde: Direitos, Dependência e Desafios no Tratamento
Pessoas com lesão medular estão entre os grupos mais vulneráveis a infecções do trato urinário, pois cerca de 70% delas apresentam bexiga neurogênica. Nesse cenário, muitas vezes essas infecções são tratadas repetidamente com antibióticos, mas esse uso contínuo aumenta o risco de surgimento de bactérias resistentes — as chamadas superbactérias — apontadas por estudos da Fiocruz como uma das principais ameaças à saúde pública nas próximas décadas. As diretrizes do próprio Ministério da Saúde reconhecem que as infecções urinárias são uma das maiores causas de complicações tardias em pessoas com lesão medular. Leia também: Panorama da Saúde: Direitos, Dependência e Desafios no Tratamento
Por isso, a prevenção é central no cuidado. Atualmente, há muitas discussões sobre o potencial da polilaminina no tratamento desses pacientes e sobre como ela pode, no futuro, contribuir para a recuperação de diferentes funções motoras, o que de fato é um avanço muito significativo. Porém, enquanto essas pesquisas continuam evoluindo, existem medidas que já podem ser adotadas hoje e que têm potencial para melhorar de forma considerável a qualidade de vida das pessoas que convivem com a condição.
Evidências recentes mostram que o uso de cateteres hidrofílicos — tecnologia que reduz o atrito e o risco de lesões internas — diminui significativamente infecções, internações e a necessidade de antibióticos. Em outras palavras, evita sofrimento humano e gastos evitáveis. Acesso desigual e violação de direitos
No Brasil, o cateter hidrofílico foi incorporado ao Sistema Único de Saúde (SUS) em . Pela legislação vigente, tecnologias incorporadas devem ser disponibilizadas à população em até 180 dias. No entanto, a implementação dessa tecnologia ainda enfrenta desafios relacionados à organização e pactuação entre os diferentes níveis de gestão do sistema de saúde.
Na prática, isso significa que, embora a tecnologia esteja formalmente disponível, seu acesso ainda não é uniforme em todo o território nacional. Essa heterogeneidade impacta diretamente a qualidade do cuidado e pode ampliar desigualdades regionais. Esse cenário cria um paradoxo: Mais de saude
economiza-se na prevenção e paga-se muito mais depois com internações, antibióticos caros e tratamentos de complicações graves. Municípios mais pobres, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, são os mais impactados, ampliando desigualdades no acesso à saúde. Do ponto de vista legal, a situação também é clara.
A Constituição e a Lei Brasileira de Inclusão garantem às pessoas com deficiência o direito à saúde e ao acesso a tecnologias assistivas eficazes. Negar ou restringir esse acesso não é apenas uma decisão administrativa: é uma violação de direitos. O mesmo raciocínio vale para o setor privado. Leia também: Sua dor merece atenção!
Planos de saúde que investem em prevenção reduzem custos assistenciais no médio prazo e melhoram a qualidade de vida dos pacientes. Prevenir, nesse caso, é mais eficiente — e mais humano — do que remediar. Garantir o acesso a tecnologias adequadas no cuidado da bexiga neurogênica não é luxo nem privilégio.
É uma escolha estratégica para proteger vidas, evitar o avanço das superbactérias e tornar o sistema de saúde mais sustentável. Mais do que uma decisão técnica, trata-se de afirmar cidadania, responsabilidade pública e compromisso com o futuro da saúde no Brasil. *
Gilberto Koehler é gerente de Relações Governamentais e Institucionais da Coloplast Brasil.
