É um ambiente conflagrado em que as pessoas têm dificuldade de se entender e levantam armas em vez de argumentos. O assunto de Rui Tavares, historiador e deputado português que falou neste domingo na Feira do Livro, em São Paulo, não serve em nada para descrever a mesa em si, uma conversa clara e sofisticada com o jornalista Marcos Augusto Gonçalves. Na mesa da programação Folha na Praça, o colunista do jornal conversou com o editor da Ilustríssima sobre o estado do debate político hoje, a inteligência artificial e a história das guerras culturais —vindas de um homem que, ao ouvir a expressão "aldeia global", pensa muito mais na sua aldeia do que no globo.
"Cresci numa aldeia em que praticamente todos eram primos. E lá tinham as figuras do louco, do bêbado, da beata da aldeia. E consigo hoje olhar para a arena política e pensar, por exemplo, que aquela pessoa está fazendo o mesmo papel do louco da minha aldeia.
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" A fala reflete o espírito descontraído pelo qual Tavares se expressa. Para ele, político de esquerda que ocupa uma cadeira no Parlamento português, tão importante quanto escolher um bom "objeto de desejo" para engajar eleitores é desviar de temas improdutivos.
O autor de "Hipocritões e Oligarcas", novo livro da Tinta-da-China Brasil, se lembra de uma polêmica em torno do "burkini" nas praias europeias, expressão que designava roupas de banho adaptadas à cultura islâmica .
Na deliberação sobre qual seria o posicionamento de seu partido, ele defendeu só deixar a polêmica passar; não era um assunto premente, disseminado em todo lugar. " Leia também: Morre Ronald LaPread, baixista e cofundador da banda Commodores, aos 75
Não vale a pena entrar num debate dilacerante para o partido por causa de um 'burkini' que ninguém viu. " O português diz que uma lógica parecida pode servir para o posicionamento dos partidos de esquerda em relação à designação, pelos Estados Unidos, do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas.
" Acadêmicos podem argumentar, com razão, que a etiqueta de terrorismo não serve nesses casos. Mas se você é um cidadão aterrorizado pelo PCC ou pelo CV, você considera aquilo uma organização terrorista e ponto.
O debate acadêmico pode escolher defender não usar essa palavra e morrer nessa trincheira, ou passar ao largo dessa questão taxonômica. " Um exemplo de "objeto de desejo político" que a esquerda usou de maneira positiva, por sua concretude e por dialogar facilmente com públicos diversos, é a escala 6x1, aprovada pela Câmara dos Deputados nesta semana.
Outra lembrança que Tavares trouxe na conversa foi a defesa de Lula de que o cidadão pudesse "voltar a comer sua picanha com a família" em seu governo, algo tornado quase um slogan involuntário. Novamente, é um caso de mensagem direta que atinge muitos públicos, remetendo a tempos de bonança e à diversão sem culpa. "
O campo progressista está cheio de culpa, o que é um erro crasso", afirmou ele. " Houve um tempo em que a esquerda era conhecida por dizer: Mais de entretenimento
'Ah, você é de tal jeito? Tudo bem. ' Hoje, quem diz isso é a direita.
" Outro assunto abordado durante a mesa foi a inteligência artificial, e Tavares se mostrou preocupado com a falta de diálogo internacional sério sobre isso. "
Em todos os episódios anteriores de mudanças tecnológicas de grande dimensão, como as bombas nucleares, os Estados se sentavam em conjunto e redigiam tratados. Com a IA, não acontece nada. A esquerda parece que se demitiu de falar disso. Leia também: Nattan se desculpa por show em Maracanaú e promete apresentação gratuita
" Quem "ocupou esse vazio", segundo ele, foi o papa Leão 14, que publicou sua primeira encíclica nesta semana justamente sobre esse tema. "
Essa encíclica tem aspectos muito interessantes. É um grande mérito alguém com a dimensão religiosa e transnacional que o papa tem dizer que a humanidade precisa conversar sobre isso. "
Mais cedo, na abertura do Palco da Praça, o Clube do Livro da finada Rádio Eldorado se reuniu com a escritora Giovana Madalosso, colunista da Folha.
Essa foi a primeira vez que o clube aconteceu desde o fim da rádio, como lembrou a apresentadora Roberta Martinelli, mediadora da mesa, que lembrou que a série de encontros seguirá como um podcast. Ao falar de seu romance "Batida Só", Madalosso explicou que tirou o conflito central da vida de sua filha.
Assim como a personagem principal, a filha da escritora conviveu com uma doença de coração —para não morrer, precisava viver de maneira regulada, "quase incompleta". " Percebi que isso era uma metáfora para nosso tempo quando, em encontros com amigas, eu ouvi que elas não queriam mais se apaixonar para não sofrer", contou a autora.
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