Jogo da França tem risco de tempestade com raios e pode ter paralisação
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O choro de um menino de 10 anos, corpinho de 7, por perder um jogo de futebol. O enxame de crianças em torno de mim porque eu estava distribuindo alguns chaveirinhos de bola de futebol com as cores do Brasil. O conformismo de uma mulher que fala quatro idiomas, cuida de uma pequena biblioteca e não tem nenhuma perspectiva de conhecer outro país ou mesmo outra cidade, pois a dela está sitiada. O lixo. Lixo e mais lixo e mais lixo. Tudo na rua, na orla, parte integrante da paisagem.
Realmente, há imagens do Haiti que serão difíceis de descolar na retina. Ficarão marcadas, como fica marcada a cobertura histórica aqui no UOL. Jornalismo é mais do que emitir opiniões ou fazer entrevistas banais com torcedores.
Leia no AINotícia: Esporte: Panorama Semanal da Copa do Mundo e Futebol Nacional
Ninguém sai igual de nenhum país em que pisa. A convivência e observação de culturas e pessoas diferentes nos faz melhores e mais empáticos. Só que há lugares e lugares. Impactos e impactos. E o Haiti, realmente, é um lugar muito intenso.
Esta viagem foi planejada com muito cuidado nos últimos seis meses, desde o sorteio que colocou Brasil e Haiti no mesmo grupo da Copa do Mundo. Não era somente uma aventura exótica. Era uma aventura bastante cara, porque chegar a Porto Príncipe hoje em dia se faz exclusivamente por uma companhia aérea haitiana desconhecida- a Sunrise -, que tem cobrado preços abusivos para voos de curtíssima duração. O aeroporto internacional está fechado pelo tema da violência, mas a pista utilizada atualmente é. a mesma. Apenas o terminal para embarque e desembarque é diferente. A quem interessa manter a capital "fechada"? Não tenho resposta, é parte do Haiti complexo.
Uma aventura cara e perigosa. Porque Porto Príncipe é uma cidade sitiada, dividida entre territórios de poder de um ou outro grupo armado e territórios dominados pela polícia local com a ajuda dos cidadãos, porque a força pública não dá conta. É um negócio difuso, como sempre foi na história do Haiti independente. A Revolução Haitiana, promovida por escravos e na esteira da declaração dos direitos do homem na França, já foi marcada por conflitos internos, entre os próprios comandantes, desde o início. A realidade é que o país está há mais de 200 anos lidando com conflitos e formações de milícias- grupos militares ou paramilitares- para que o líder da vez seja protegido. Até não ser mais. Um círculo vicioso de desconfiança, falta de pacto social e violência. Leia também: Reis, Boscardin e Meligeni caem na estreia do quali de Wimbledon
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Em Porto Príncipe e Cabo Haitiano, o trânsito revela muito sobre o Haiti. Não há semáforos ou qualquer tipo de sinalização. Não há regras. É um enorme "cada um por si" ao som de buzinas. Os carros e motos disputam espaço com os pedestres, com um onipresente comércio de rua, pessoas indo e vindo e estudantes vestidos à moda antiga, todos e todas arrumadinhos, de forma impecável. O que também é revelador sobre o Haiti, um país ainda apegado a algumas formalidades.
Nos dois dias em Porto Príncipe, passei boa parte do tempo entre a Embaixada do Brasil e o Centro Cultural Brasil, dois locais seguros. Conheci pessoas incríveis, que realmente de uma forma ou de outra contribuem para que o país seja um lugar melhor. Ninguém ousa por aqui pensar em grandes planos de transformação, porque isso parece impossível no Haiti. É um passo por vez. Um grão de areia de cada vez. Mas calma, porque em outro lugar há grandes planos e já falarei deles.
José Antonio González é um peruano que está há 30 anos no Haiti e administra a Viva Rio, atuante em todas as áreas do país. Quantas vidas a Viva Rio salvou por aqui? Uma eu conheci na noite do jogo. J. M., capoeirista, era um menino-soldado. Nós conhecemos esta realidade no Brasil, como o crime e grupos armados cooptam crianças para fazer parte do trabalho deles. É das coisas mais cruéis que podem ser feitas. Sugar o futuro e condenar desde tão cedo uma pessoa à morte prematura. Dizem que 70 a 80% dos grupos criminosos são formados por crianças e adolescentes, pessoas que seriam os agentes transformadores do país.
J. M. já foi duas vezes ao Brasil, uma alegria que nunca tiveram Kemberlen ou Sterling. Mulheres brilhantes que trabalham no Centro Cultural Brasil, mas não têm a menor condição de sair do Haiti no momento pelos preços praticados e também pelo fato de o passaporte haitiano não ser o melhor do mundo, no momento, para garantir acesso aos quatro cantos do planeta. "Eu quero muito conhecer a Amazônia e participar de grupos de convívio com indígenas", me conta a primeira, apaixonada pela cultura brasileira. Mais de esporte
Entre tantas pessoas sem escolha, me chamou demais a atenção o Werner, apelidado de Neno. Ele chegou ao Haiti um dia antes do mega terremoto de 2010, para fazer um trabalho de pesquisa de campo- na época, era estudante da Unicamp. Ia encontrar um professor para a entrevista, mas o sujeito tinha sido assassinado horas antes do terremoto. Neno e algumas outras centenas que protestavam contra o crime tiveram as vidas poupadas exatamente porque estavam na praça, a céu aberto. "Demorou para entender o que estava acontecendo. Parecia que o chão estava tremendo por causa do protesto. Mas aí as janelas de um prédio explodiram. E aí caiu a fachada do cinema em cima de uma pessoa. Existe um tempo de absorção para entender o que está acontecendo."
Claro, depois de um professor assassinado e um terremoto que arrebenta com a cidade, você tem duas opções. 1) Nunca mais querer voltar ao Haiti; ou 2) Voltar dois anos depois e lá viver desde então. Adivinhem qual foi a escolhida.
"Porto Príncipe não existe mais. Virou um campo de batalha. Onde você esteve, Petionville, era um bairro afastado na montanha. Agora a cidade subiu para lá para fugir das gangues. E milhares de pessoas estão vindo para Cap, por isso a cidade está ficando desse jeito". Agora já estou conversando com Jean-Patrick e estamos na cidade de Cabo Haitiano- era Cap Français e virou Cap Haitien no dia seguinte à independência. Aqui todos chama de "Le Cap". Leia também: Memphis some do sistema da FPF, mas Corinthians confia em novo contrato
Esta era a porta de entrada dos franceses e, daqui, tentavam governar Saint Domingue (Santo Domingo), como era chamada a colônia. Parênteses: Haiti era como a população nativa, indígena, chamava o local e estes já haviam sumido do mapa por conta da chegada dos espanhóis na era dos descobrimentos, antes mesmo de a ilha ter ido parar nas mãos dos franceses. Quando os ex-escravos tomaram finalmente o poder, batizaram a nova república com o nome "nativo".
Le Cap era o principal local do país e foi a última a ser tomada, na Batalha de Vertiérs, aquela imagem que a Fifa mandou tirar da camisa do Haiti de forma escandalosa. Napoleão Bonaparte mandou a maior esquadra já enviada pela França (à época), 40 mil homens, para reconquistar Saint Domingue. Seria só uma escala protocolar. O plano era depois estabelecer, a partir do Haiti e da Lousianna, o domínio total do que chamamos hoje de Golfo do México. A Louisianna (que leva esse nome em homenagem ao rei Luís XIV) ia de Nova Orleans, onde está efetivamente o estado hoje, até lá em cima, onde hoje é Minnesota, toda a extensão do rio Mississippi, o principal dos Estados Unidos atuais.
Atenção, pois. Foi a queda da França no Haiti que fez com que Napoleão vendesse a Louisianna para os americanos a preço de banana, e aquilo significou basicamente que os EUA dobrassem de tamanho e começassem uma grande expansão para o oeste.
O monumento de Vertiéres está bem preservado, considerando tudo o que vi no Haiti. Existe uma enorme grade o separando de uma espécie de estrada meio de asfalto meio de terra, com poeira por todos os lados sendo levantada pelos triciclos que tomam conta de Cabo Haitiano. Com a fuga de tanta gente de Porto Príncipe, a cidade do norte, que tinha 500 mil habitantes, já estaria com 1 milhão, segundo alguns, e até 3 milhões, segundo outros- logicamente, não há dados oficiais.
Não parece haver nada oficial, na verdade. No Haiti, você não vê lojas, bancos, caixas eletrônicos, escritórios. Eu entrei em um supermercado (chamaríamos assim), havia dois guardas com metralhadoras na porta. É difícil compreender como as pessoas vivem, como a economia gira. Mas elas vivem. Elas estão lá e elas produzem lixo, muito lixo. Em Cabo Haitiano, uma cidade que teria tudo para ser mais uma pérola do Caribe, um destino turístico como tantos outros, o lixo da cidade é todo depositado na orla. Sim, na praia. É um enorme lixão que se mistura com a cidade, com gente passando, os triciclos, poeira subindo e buzinas e buzinas e mais buzinas.
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